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25 de mai. de 2005
Onde?
Em 17 de janeiro de 1906, aos quatorze anos de idade, Mariquinha casou-se com seu primo Soquinho. Teve seu primeiro filho aos quinze anos e, aos quarenta e quatro, o décimo-sexto. Mariquinha faleceu em 1983, aos noventa e dois anos de idade. Antes disso, escreveu alguns versos.
Gente, cadê a gente dessa casa?
Gente que os meus olhos viam.
Hoje não vejo mais.
Gente que comigo dormia,
gente que comigo comia,
gente que comigo vivia.
Me fala gente!
Onde está a gente dessa casa?
1 de jul. de 2004
A gente inventa
O nosso amor a gente inventa pra se distrair...
Os românticos certamente condenariam essa afirmação. Os mais céticos, por sua vez, perguntariam o que é que a gente não inventa. E será que tudo não é mesmo invenção? Que seja, então. Mas que idéia boa é inventar um amor, não há jeito melhor de se distrair.
17 de mai. de 2004
Último dia
Outro dia fui numa palestra do Ronaldo Fraga, e lá assisti a um compacto de todos os desfiles dele. Uma de suas coleções era inspirada nas mulheres do Vale do Jequitinhonha. Ele contou que, quando esteve lá, percebeu que aquelas mulheres eram especialmente fascinadas pelo casamento. Depois o Ronaldo descobriu que tais mulheres, de um modo geral, acreditavam que o instante em que se casavam seria o último momento de felicidade em suas vidas.
11 de mai. de 2004
Carência
- Com essa iniciativa pretendemos ajudar mais uma comunidade carente...
- Me desculpe, senhor, mas aqui nós somos pobres.
- Sim, carentes...
- Não. Carentes são vocês que querem comprar camiseta, calça, DVD, carro e não podem. Aqui nós somos pobres.
Ouvi dizer que o consumo cria a carência. Algo como o princípio budista que afirma que o desejo é a razão do sofrimento.
12 de fev. de 2004
Aleatório
Uma noite qualquer, conversando com um amigo, música alta no fundo.
- Só que ele é muito complicado de se relacionar.
- Quem?
- De se relacionar.
- Ah. Você é muito complicado, eu sei.
- Como assim? Você sabe o quê?
- Ah, você é muito instável, né...
Tudo seria diferente se sempre conversássemos com música alta no fundo. Assim, conversando por meio de palavras ainda mais embaçadas e ambíguas, sempre escutaríamos (por pura escolha) algo mais parecido com o que queríamos escutar. E, diante disso, seríamos mais livres para dizer o que queríamos dizer, ainda que essas palavras soassem completamente fora de contexto.
23 de dez. de 2003
A face gloriosa
Quando eu tinha nove anos, ela chegou lá em casa. Nem reparei. Ela tinha vinte e poucos. Veio de São Francisco do Glória, uma remota cidade que numa tarde conheci. Filha de Eunice e Brás. Os seus irmãos eram muitos. Também os seus sobrinhos. Aprendeu muito do que minha mãe tinha a ensinar. Comigo aprendeu ortografia. E os conceitos primários de genética. Com ela, aprendi um pouco do que sou. Temos muito um do outro. Na minha biografia, ela seria inevitável. Ela tinha uma prima mal humorada, uma amiga folgada e carinhosa e uma outra, um pouco mercenária - palavras dela. Moravam na Floresta. Houve um dia em que fui lá. Houve um outro dia em que fomos à missa, na Igreja São José. Depois de assistir ao Mr. Bean. Depois de um longo impasse. Me arrumei todo. Voltamos de ônibus, à noite. Às vezes eu subia na caixa de passar roupa para vê-la, através da janela do seu quarto. Às vezes ela me buscava no colégio. Às vezes meus pais faziam cara feia para a gente. Mas os meus amigos do colégio entendiam bem. A gente descia para a garagem para andar de skate. Às vezes a gente caía. E morria de rir. Aos domingos, ela chegava a tempo de assistir Sai de Baixo comigo. Na páscoa, ela gabava-se do ovo colocante (que você pega e coloca na boca). No Natal, eu dei um duende amarelo para ela. E um rosa para a minha irmã. Depois tomei todos e guardei comigo. Ela disse que um dia me levaria para a sua casa, lá em São Francisco. Lá eu conheceria a sua mãe. E eu dizia que um dia ela conheceria a minha Vó Vina. Nunca aconteceu. Ela comprou uma casa, casou-se e teve uma filha. Tainá. Outro dia ela me pediu o CD dos Mamonas Assassinas de presente. Eu dei. Outro dia ela me devolveu algumas fitas K7 que há muito tempo eu havia dado para ela, "para ver seu eu ainda gostava, que ela tinha enjoado". Eu ainda gostava. A gente se encontra de vez em quando. E às vezes parece que não é mais a mesma coisa. Mas é.
- Reis!
- O quê?
- O capeta que te fez!
- Reis!
- O quê?
- O capeta te fez outra vez!
4 de dez. de 2003
174
Muitas coisas mudaram em mim depois da morte da minha filha. Foi como uma viagem em que você vai num bote em águas muito agitadas e precisa ir jogando ao mar todo o sobrepeso. Começa a se desprender de tudo o que não é essencial. E então, quando ela morreu, eu já havia me desprendido, lentamente, de tudo. Já havia dito adeus à graça dela, à inteligência, ao humor, à companhia, à voz. Depois tive que dizer adeus ao espírito dela. E, por fim, ao que restara do seu corpo. E quando ela finalmente morreu, tive a sensação de que havia lançado tudo pela borda do bote, que não ficara nada. Eu fiquei com ela em seu quarto. Abri as janelas para que o quarto se mantivesse frio, era inverno. Me enrolei num xale e fiquei ao lado dela. Esses momentos foram como descer à morte e voltar a sair, e creio que algo se produziu que me mudou fundamentalmente, me fez outra pessoa. Diria que é uma experiência purificadora, que você fica limpa, a dor limpa tudo o que é supérfluo e vai ficando o essencial. E o que fica é o amor que você dá.
Isabel Allende, em entrevista
Há ainda aqueles que desprendem-se muito rápido da própria graça, abandonam a própria inteligência antes da hora. Há quem ignore o próprio humor e esqueça-se da própria companhia. Assim, morre aos poucos. Esquecendo-se e abandonando o que há de essencial em si mesmo.
5 de nov. de 2003
Realidade noturna
Sonhos muito reais são assustadores. Se misturam com a realidade, confundem as relações e deixam marcas. Como um pé atrás com alguém que te avacalhou num sonho ou um pé à frente com um outro alguém que te deu bola noutro. Tenho sonhado com a realidade, ultimamente. Sonho que entreguei dois ingressos do show de hoje para uma amiga, que meu irmão chegou de lua-de-mel, que minha professora me deixou fazer prova de segunda chamada porque eu estava doente, que beijei quem eu beijei mesmo, que eu fui a um churrasco de reencontro da minha série do colégio e por aí vai. Hoje à noite vou fazer um esforcinho para sonhar que eu e a Luíza Brunet estávamos na casa antiga da minha avó, quando de repente uma manada de búfalos invade a sala. Então eles sequestram a Luíza Brunet e descem a rua, rumo à igrejinha, onde haveria um culto satânico com a presença do Schumacher. Então minha avó poderia levantar-se da cama e, magistralmente, montar num cavalo e perseguir os sequestradores.
4 de nov. de 2003
Turn my way
I don't wanna be like other people are
Don't wanna own a key, don't wanna wash my car
Don't wanna have to work like other people do
I want it to be free, I want it to be true
De volta à realidade. É bom ser como os outros. Mas é uma pena perceber que, sem trabalho, a vida muda totalmente de tom. Me atrevo a dizer que fica um tom abaixo. Mais sono, menos ritmo, menos disponibilidade. É uma pena perceber a consolidação do trabalho como fim. Bons tempos aqueles em que o trabalho não passava de um meio. Deixa estar.
31 de out. de 2003
Químico
Se você pega uma lente para olhar a água que bebemos, você verá que a água é cheia de vermes, pequenininhos, que você não consegue ver a olho nu. E ao vê-los você não beberá mais água. Não beberá e vai morrer de sede. Quebre a lente e os pequenininhos vermes desaparecerão, e você poderá voltar a beber e se refrescar!
Nikos Kazantzakis
Às vezes, e são quase todas, não vale à pena especular, examinar e repensar as relações mantidas e as pessoas queridas. Se uma relação funciona, se uma pessoa é agradável e constrói, os esforços devem então direcionar-se para a manutenção dessa situação. Nunca para a desconstrução dela. Por ora, penso numa equação elementar: o número de momentos de felicidade que uma pessoa atinge é diretamente proporcional ao número de coisas, pessoas e atitudes de que essa pessoa gosta. Atenção a critérios de relevância rígidos demais.
28 de out. de 2003
Dias de febre
Dias de febre são como um feriado passado em casa. Entretanto nem os amigos nem a família estão de feriado, o que agrava essa situação. A boca fica com um gosto ruim, os compromissos se resumem ao termômetro e aos remédios de sempre, aquele cobertorzinho se torna o melhor amigo. As pernas ficam pesadas e as pessoas, atenciosas.
Mas ainda na febre há alegria: às sete da noite, no SBT, passa o Roletrando, que agora mudou de nome e de patrocinador. Sempre adorei esse programa, e foi com ajuda dele que aprendi a ler e escrever. Enfim. No final do programa, um senhor de uns sessenta anos ganhou um Vectra e pulou e gritou como um menino. Aí minha mãe disse: "É bom ver as pessoas vibrarem, né?". Achei bonito isso.
Ultimamente tenho pensado que envelhecer pode ser um bom caminho para mim - e para muitas outras pessoas também. Mas seria demais dizer que tenho pressa e que farei o possível para que isso aconteça o mais rápido possível... Vou com calma então, mas certo que o futuro tem lá suas vantagens.
Ontem vi "História Real" de novo. Acho que explica tudo isso.
23 de out. de 2003
Papo de elevador
Foi-se o tempo em que calor era papo de elevador. A coisa anda insuportável. E ainda me disseram que estamos na primavera. Como se não bastasse, aqui em casa ainda me apareceram formigas... Não só na cozinha, como também nos quartos. Que aflição de dormir e poder acordar com uma formiga entrando pelo meu nariz. Melhor nem pensar.
Talvez amanhã pergunte aos meus vizinhos se também apareceram formigas em suas casas, caso encontre algum no elevador. Talvez algum tenha uma receita infalível para exterminá-las. Bom, pra falar a verdade, sou daquele tipo que deixa elevador ocupado passar duas, três vezes. Aqui no prédio, em condições normais, só pego elevador quando está vazio. Minha mãe morre de rir, diz que sou jeca, mas sempre que está comigo adere ao movimento. Ah. Elevador é mesmo muito chato: um tal de olhar pra cima, pra baixo, pro lado, de falar baixinho sobre assuntos impessoais. Prefiro evitar qualquer transtorno até chegar à garagem e guardar minha preciosa energia social para a vida de verdade.
Talvez amanhã pergunte aos meus vizinhos se também apareceram formigas em suas casas, caso encontre algum no elevador. Talvez algum tenha uma receita infalível para exterminá-las. Bom, pra falar a verdade, sou daquele tipo que deixa elevador ocupado passar duas, três vezes. Aqui no prédio, em condições normais, só pego elevador quando está vazio. Minha mãe morre de rir, diz que sou jeca, mas sempre que está comigo adere ao movimento. Ah. Elevador é mesmo muito chato: um tal de olhar pra cima, pra baixo, pro lado, de falar baixinho sobre assuntos impessoais. Prefiro evitar qualquer transtorno até chegar à garagem e guardar minha preciosa energia social para a vida de verdade.
9 de out. de 2003
She's after my money, like I care

Tô com esse velhinho e não abro. Assim como aquela velha idéia de amor romântico, acho que todo o romantismo foi por água abaixo. As relações devem levar à felicidade, seja como for. Se o velhinho fica feliz pela mulher e a mulher, pelo dinheiro, tudo bem. Que os dois estejam felizes.
Aceite o que lhe dão, mas saiba com que fim lhe foi dado.
Brecht
Às vezes me relaciono com pessoas que gostam mais de mim do que eu delas. Às vezes acontece o contrário. Se o gostar não é o único valor numa relação, tudo fica mais simples e possível. Sempre fui a favor de relações que envolvem interesses, desde que os mesmos não sejam perversos e desde que partam dos dois lados. Aliás, será que relacionar-se com uma pessoa pelo simples prazer de estar ao lado dela, por sua boa companhia e coisa e tal, também não é uma forma de relacionar-se por interesse?
16 de set. de 2003
Memória
Ter um blog, tirar fotos, fazer anotações, guardar ingressos de shows, cartas e bilhetes. Todas essas técnicas têm apenas um grande objetivo. Ampliar a memória humana, que não seria capaz de lembrar de tanta coisa. São para isso também as já antigas (e quase esquecidas, quem diria...) enciclopédias. Um blog retém o que foi pensado há um mês atrás; e não deixa que o que é pensado agora se perca no tempo. Álbuns e mais álbuns de fotos são religiosamente observados para que as férias, os casamentos e os aniversários que assinalam qualquer vida não sejam esquecidos e para que cada detalhe seja preservado. Seja esse detalhe uma pessoa, um lugar, um copo ou um momento.
Tudo o que se quer é evitar o confronto com a efemeridade da vida. É ter livre acesso a cada momento vivido. Que nada passe, que nada seja esquecido então. Os homens da tecnologia, é claro, correm atrás disso e desenvolvem infinitos mecanismos de apreensão do tempo e extensão da memória.
Aí eu penso: como seria bom se também investissem numa forma de restringir a memória humana, de dar a cada um de nós o poder de dominá-la e de apagar as más recordações. Poxa. É chato saber que, a qualquer momento, posso me lembrar de alguma coisa de que não queria me lembrar de jeito nenhum.
11 de set. de 2003
Por acaso
Às vezes o acaso faz falta. A vida anda muito objetiva e apressada e quase que não sobra tempo para "perder tempo". E ter tempo pra perder, pra não se comprometer com nada e deixar o acaso governar é fundamental. Todos os passos da evolução científica caminham para uma vida ainda mais objetiva e terrivelmente dinâmica.
Nunca fui daqueles que fica perambulando por aí, exceto em alguns dias complicados, para os quais perambular é o melhor remédio. Mas, até pouco tempo atrás, eu sempre dava uma voltinha a pé por aí, depois de qualquer compromisso e antes de voltar para casa. Nessas andanças, encontrava gente que não encontraria, descobria eventos dos quais não saberia e via casas, prédios e pessoas que não veria em outra situação. E a cada dia eu experimentava um novo ponto de ônibus, e um novo trajeto até cada um desses pontos. Depois que passei a andar de carro, as coisas se tornaram muito mais objetivas. Saio de casa, estaciono, desço, faço o que tenho que fazer e depois volto pra mesma casa de sempre. Ainda que o que eu tenha que fazer varie bastante, é só lá a minha chance de ter algum contato com o acaso.
Outro dia meu professor falava sobre um possível futuro para a televisão: os programas estarão disponíveis em satélite. Quando quiser assistir a um programa, é só "baixá-lo" através desse satélite. Aí eu penso: e aqueles programas, aquelas entrevistas que pegamos o finalzinho, aqueles seriados que nunca tínhamos visto, aquele filme que a gente vê só um trechinho... Poxa. E o acaso?
No Central do Brasil, a Dora diz que deveríamos andar só de ônibus, porque ele faz sempre o mesmo trajeto. Pra ela, andar de táxi é um perigo. Táxi faz retorno, varia o caminho, sempre pode levar ao engano ou a algum prejuízo. Daí ela pega um táxi ao encontrar o Josué e encontrar na vida dele um jeito de voltar a viver. Seguindo essa metáfora, afirmo com convicção: de vez em quando andar de táxi é muito importante e sem dúvida vale à pena enfrentar os altos custos de uma viagem como essa.
10 de set. de 2003
Que se abre
A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original.
Albert Einstein
Complicada essa constatação. Penso se não é hora de parar de abrir nossas mentes. Ou se, um dia, essa hora vai chegar. Sei não. As mentes andam muito esticadas... Vão acabar explodindo ou tornando-se maiores do que os próprios seres humanos. Eu, por aqui, quero continuar sendo maior que a minha mente. Há muito além dela em mim e em cada um de nós, afinal.
2 de set. de 2003
Prioridades
A felicidade universal mantém as engrenagens em constante funcionamento; a verdade e a beleza não são capazes disso. É certo que, cada vez que as massas obtinham o poder político, importava mais a felicidade do que a verdade e a beleza. Entretanto, apesar de tudo, a pesquisa científica irrestrita ainda era permitida. Continuava-se a falar da verdade e da beleza, como se fossem bens soberanos até a época da Guerra dos Nove Anos. Esta os fez mudar a cantiga, não há dúvida. Qual é a vantagem da verdade, da beleza ou da ciência, quando as bombas de antracita explodem em volta das pessoas? Foi aí que a ciência começou a ser controlada. Naquela época, o povo estava disposto a ser controlado. Daria qualquer coisa em troca de uma vida tranqüila. Desde então, começamos a dirigir. Decerto, não foi muito bom para a verdade. Mas foi ótimo para a felicidade. Não se pode tirar alguma coisa do nada. A felicidade tem seu preço.
Esse é um trecho de Admirável Mundo Novo, do Huxley, e retrata essa constante luta entre a verdade e a felicidade. O descontrolado progresso da ciência e da tecnologia parece em nada contribuir para a felicidade. Pelo contrário, gera novas necessidades e vende novas soluções temporárias, que em breve gerarão novíssimas necessidades. O mundo da ciência e da tecnologia funciona como uma empresa, e não como uma comunidade. Todos os avanços são destinados à busca de novos avanços, sem que os "antigos" sejam assimilados por todos os que por eles seriam beneficiados. E mesmo hora de rever se esse é mesmo o caminho que leva à verdade e, caso seja, se a verdade é mesmo mais valiosa que a felicidade.
25 de ago. de 2003
Mal-estar
Há algum tempo li um texto chamado Mal-estar na civilização. Eram alguns questionamentos que constatam a dificuldade dos seres humanos em encontrar sentido para sua existência e o mal-estar que isso gera em cada um de nós. Até há pouco, não me lembrava mais desse texto. A mudança aconteceu quando meu professor falava justamente desse mal estar. E que, para sair do inevitável mal-estar (há quem duvide da sua existência?), tínhamos quatro caminhos.
Estranho. Não me lembrava que o texto oferecia soluções... E como eu queria sair de mim nesse momento e ver a cara que fiz. Poxa. Especialmente hoje, naquela manhã em que eu poderia ser definido como a personificação do tal mal-estar... Finalmente eu descobriria uma solução para tanto, e ainda poderia escolher entre quatro caminhos. Era muita felicidade. Meus olhos devem ter brilhado, meu pulso acelerado e, quem sabe, um sorriso eu devo ter esboçado. Enquanto eu soltava fogos de artifício por dentro, meu professor falou os quatro caminhos.
Sexo, drogas, religião e arte. Ih. Logo depois falou o óbvio: que não dá pra fazer sexo o tempo todo, que se drogar o tempo todo também é muito complicado, que seguir cegamente uma religião é muito conformista e pouco humano. Restou a arte, então. À medida que era uma aula sobre a História da Arte, achei essa constatação bastante suspeita. Acho que o caminho é mesmo balancear os cinco pesos: sexo, drogas, religião, arte e mal-estar. São quatro contra um. Poxa. Dá pra ganhar...
23 de ago. de 2003
O silêncio
Foi a primeira coisa que existiu: o silêncio que ninguém ouviu. Quem disse foi o Arnaldo Antunes. E hoje eu tento falar sobre o silêncio. Não falo do silêncio do só, empiricamente produtivo e necessário, mas do silêncio a dois. Ontem ouvi que o silêncio é fértil. E bem possível, pode ser. Há quem se incomode muito com um momento de silêncio, o que torna-o um momento propício para palavras que não seriam ditas no movimento inerte da conversa cotidiana. O silêncio quebra a inércia e impede que embarquemos nela. Ao contrário dos objetos em repouso, a tendência de objetos (humanos) em silêncio não é permanecer em silêncio.
Um dia meu professor disse que a natureza não suporta o vazio. Há sempre uma busca por preencher seus espaços vagos: dentro de um tronco velho, entre duas pedras, num vale... A natureza sempre tenta preencher, seja com um musgo ou uma casa de passarinho. Caixas e garrafas vazias, com o tempo, se enchem de poeira. As pessoas, como parte da natureza, também rejeitam o vazio. Não importa se é um vazio aparente ou se não passa de um estágio do almejado preenchimento. Parece ser sempre necessário estabelecer alguma relação entre duas pessoas. Ainda que seja uma relação de poeira. Eu, por agora, me lembro de uma época em que lidava melhor com o silêncio. Ontem tive dificuldades com o silêncio, mas me surpreendi. Ao invés de poeira, do silêncio nasceu um ninho. Um lugar para crescer e provocar crescimento.
O Nikos diz que o que nos move, na vida, é um grito. Cada um serve de ponte para um grito. Disso eu falo depois. Hoje me lembro que ele acredita no silêncio como o último degrau da vida (ou seja, da síntese). E sobre o silêncio que transcende, ele fala o seguinte: Não porque seu conteúdo seja o supremo, inexprimível desespero ou a suprema, inexprimível alegria e esperança. Nem porque seja o supremo conhecimento que não se digna a falar, ou a suprema ignorância que não consegue falar. Para o Nikos, esse silêncio é sinal de amadurecimento - silencioso, indissolúvel e eterno como o Universo.
14 de ago. de 2003
Determinado
Meu professor contou um caso. Contou que costuma comprar livros no site amazon.com. E que outro dia entrou no site, em busca de mais um livro para a sua coleção, que deve ser enorme. Ao abrir a página, lá estava: Eduardo, seja bem vindo a nossa página. Isso é mesmo coisa estranha. Até para ele. Mas não pára por aí. Em seguida lá estava: Já temos lançamentos na área de Novas Tecnologias e Internet. E a tela se encheu de sugestões. A questão é que naquele dia meu professor queria comprar um romance. E nos contou como foi difícil sair daquela página, que já tinha tantos planos e expectativas para ele. Aí surgiu, na sala, outro caso semelhante: uma colega recebeu uma ligação da farmácia. Na ligação, uma moça oferecia ração para a cadela dessa colega. Segundo os cálculos da farmácia, a ração da cadela já deveria ter acabado. Então minha colega precisou convencer a moça de que ainda tinha ração em casa. Situações complicadas, não? E cada vez mais presentes. Até que ponto isso é comodidade e traz satisfação ao consumidor?
É quando penso se esse tipo de expectativa não está presente só nas empresas. Também está presente, na maioria das vezes, nas pessoas com quem nos relacionamos. É um custo muito grande sair de tudo o que já está determinado para nós. E essa coerência, que pode funcionar como uma muleta em situações complicadas, pode acabar se tornando um limite.
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