5 de set. de 2006
Decidida
Luíza estava decidida a mudar-se para uma casa num bairro bem tranquilo. Queria um pouco de poesia em sua vida e, convenhamos, na porta daquele apartamento ninguém abandonaria um bebê.
21 de ago. de 2006
Culturas
17 de ago. de 2006
Nas suas gavetas
Revirava as gavetas do armário numa busca que enchia o quarto de papéis, retratos e pedaços de coisas que não sabia para que guardava. Um pedaço de fio, um pedaço de foto e um pedaço daquele dia em que descobriu que a vida sempre continua. Encontrou uma carta e pôs de lado, junto com aquela reportagem sobre um amor do passado que havia saído no jornal. Revirava a gaveta como se mais nada existisse além dela. Embaixo de alguns bilhetes, encontrou as cartas daquele jogo. Tentou jogar o jogo, na esperança de conseguir parar de revirar as gavetas e de encher o quarto de papéis, retratos e meias sem par. Mas o antigo jogo não tinha mais graça, insistiria nesse novo: redescobrir-se nas suas gavetas.
16 de ago. de 2006
O corpo maior
Finalmente descobriu o que são, para ele, as boas e as más companhias. Isso foi depois de perceber que são as almas que se acompanham, e não os corpos. Concluiu que as almas querem crescer, querem misturar-se às outras e quem sabe terminar em algum tipo de fusão. Antes de tudo, portanto, é importante que a alma cresça. E isso se dá pela transformação de matéria em espírito. É nesse momento que o outro tem importância decisiva: é fundamental aprender a dar o devido supervalor às coisas que nos aparecem, assim como àquelas que nos acontecem. É preciso aprender a retirar das coisas aquilo que delas faz crescer nossa alma. Melhor se duas almas crescem ao mesmo tempo, diante da mesma coisa. É depois de muito crescer que duas almas podem se misturar. É só depois que as almas se misturam. E se engana quem pensa que isso tudo leva muito mais do que dois ou três minutos.
3 de ago. de 2006
Vida e formas
Há muito tempo queria conversar com ela, mas lhe parecia impossível. Não sabia como se aproximar, como colocar em palavras algo tão delicado. No fim das contas, foi lá e fez. Descobriu que a incapacidade de verbalizar conduz ao ato. E torceu pra que nunca mais precisasse abrir a boca.
25 de jul. de 2006
Defina viver
18 de jul. de 2006
Rima pobre
Deveria ser terminantemente probido rimar amor e dor. Anos e anos de uma cultura besta que só faz avacalhar as coisas.
15 de jul. de 2006
A experiência de conhecer
Só depois foi perceber o que havia vivido naqueles dias. Algo como a experiência de viver ou ainda a experiência de conhecer a vida. Porque a vida de que todos falam, aquela a que todos aspiram, só pode ser aquilo. A experiência profunda de conhecer alguém, de explorar outra existência, de abandonar aquela série de coisas que aos poucos conduzem à morte. E conhecer alguém é tão raro, requer uma certa descontração e um certo abandono. Ao conhecê-lo havia inaugurado uma nova vida, iluminada por aquela experiência. A partir de então experimentava outra existência. Como se a vida anterior cedesse lugar à próxima. Como se a partir daqueles dias todas as coisas e todas as pessoas, até mesmo as mais antigas, fossem vividas sob a regência de novos valores. E o fim de semana, depois percebeu, foi o começo da vida.
29 de jun. de 2006
A dança da unidade
O mundo é apenas Um, venci o Dois
Sigo a cantar e a buscar sempre o Um
Se houver passado um dia em minha vida
sem ti, eu desse dia me arrependo
Se pudesse passar só um instante
contigo, eu dançaria nos dois mundos
Rumi
25 de jun. de 2006
Nem por isso deixa de querer
Olhando daqui, parece que ele quer se encontrar. Parece estar com saudades de si mesmo, por sentir-se cada vez mais longe daquilo que acredita ser.
Engraçado. Daqui parece que ele deseja encontrar alguma coisa bem fora de si; alguma coisa capaz de tira-lo do centro e de nele coloca-lo, sempre que for o caso. Soube que ele disse o seguinte: "Quero andar, correr se preciso, de repente me chocar com alguém e conseguir transformar esse encontro numa coisa boa."
E que não lhe falte coragem.
17 de abr. de 2006
O estrangeiro

No estágio da primeira paixão, as relações rejeitam energicamente qualquer idéia de generalização: os amantes acham que nunca houve um amor como o deles; que nada pode se comparar, nem à pessoa amada, nem aos sentimentos por essa pessoa. Uma desavença vem usualmente no momento em que este sentimento de singularidade desaparece da relação. Um certo ceticismo em relação ao seu valor, em si mesmo e para eles, recai sobre a própria idéia de que sua relação, apesar de tudo, apenas realiza um destino genericamente humano; que vivenciam uma experiência que já aconteceu antes milhares de vezes; que, se não tivessem encontrado por acaso esse companheiro em particular, teriam dado a mesma importância a outra pessoa.
Georg Simmel
6 de abr. de 2006
2 de abr. de 2006
1 de abr. de 2006
Luxo pesado
Porque a consciência excessiva o afasta de qualquer certeza. Porque acreditar na ilusão do outro é mais fácil. Porque quanto mais próximo, mais claro. Porque o bom é sempre uma ilusão, assim como o mau. Porque não há motivo para, diante dessa situação, escolher experimentar o mau. E assim será, enquanto pensar.
22 de nov. de 2005
14 de nov. de 2005
Na minha lista (parte quatro)
Oi Davi,
escrevo pra dizer que achei muito bom te reencontrar, ainda que em tais circunstâncias. não sei se isso é claro pra você, mas eu te admiro pra caramba. você é uma das pessoas mais generosas e cristalinas que eu conheço, o que pra mim são valores maiores. acho que essas coisas tristes que acontecem devem servir pra sacudir a gente, pra mostrar aos nossos olhos coisas das quais eles estavam distraídos.
hoje quando você me ligou mais cedo e começou a falar da Regina, pensei que fosse me chamar pra ir visitá-la no hospital ou coisa parecida. fiquei muito surpreso ao ouvir que a notícia era outra. daí passei o dia pensando naquela época do colégio, pensando que ainda queria aprender muita coisa com você. aprender um pouco do jeito que você leva a vida, que me parece ser um jeito muito bom.
eu sei que as coisas não acontecem assim, tão rápido. mas queria que a gente se reaproximasse e acredito nessa carta como um primeiro passo rumo a alguma coisa que pode nos fazer muito bem.
um abraço,
Clóvis
29 de out. de 2005
Clóvis etc.
Elena não precisa dizer nada. Sônia, trôpega e feliz, caminha por uma rua iluminada. Flora sabe que não será esquecida. Brigitte assume a própria sorte. Donato não sabe o que sentir. Rita acaba de ganhar um abraço. Cássia lembra-se de Clóvis sempre que vai à praia. Lúcia anda em busca de um novo amor. Pedro é qualquer um.
20 de out. de 2005
Bom dia
Era uma longa história. Longa porque espalhada no tempo, afinal seria possível contá-la em dois ou três capítulos. Até que os dois se encontraram e a história passou a acelerar-se. Vários capítulos por dia, num ritmo frenético de cenas. Mesmo assim, os dois esforçavam-se (será que havia mesmo algum esforço?) rumo à naturalidade das cenas. Eram cenas singulares e prazerosas, isso era inegável. Numa das cenas mais bonitas, um dos dois acordava mais cedo e saía pra comprar pão. Na volta, trazia uma escova de dentes de presente - e escovar os dentes nunca mais foi a mesma coisa. E se era uma cena bonita de contar, o que dizer do prazer de interpretá-la.
10 de out. de 2005
Ritmia
- eu tô feliz.
- oh.
- eu acho.
- nossa, esse "eu acho" avacalhou.
- mas eu disse porque a felicidade é uma coisa meio incerta, meio difícil de se aproximar com tanta propriedade.
- ah tá.
(um momento de silêncio)
- mas sabe o que que eu acho?
- hum.
- que a felicidade vem quando a gente sente que tá fazendo a coisa certa. quando a gente acha que está no caminho adequado e que não há lugar melhor do que aquele que se ocupa, naquele momento.
4 de out. de 2005
Atropelados
- é que a minha cabeça está a mil, e às vezes parece que a gente está atropelando as coisas.
- eu sei. as coisas acabaram indo muito rápido.
- também acho.
- e eu falei que ia esperar seu tempo, suas coisas... mas é que eu não dei conta.
- é. mas eu também não dei conta. atropelei.
- de que vale economizar alma ou cercar um coração vazio?
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