27 de nov. de 2004

Bancando o palhaço


O pessoal do hospital não gostava muito de mim, na certa achava que eu era inerte demais; até no hospital, e quem sabe no leito de morte, você é condenado a bancar o palhaço.

Michel Houllebecq

19 de nov. de 2004

Serenidade


A tarefa parecia-me cada vez mais fácil. Era absolutamente tediosa, o que não me desagradava, pois podia assim ocupar minha mente com outras coisas. (...) Chamava esse estado de serenidade escritural. Não era tão grande a diferença entre a função de monge copista, na Idade Média, e a minha... Como era bom viver sem orgulho nem inteligência. Eu estava hibernando.

Amélie Nothomb

11 de nov. de 2004

Introdução



O amor faz passar o tempo. O tempo faz passar o amor.

Quem me disse foi um senhor de sessenta anos.

9 de nov. de 2004

São mais de dois


Suspeito que atrás de todas as aparências há uma essência em luta. Quero unir-me a ela. Suspeito que a essência em luta busca também, atrás das aparências, unir-se ao meu coração. Mas o corpo se ergue entre nós e nos separa. A mente se ergue entre nós e nos separa.

3 de nov. de 2004

Assim por diante


Numa conversa sobre fidelidade...

A ocasião faz o ladrão.
A bebida faz a ocasião
Logo, a bebida faz o ladrão.
Quem não bebe não trai.

E assim por diante.

29 de out. de 2004

Brigitte (parte um)


aquele dia fora amarelo. Brigitte queria que tivesse sido azul como o céu estrelado, como nunca. talvez nem no dia em que Osvaldo e ela se encontraram pela primeira vez. mas a noite estava estrelada, e era isso o que lhe importava.

isso prometia que, no dia seguinte àquele, Osvaldo esperaria pelo que nunca aconteceria. Brigitte havia decidido fazer aquilo porque o coração de Osvaldo não permitia que a felicidade entrasse. Osvaldo temia que a nova felicidade fosse maior que a vida que ele havia sonhado para si, durante toda a sua juventude.

surpresa, era assim que Brigitte estava naquele instante, e nada parecia poder retirá-la daquele imprevisível estado, em que todos nos encontramos.

ela beijou Osvaldo no rosto e adormeceu.

28 de out. de 2004

Brigitte (parte dois)


horas depois, acordou.

Brigitte gostava de sair de casa todo dia às seis horas da manhã. ela seguia, até então, o ritual que inventara quando criança:

ao pisar fora de casa, olhava para o céu e respirava três vezes enquanto mentalizava a palavra amor,

amor, palavra que antes - e até então - parecia-lhe um grande enigma. talvez o maior deles. mas naquele instante tudo lhe apareceu claramente (obviamente) e ela decidiu que era hora de dar um abraço em Osvaldo. entregaria-se a outro na noite daquele novo dia. e agora, que iria separar-se de Osvaldo, não sabia se conseguiria repetir aquele ritual de todos os dias. o ritual parecia-lhe completamente desnecessário. amava-se, afinal.

Brigitte levantou-se. olhou para Osvaldo e disse: "nunca mais".

preparou-se para um encontro. saiu de casa correndo, numa agitação de cabelos e pulseiras balançando.

27 de out. de 2004

Brigitte (parte três)


ao abrir a porta, Brigitte surpreendeu-se de novo: todos observavam uma cena armada por um casal de barraqueiros, que só queriam arrumar confusão. ela não queria mais. decidiu dar meia volta.

parou no meio da meia volta.

olhou ao seu redor
e não encontrou ninguém
a quem admirasse ou
a quem devesse qualquer forma especial de respeito.

Brigitte libertou-se então da moral que a atormentara durante toda a sua vida. agora sentia aquele gostoso sentimento sem nenhuma culpa.

enquanto isso, ela chupava um picolé, um dos mais gelados que já havia experimentado. nada em sua memória comparava-se àquele frio, àquela paralização, àquela imobilidade.

foi quando ouviu uma buzina e, num rompante, bateu a porta, prendeu os cabelos e soltou algumas pulseiras no ar.

ajeitou seu vestido. caminhou dois quarteirões.

26 de out. de 2004

Brigitte (parte quatro)


sentou-se na calçada. esperava pelo primeiro carro que passasse. só iria de carro, porque se alguém passasse a pé, ainda que tivesse boa vontade, não poderia levá-la muito longe de casa. e, apesar da distância enorme que a separaria de seus pais e irmãos, Brigitte não se sentiria sozinha.

ela apenas sentia-se incomodada pela inércia que comandara os últimos dias. sentia-se presa a uma vida que não adequava-se aos seus planos nem aos seus desejos, agora incontroláveis.

Brigitte sentiu então que o clima daquele lugar lhe fazia bem. já há muito tempo não passavam carros nem pessoas. ela gostava de sentir-se. ali mesmo. na calçada.

a sua vida poderia transformar-se. antes mesmo que qualquer carro ou kombi ou caminhão passasse e a levasse dali.

horas se passaram. Brigitte experimentava-se.

25 de out. de 2004

Brigitte (parte final)


enquanto isso, dois carros e uma caminhonete ofereceram-se para levar Brigitte daquele lugar. aguardavam a decisão dela, enfileirados.

ainda naquela tarde, Brigitte precisava decidir entre os um dos três caminhos recém-aparecidos em sua vida. precisava ponderar devidamente as promessas e os custos de cada caminho. confiante e decidida, optou pela segunda opção, que poderia trazer-lhe, no futuro, maior felicidade.

"mas nada é precedente e nada pode garantir ganhos futuros. as variáveis sobrepõem-se o tempo todo e a natureza das coisas é nitidamente imediata",

foi o que pensou, um minuto depois. sua escolha persistia pendente. era preciso pensar nas consequências imediatas e abandonar os grandes planos, antes postos em primeiro lugar.

sim, ela mudara de opinião. tinha esse direito. não queria agora o caminho mais difícil. queria apenas um caminho mais calmo, para que as coisas acontecessem de forma mais natural em sua vida.

afinal, de quem era mesmo aquela vida?

unicamente dela, mas às vezes Brigitte parecia esquecer-se disso. aquela escolha, relacionada à próxima pessoa com a qual dividiria sua vida, decididamente, ficou para depois. ou para nunca mais.

14 de out. de 2004

Nosso clichê


é dos nossos limites que estou falando. um limite não existe sozinho, sempre está relacionado a duas grandezas. a cada nosso que eu falo, mais eu sei que existimos. o curioso é que quanto mais destemido eu sou, mais medo me aparece (mas queria que esse medo e esse destemor fossem nossos).

e deve ser assim que surge um clichê. por causa de gente assim, que não vive sem.

4 de out. de 2004

Fragmentos recolhidos do limbo


eu não penso duas vezes. eu viro criança, viro mendigo, viro um cachorro sem dono. e mesmo assim me trata como se eu pudesse partir a qualquer momento, como se não soubesse que não há nada que me atraia e me conforte mais do que a sua mera presença.

eu prefiro não tomar a nossa relação como exemplo de nada. prefiro aproxima-la da exceção, lá somos mais inofensivos. ser exceção traz um conforto, uma sensação de liberdade.

modulo os amores em forma de amizade. modulo minhas vontades em nome do que me permitem. às vezes penso que vivo a metade da minha vida, a metade do que seria capaz de experimentar.

23 de set. de 2004

O próximo passo


Estava sentado, calado, olhando para o horizonte. Olhares piedosos se aproximavam. Era como se gritassem em sua direção, bem perto dos seus ouvidos. Antes mesmo que lhe os olhares se transformassem em palavras e gestos, resolveu dizer alguma coisa, assegurar-se de que não haveria interrupção.

Não me perguntem se estou triste. Se me decepcionei, se alguma coisa aconteceu (prefiro a autonomia de expor-me somente quando me sentir à vontade). Por favor não direcionem, com suas piedosas palavras, a minha cruel atenção a qualquer ponto que me faça sentir mal. Deixem-me iludido, introspectivo e distraído. A distração me conduz a um lugar mais leve, mais pertinente. A realidade me condena, a atenção me persegue.

A consciência me impede de dar o próximo passo.

Deixe as pessoas tranqüilas. Não abra os olhos delas. Se você fizer isso, que vão elas ver? Deixe que continuem sonhando! A menos que, quando elas abrirem os olhos, você possa mostrar-lhes um mundo melhor. Você pode?

20 de set. de 2004

Na minha lista (parte dois)


Donato,

depois de tantos anos, é um pouco difícil começar essa carta. tantos anos sem te ligar, sem nos encontrarmos, sem qualquer tipo de contato. depois de tantos outros anos de convivência diária, feito tico e teco. eu também não entendo qual é a distância que nos separa, talvez seja a distância do tempo. talvez a seja a distância dos passos que demos em direções opostas.

talvez seja justamente por isso que não te procurei durante tanto tempo. eu sempre pensei em fazê-lo, mas sempre achei que seria um pouco sem graça e um pouco sem assunto. sempre achei que nunca seria como antes, que isso era impossível. ainda acho isso, mas estou fazendo uma lista importante e você acabou aparecendo nela. então tomei coragem e escrevi essa carta.

tomei coragem de assumir que algumas pessoas fazem mesmo parte do passado. que algumas pessoas que um dia foram essenciais podem hoje não ser mais. você é essencial nas minhas lembranças, nas minhas referências. mas provavelmente vou continuar sem te ligar, sem te procurar nem nada disso. talvez eu não te ligue nem no dia do seu aniversário (porque na última vez foi meio desconfortável). essa distância nos cai bem. mas não tem jeito, eu não me esqueço de você.

um abraço,

Clóvis

13 de set. de 2004

Homens de verdade

Eis o que é um homem de verdade. Um homem de sangue quente e ossatura sólida, que, quando sofre, deixa correr grandes lágrimas autênticas; quando está feliz, não expõe sua alegria, fazendo-a passar pela peneira da metafísica.

Risos artificiais, previsíveis, incapazes de emocionar ou de repercutir a emoção vivida. O riso e a gargalhada não são as únicas formas de dizer que algo de muito bom acabou de acontecer. Que tal ousar, explorar o caminho da metafísica, transformar essa energia em outra?

8 de set. de 2004

Na minha lista (parte um)


Oi Cássia,

resolvi escrever essa carta porque no sabado assisti a "minha vida sem mim", um filme muito bonito. não sei se você já viu, tomara que sim. o lance é que, num determinado momento do filme, uma personagem resolvia fazer uma lista das coisas que queria fazer antes de morrer. pois é. não sei porque, e nem sei se vou saber, mas durante o filme me lembrei muito de você.

lembrei daquela nossa conversa na praia, do "o que é que a gente tá fazendo com a nossa vida?" (e eu ainda não sei o que é que me prende aqui e não me deixa transformar todos os meus dias em dias como aquele). lembrei daquele dia que andamos pra muito longe e depois descansamos na sombra de um barquinho simpático. lembrei da nossa despedida no aeroporto. do seu sorriso quando me viu parado e sem graça, atrás da pilastra.

eu acho isso tudo muito emocionante. porque a maioria dessas lembranças é de momentos sem palavras, ou em que as palavras eram secundárias. momentos em que outros tipos de ligação, em que outros tipos de comunicação pareciam sobrepor-se às palavras. em que o silêncio fazia bem, dava tranquilidade. em que a mera presença dava mais prazer do que qualquer palavra.

eu acho muito raro e muito bom encontrar pessoas assim. então eu resolvi colocar na minha lista: encontrar com você de novo. resolvi também te contar isso, porque acho que essas coisas fazem bem pra gente, são boas de ouvir e de dizer. não sei como vai ser entre a gente, mas agora é assim e eu gosto. e às vezes eu sinto saudade de você, do seu jeito e das nossas andanças.

um beijo,

Clóvis

4 de set. de 2004

O máximo possível



A história começa com duas pessoas que se gostam muito e que, portanto, se vêem o máximo possível.

Os dois estão juntos há um mês e têm passado a maior parte do tempo dentro de casa, olhando um pra cara do outro. As despedidas diárias são sempre dolorosas, mas é uma dor que eles já conhecem. É uma sensação de morte, de dilaceramento, como se um pedaço fosse arrancado. Por causa disso, os dois regularmente sentem-se no fundo do poço, mas como já estiveram muito lá, sabem que não é o fim do mundo.

A história não termina.

23 de ago. de 2004

Polaroid


Adoro minhas mãos. Adoro rir de mim mesma. Sou perdida por gente doida. Desprezo gente que se leva a sério. Adoro aristocratas. Durmo bem menos do que gostaria. Adoro gente que diz " é ruim, hein?!". Detesto gente que mitifica. Gosto muito de dirigir. Não gosto de mistério. Desprezo gente fiteira.

Mais ou menos assim. Um pouco partimpim.

13 de ago. de 2004

Descobertas


Pensava sobre as pessoas e as coisas das quais mais sentia saudade.

Em alguns instantes descobriu que eram exatamente aquelas de que havia se despedido antes da hora, antes de quando queria fazê-lo. Depois, conversando com suas amigas, descobriu que era sempre assim, com todas as pessoas, com todas as saudades.

E, sendo assim, acabou descobrindo que aqueles amores que a gente guarda são algo muito mais simples do que imaginava. Descoberta essa que, de qualquer forma, não a fazia sentir-se melhor ou pior. Mas talvez ajudasse-a a ter mais cuidado nas despedidas e nas saudades.

- É preciso ter cuidado.

(valeria à pena levar relações ao seu limite? valeria à pena poupa-las, encerra-las antes da hora para que delas fossem guardadas boas lembranças?)