18 de jul. de 2006
Rima pobre
Deveria ser terminantemente probido rimar amor e dor. Anos e anos de uma cultura besta que só faz avacalhar as coisas.
15 de jul. de 2006
A experiência de conhecer
Só depois foi perceber o que havia vivido naqueles dias. Algo como a experiência de viver ou ainda a experiência de conhecer a vida. Porque a vida de que todos falam, aquela a que todos aspiram, só pode ser aquilo. A experiência profunda de conhecer alguém, de explorar outra existência, de abandonar aquela série de coisas que aos poucos conduzem à morte. E conhecer alguém é tão raro, requer uma certa descontração e um certo abandono. Ao conhecê-lo havia inaugurado uma nova vida, iluminada por aquela experiência. A partir de então experimentava outra existência. Como se a vida anterior cedesse lugar à próxima. Como se a partir daqueles dias todas as coisas e todas as pessoas, até mesmo as mais antigas, fossem vividas sob a regência de novos valores. E o fim de semana, depois percebeu, foi o começo da vida.
29 de jun. de 2006
A dança da unidade
O mundo é apenas Um, venci o Dois
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um
Se houver passado um dia em minha vida
sem ti, eu desse dia me arrependo
Se pudesse passar só um instante
contigo, eu dançaria nos dois mundos
Rumi
25 de jun. de 2006
Nem por isso deixa de querer
Olhando daqui, parece que ele quer se encontrar. Parece estar com saudades de si mesmo, por sentir-se cada vez mais longe daquilo que acredita ser.
Engraçado. Daqui parece que ele deseja encontrar alguma coisa bem fora de si; alguma coisa capaz de tira-lo do centro e de nele coloca-lo, sempre que for o caso. Soube que ele disse o seguinte: "Quero andar, correr se preciso, de repente me chocar com alguém e conseguir transformar esse encontro numa coisa boa."
E que não lhe falte coragem.
17 de abr. de 2006
O estrangeiro

No estágio da primeira paixão, as relações rejeitam energicamente qualquer idéia de generalização: os amantes acham que nunca houve um amor como o deles; que nada pode se comparar, nem à pessoa amada, nem aos sentimentos por essa pessoa. Uma desavença vem usualmente no momento em que este sentimento de singularidade desaparece da relação. Um certo ceticismo em relação ao seu valor, em si mesmo e para eles, recai sobre a própria idéia de que sua relação, apesar de tudo, apenas realiza um destino genericamente humano; que vivenciam uma experiência que já aconteceu antes milhares de vezes; que, se não tivessem encontrado por acaso esse companheiro em particular, teriam dado a mesma importância a outra pessoa.
Georg Simmel
6 de abr. de 2006
2 de abr. de 2006
1 de abr. de 2006
Luxo pesado
Porque a consciência excessiva o afasta de qualquer certeza. Porque acreditar na ilusão do outro é mais fácil. Porque quanto mais próximo, mais claro. Porque o bom é sempre uma ilusão, assim como o mau. Porque não há motivo para, diante dessa situação, escolher experimentar o mau. E assim será, enquanto pensar.
22 de nov. de 2005
14 de nov. de 2005
Na minha lista (parte quatro)
Oi Davi,
escrevo pra dizer que achei muito bom te reencontrar, ainda que em tais circunstâncias. não sei se isso é claro pra você, mas eu te admiro pra caramba. você é uma das pessoas mais generosas e cristalinas que eu conheço, o que pra mim são valores maiores. acho que essas coisas tristes que acontecem devem servir pra sacudir a gente, pra mostrar aos nossos olhos coisas das quais eles estavam distraídos.
hoje quando você me ligou mais cedo e começou a falar da Regina, pensei que fosse me chamar pra ir visitá-la no hospital ou coisa parecida. fiquei muito surpreso ao ouvir que a notícia era outra. daí passei o dia pensando naquela época do colégio, pensando que ainda queria aprender muita coisa com você. aprender um pouco do jeito que você leva a vida, que me parece ser um jeito muito bom.
eu sei que as coisas não acontecem assim, tão rápido. mas queria que a gente se reaproximasse e acredito nessa carta como um primeiro passo rumo a alguma coisa que pode nos fazer muito bem.
um abraço,
Clóvis
29 de out. de 2005
Clóvis etc.
Elena não precisa dizer nada. Sônia, trôpega e feliz, caminha por uma rua iluminada. Flora sabe que não será esquecida. Brigitte assume a própria sorte. Donato não sabe o que sentir. Rita acaba de ganhar um abraço. Cássia lembra-se de Clóvis sempre que vai à praia. Lúcia anda em busca de um novo amor. Pedro é qualquer um.
20 de out. de 2005
Bom dia
Era uma longa história. Longa porque espalhada no tempo, afinal seria possível contá-la em dois ou três capítulos. Até que os dois se encontraram e a história passou a acelerar-se. Vários capítulos por dia, num ritmo frenético de cenas. Mesmo assim, os dois esforçavam-se (será que havia mesmo algum esforço?) rumo à naturalidade das cenas. Eram cenas singulares e prazerosas, isso era inegável. Numa das cenas mais bonitas, um dos dois acordava mais cedo e saía pra comprar pão. Na volta, trazia uma escova de dentes de presente - e escovar os dentes nunca mais foi a mesma coisa. E se era uma cena bonita de contar, o que dizer do prazer de interpretá-la.
10 de out. de 2005
Ritmia
- eu tô feliz.
- oh.
- eu acho.
- nossa, esse "eu acho" avacalhou.
- mas eu disse porque a felicidade é uma coisa meio incerta, meio difícil de se aproximar com tanta propriedade.
- ah tá.
(um momento de silêncio)
- mas sabe o que que eu acho?
- hum.
- que a felicidade vem quando a gente sente que tá fazendo a coisa certa. quando a gente acha que está no caminho adequado e que não há lugar melhor do que aquele que se ocupa, naquele momento.
4 de out. de 2005
Atropelados
- é que a minha cabeça está a mil, e às vezes parece que a gente está atropelando as coisas.
- eu sei. as coisas acabaram indo muito rápido.
- também acho.
- e eu falei que ia esperar seu tempo, suas coisas... mas é que eu não dei conta.
- é. mas eu também não dei conta. atropelei.
- de que vale economizar alma ou cercar um coração vazio?
3 de out. de 2005
Presente de grego
- você é ótimo.
(um momento de silêncio)
- posso te falar uma coisa que é um pouco brega mas é verdade?
- pode sim.
- eu só sou ótimo porque eu te encontrei. você me faz muito bem, me faz querer ser ótimo. esse jeito aqui é só com você. eu também gosto muito dessa pessoa, na qual a sua presença me transforma.
29 de set. de 2005
Na minha lista (parte três)
Oi Rita,
sabe aqueles dias de nostalgia, de pensar muito nas coisas que se foram e ainda mais naquelas que não se foram direito? sabe aqueles dias em que o sono custa a chegar? pois é. você sabe que sempre que entro numa dessas, pego minha caixa de coisas queridas e começo a mexer. numa tentativa de me aproximar desse desconhecido território da memória.
no meio das coisas queridas estava a sua carta. aquela carta que você escreveu na minha frente, por não conseguir dizer o que queria com palavras faladas. durante esse tempo todo evitei abrir e reler essa carta, talvez por nunca ter sabido o que pensar sobre ela. talvez por birra, vai saber. mas hoje resolvi lê-la.
quando penso na gente lembro imediatamente daquela briga horrível no carro, quando eu acabei te deixando plantada no meio da estrada. lembro também da sua covardia, daquela mentirada toda. por outro lado, consigo enxergar alguns momentos da mais profunda entrega entre nós dois. consigo sim. mas enfim. tô escrevendo porque queria dar um fim mais bonito pra nossa história.
ainda não sei sé é hora da gente sentar e conversar, nem sequer se isso faria algum sentido. mesmo assim queria saber o que se passa sobre mim aí na sua cabeça, porque eu não faço a menor idéia. acho muito estranho eu fingir que não te conheço, você fingir que não me conhece e pronto. queria saber se essa é mesmo a melhor solução. acho que trocar umas cartas a respeito não vai nos fazer mal. não consigo tirar da cabeça que o que a gente viveu foi bonito.
um beijo,
Clóvis
5 de ago. de 2005
20 de jul. de 2005
Oblíquo

- Desculpe-me pelo sumiço. É que eu não tô bom e não sou capaz de compartilhar isso. Não saberia como me comportar, preferi me esconder.
A amizade é um bom lugar pra fragilidade. Outro bom lugar pra ela é o amor. As fragilidades são muitas, são geralmente ocultas ou ocultadas. É preciso coragem para oferecê-las a alguém. E se a covardia destaca-se entre as fragilidades dele, parece entrar num caminho sem volta. Um caminho de fragilidades solitárias, de aproximações impossíveis. A aparente impossibilidade de oferecer-se, por covardia ou pela iminência do fracasso, é o que imobiliza-o e afasta-o das coisas encantadoras do mundo. Coisas cada vez menores, pelo ângulo cada vez mais oblíquo sob o qual ele é capaz de vê-las (e atrás do qual é levado a esconder-se).
12 de jul. de 2005
2 am
- Você ainda balança?
- Balanço e quase caio.
- Nossa, fiz uma cara aqui que nenhum emoticon consegue representar. Inúteis.
- Cara de quê?
- Ah. Acho que nenhuma palavra consegue representar também. Inúteis.
- E agora?
- Ah, eu gosto de você viu. Meio sem jeito mas gosto.
- Por que meio sem jeito?
- Ah, porque eu nao sei contextualizar, demonstrar. Sei lá.
- Mas eu gosto, por mais que sem jeito também, de você. E gosto de você gostar de mim.
- Que bom isso, assim a essa hora, assim sem porquê. Assim que é bom gostar.
- Oh... quase um post.
- É verdade.
31 de mai. de 2005
Insone
O tempo deixou de agir nele, tornou-se vácuo. É sem, é vazio de tudo. De sentido e de forma. Tão vazio de vida que à noite nem morre. Seus olhos não se fecham, seu corpo não descansa. É obra inacabada, parada por falta de verba ou descaso. Não há sono, há saudade.
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