10 de dez. de 2009

Pra ver o mar


Camila não entendia para que serviam as grades que atravessavam a janela do seu quarto. Sempre que tinha um tempinho se entortava toda para conseguir enxergar o mar, lá no fundo da paisagem, entre uma grade e outra. Não foram raras as vezes em que seus pais precisaram remover sua cabeça, com todo cuidado, de algum dos pequenos espaços que havia entre as barras. Também não foram poucas as broncas, os arranhões e os roxos conquistados ao longo desses episódios. Sabia que os outros não aprovavam o seu apreço pelo espaço entre as grades e por isso tinha o hábito de acordar uma hora mais cedo do que o resto da família. Era com os olhos no mar que ela passava - sempre, só e em segredo - a primeira hora dos seus dias.

7 de dez. de 2009

Abundância


Os bens outrora raros tornam-se abundantes: o pão e os alimentos em geral. Ao contrário, os bens outrora abundantes tornam-se raros: o espaço, o tempo, o desejo.

Henri Lefevbre

29 de nov. de 2009

Feito tatuagem


Leandro escovava os dentes quando percebeu alguma coisa diferente saindo pela gola da camisa. Apesar do porre homérico que havia encerrado o dia anterior, desconfiou que os rabiscos no pescoço não eram mera alucinação. Ao tirar a camisa percebeu que o seu tronco estava povoado por pequenas palavras em japonês. Quando se contorceu e seguiu as palavras até o meio das costas, surpreendeu-se com um grande mapa do Japão, tatuado em vermelho e preto. Até pensou em descobrir como aquilo tudo havia aparecido no seu corpo, mas a vida andava meio sem rumo e decidiu inverter a lógica. Vendeu algumas coisas, arrumou as malas e foi viver no Japão, até que todas aquelas tatuagens passassem a fazer sentido.

22 de out. de 2009

De costume


Isaura havia passado quase duas semanas entre uma sala de cirurgia e um quarto de hospital. Lutou com unhas, dentes e parentes para que a vida não lhe abandonasse tão cedo. Ao longo daqueles dias recebeu visitas e telefonemas de gente que não via há muito tempo. Contou também com a paciência e a companhia constante dos filhos adultos, coisa que lhe parecia tão rara. Do alto dos seus cinquenta anos, pensou que aqueles dias anunciariam o início de uma nova etapa em sua vida. Mas apenas dois dias depois de receber alta, já estava de volta à própria casa e à solidão que lhe era de costume.

29 de mai. de 2009

11 de mai. de 2009

Por um pio


Logo que viram o apartamento, apaixonaram-se pela bela copa de árvore que enfeitava a vista da janela do quarto. Eram nascidos no interior e gostavam de acordar com os pássaros. Ela mais do que ele, é verdade - porque ele gostava mesmo era de vê-la feliz. Por isso foi grande a decepção quando daquela árvore, ao longo de dois meses de casa nova, não saiu sequer um pio. Três dias antes do aniversário dela, ele teve uma idéia. Ela não acreditou ao acordar.

18 de mar. de 2009

Pouco tempo


Seu Dorival havia comprado um carro na época das vacas gordas e atualmente enfrentava alguma dificuldade para sustentar o possante. De bico em bico, sobrava pouco dinheiro e muito pouco tempo para cuidar das muitas avarias que se acumulavam com tantos anos de uso. Naquele dia de azar, o carro cismou de enguiçar no meio de um engarrafamento. Não era a primeira vez e Seu Dorival sempre tinha a esperança de que alguém fosse aparecer para ajudá-lo a empurrar o carro até o acostamento. Geralmente não aparecia ninguém e ele nem condenava, pois sabia que, de bico em bico, para as outras pessoas também sobrava muito pouco tempo.

17 de mar. de 2009

Trabalho


O sistema competitivo deforma o caráter humano. Subverte o instinto de trabalho, a tendência congênita de produzir dentro dos limites de nossa capacidade, o interesse pelo trabalho bem-feito.

Lewis Coser

4 de mar. de 2009

Era uma casa


Marilda gostava muito dos seus irmãos, mas gostava acima de tudo da sua patroa. Trabalhava naquela casa já há mais de cinco anos e sabia ser hoje uma pessoa mais feliz do que na época em que conseguiu o emprego. Saboreava com gosto cada elogio à sua comida e cada brincadeira com as crianças. Achava um pouco ruim que a patroa trabalhasse muito durante a semana e só mesmo no sábado tivesse tempo pra sentar-se na cozinha. Por conta disso, mesmo liberada desde as duas horas, Marilda gostava de passar ali suas tardes de sábado e não costumava se despedir da patroa antes de anoitecer.

21 de nov. de 2008

Desespero


Homero escolheu ser taxista porque era bom no volante e também porque gostava de conversar. Mas desde o dia em que precisou vender o táxi as coisas desandaram. Não era a primeira vez que ele trabalhava como motorista particular, mas nunca havia sido proibido de circular pelas áreas comuns do prédio nos momentos em que a patroa estava em casa. Por conta disso encarou com um certo desespero o fato de passar grande parte do dia sentado, sozinho e em silêncio, dentro de um carro estacionado em uma garagem. Quis dizer a patroa que aquilo era falta de respeito, mas não pôde porque precisava do emprego.

26 de out. de 2008

Travessia


Romeu tinha apenas onze anos e vivia se espantando com o mundo. Esforçava-se para entender o funcionamento das coisas, mas a cada dia aumentava mais a sua impressão de que, do mundo, sabia e servia pra muito pouca coisa. A impressão só dava sossego nas temporadas que passava na casa da avó. Era na cidade dela que ele se revelava um ótimo atravessador de ruas, acompanhando a avó e todas as suas amigas naquelas travessias que, para ele, pareciam as coisas mais simples e prazerosas da vida.

12 de out. de 2008

Amontoado


Bernardo assistiu a uma peça de teatro e desde então uma frase andava ecoando na sua cabeça: como é que pode se transformar num amontoado de tarefas a vida da gente? Era uma frase relativamente simples, mas aquilo parecia organizar todos os conflitos que o rodeavam nos últimos tempos. O rapaz, que já não era menino há alguns pares de anos, custava a enfrentar a vida adulta e a série de tarefas que diariamente se impunham à sua vida, quisesse ele ou não. As tarefas vinham de todos os lados, não podia olhar de rabo de olho pra um canto que, pronto, de lá aparecia uma nova tarefa.

15 de set. de 2008

Janela aberta


Martin vivia em um dos bairros mais quentes da cidade, em uma das cidades mais quentes do país. Naquele fim de semana herdou da avó um velho aparelho de ar condicionado e pensou que o presente lhe serviria como fiel companheiro para o resto da vida. Na segunda-feira seguinte, encontrou-se com o vizinho do 302 no elevador. O vizinho tinha olheiras devastadoras e queixava-se de um estranho zumbido que vinha atormentando suas noites, há dias. Martin se fez de desentendido, mas voltou a dormir com a janela aberta.

27 de ago. de 2008

A causa maior


Fabiana sonhava em ser juíza para tornar as coisas mais iguais entre as pessoas. Enquanto não passava no concurso, dirigia seu carro 1.0 e aproveitava qualquer oportunidade de fazer justiça no trânsito. Bem perto do escritório onde trabalhava, havia uma subida que diariamente desafiava as forças do seu automóvel. Logo atrás dele, os motoristas dos carros maiores precisavam se segurar e torcer para que Fabiana conseguisse chegar ao topo do morro. Ela, é claro, engrossava a torcida, mas acima de tudo enxergava naquela situação uma metáfora do mundo em que queria viver.

8 de jul. de 2008

Improviso


Leonardo tinha receio de entrar na faculdade pois de forma alguma lhe interessava tornar-se técnico ou especialista em qualquer coisa. Conhecia alguns técnicos envolvidos em projetos importantes, em questões seríssimas, e às vezes tinha a impressão de que os técnicos se deixavam levar pelo cotidiano. Que acabavam tratando os seus projetos e campos de conhecimento como as coisas mais importantes da vida. Leonardo resistia e pensava o contrário. Pensava que para as coisas importantes da vida, não há técnica que oriente o pensamento e a ação.

7 de jul. de 2008

Gente simples


Decidi tornar-me independente de tal forma que minha independência não ofenda a ninguém; de ter um orgulho terno e secreto; de dormir sem preocupações, evitando a bebida, preparando minhas próprias humildes refeições; de não ter amigos ilustres ou pomposos; de não olhar para mulheres, jornais ou procurar honrarias; de associar-me somente com as almas mais eleitas e se não encontrar quem me agrade especialmente, estar então com gente simples.