30 de dez de 2009

Papel de parede


Rafael decidiu forrar uma das paredes do quarto com suas fotos de criança. Sempre que a coisa apertava, gastava alguns minutos olhando para aquelas imagens, em busca de alguma coisa em si mesmo que parecia ter se perdido com o tempo. Naqueles olhos de criança conseguia esquecer-se um pouco do cansaço da vida, dos dias arrastados e da falta de sentido que vez ou outra aparecia à sua porta.

10 de dez de 2009

Pra ver o mar


Camila não entendia para que serviam as grades que atravessavam a janela do seu quarto. Sempre que tinha um tempinho se entortava toda para conseguir enxergar o mar, lá no fundo da paisagem, entre uma grade e outra. Não foram raras as vezes em que seus pais precisaram remover sua cabeça, com todo cuidado, de algum dos pequenos espaços que havia entre as barras. Também não foram poucas as broncas, os arranhões e os roxos conquistados ao longo desses episódios. Sabia que os outros não aprovavam o seu apreço pelo espaço entre as grades e por isso tinha o hábito de acordar uma hora mais cedo do que o resto da família. Era com os olhos no mar que ela passava - sempre, só e em segredo - a primeira hora dos seus dias.

7 de dez de 2009

Abundância


Os bens outrora raros tornam-se abundantes: o pão e os alimentos em geral. Ao contrário, os bens outrora abundantes tornam-se raros: o espaço, o tempo, o desejo.

Henri Lefevbre

29 de nov de 2009

Feito tatuagem


Leandro escovava os dentes quando percebeu alguma coisa diferente saindo pela gola da camisa. Apesar do porre homérico que havia encerrado o dia anterior, desconfiou que os rabiscos no pescoço não eram mera alucinação. Ao tirar a camisa percebeu que o seu tronco estava povoado por pequenas palavras em japonês. Quando se contorceu e seguiu as palavras até o meio das costas, surpreendeu-se com um grande mapa do Japão, tatuado em vermelho e preto. Até pensou em descobrir como aquilo tudo havia aparecido no seu corpo, mas a vida andava meio sem rumo e decidiu inverter a lógica. Vendeu algumas coisas, arrumou as malas e foi viver no Japão, até que todas aquelas tatuagens passassem a fazer sentido.

22 de out de 2009

De costume


Isaura havia passado quase duas semanas entre uma sala de cirurgia e um quarto de hospital. Lutou com unhas, dentes e parentes para que a vida não lhe abandonasse tão cedo. Ao longo daqueles dias recebeu visitas e telefonemas de gente que não via há muito tempo. Contou também com a paciência e a companhia constante dos filhos adultos, coisa que lhe parecia tão rara. Do alto dos seus cinquenta anos, pensou que aqueles dias anunciariam o início de uma nova etapa em sua vida. Mas apenas dois dias depois de receber alta, já estava de volta à própria casa e à solidão que lhe era de costume.

29 de mai de 2009

11 de mai de 2009

Por um pio


Logo que viram o apartamento, apaixonaram-se pela bela copa de árvore que enfeitava a vista da janela do quarto. Eram nascidos no interior e gostavam de acordar com os pássaros. Ela mais do que ele, é verdade - porque ele gostava mesmo era de vê-la feliz. Por isso foi grande a decepção quando daquela árvore, ao longo de dois meses de casa nova, não saiu sequer um pio. Três dias antes do aniversário dela, ele teve uma idéia. Ela não acreditou ao acordar.

18 de mar de 2009

Pouco tempo


Seu Dorival havia comprado um carro na época das vacas gordas e atualmente enfrentava alguma dificuldade para sustentar o possante. De bico em bico, sobrava pouco dinheiro e muito pouco tempo para cuidar das muitas avarias que se acumulavam com tantos anos de uso. Naquele dia de azar, o carro cismou de enguiçar no meio de um engarrafamento. Não era a primeira vez e Seu Dorival sempre tinha a esperança de que alguém fosse aparecer para ajudá-lo a empurrar o carro até o acostamento. Geralmente não aparecia ninguém e ele nem condenava, pois sabia que, de bico em bico, para as outras pessoas também sobrava muito pouco tempo.

17 de mar de 2009

Trabalho


O sistema competitivo deforma o caráter humano. Subverte o instinto de trabalho, a tendência congênita de produzir dentro dos limites de nossa capacidade, o interesse pelo trabalho bem-feito.

Lewis Coser

4 de mar de 2009

Era uma casa


Marilda gostava muito dos seus irmãos, mas gostava acima de tudo da sua patroa. Trabalhava naquela casa já há mais de cinco anos e sabia ser hoje uma pessoa mais feliz do que na época em que conseguiu o emprego. Saboreava com gosto cada elogio à sua comida e cada brincadeira com as crianças. Achava um pouco ruim que a patroa trabalhasse muito durante a semana e só mesmo no sábado tivesse tempo pra sentar-se na cozinha. Por conta disso, mesmo liberada desde as duas horas, Marilda gostava de passar ali suas tardes de sábado e não costumava se despedir da patroa antes de anoitecer.