3 de out. de 2005

Presente de grego


- você é ótimo.
(um momento de silêncio)
- posso te falar uma coisa que é um pouco brega mas é verdade?
- pode sim.
- eu só sou ótimo porque eu te encontrei. você me faz muito bem, me faz querer ser ótimo. esse jeito aqui é só com você. eu também gosto muito dessa pessoa, na qual a sua presença me transforma.

29 de set. de 2005

Na minha lista (parte três)


Oi Rita,

sabe aqueles dias de nostalgia, de pensar muito nas coisas que se foram e ainda mais naquelas que não se foram direito? sabe aqueles dias em que o sono custa a chegar? pois é. você sabe que sempre que entro numa dessas, pego minha caixa de coisas queridas e começo a mexer. numa tentativa de me aproximar desse desconhecido território da memória.

no meio das coisas queridas estava a sua carta. aquela carta que você escreveu na minha frente, por não conseguir dizer o que queria com palavras faladas. durante esse tempo todo evitei abrir e reler essa carta, talvez por nunca ter sabido o que pensar sobre ela. talvez por birra, vai saber. mas hoje resolvi lê-la.

quando penso na gente lembro imediatamente daquela briga horrível no carro, quando eu acabei te deixando plantada no meio da estrada. lembro também da sua covardia, daquela mentirada toda. por outro lado, consigo enxergar alguns momentos da mais profunda entrega entre nós dois. consigo sim. mas enfim. tô escrevendo porque queria dar um fim mais bonito pra nossa história.

ainda não sei sé é hora da gente sentar e conversar, nem sequer se isso faria algum sentido. mesmo assim queria saber o que se passa sobre mim aí na sua cabeça, porque eu não faço a menor idéia. acho muito estranho eu fingir que não te conheço, você fingir que não me conhece e pronto. queria saber se essa é mesmo a melhor solução. acho que trocar umas cartas a respeito não vai nos fazer mal. não consigo tirar da cabeça que o que a gente viveu foi bonito.

um beijo,

Clóvis

20 de jul. de 2005

Oblíquo



- Desculpe-me pelo sumiço. É que eu não tô bom e não sou capaz de compartilhar isso. Não saberia como me comportar, preferi me esconder.

A amizade é um bom lugar pra fragilidade. Outro bom lugar pra ela é o amor. As fragilidades são muitas, são geralmente ocultas ou ocultadas. É preciso coragem para oferecê-las a alguém. E se a covardia destaca-se entre as fragilidades dele, parece entrar num caminho sem volta. Um caminho de fragilidades solitárias, de aproximações impossíveis. A aparente impossibilidade de oferecer-se, por covardia ou pela iminência do fracasso, é o que imobiliza-o e afasta-o das coisas encantadoras do mundo. Coisas cada vez menores, pelo ângulo cada vez mais oblíquo sob o qual ele é capaz de vê-las (e atrás do qual é levado a esconder-se).

12 de jul. de 2005

2 am


- Você ainda balança?
- Balanço e quase caio.
- Nossa, fiz uma cara aqui que nenhum emoticon consegue representar. Inúteis.
- Cara de quê?
- Ah. Acho que nenhuma palavra consegue representar também. Inúteis.
- E agora?
- Ah, eu gosto de você viu. Meio sem jeito mas gosto.
- Por que meio sem jeito?
- Ah, porque eu nao sei contextualizar, demonstrar. Sei lá.
- Mas eu gosto, por mais que sem jeito também, de você. E gosto de você gostar de mim.
- Que bom isso, assim a essa hora, assim sem porquê. Assim que é bom gostar.
- Oh... quase um post.
- É verdade.

31 de mai. de 2005

Insone


O tempo deixou de agir nele, tornou-se vácuo. É sem, é vazio de tudo. De sentido e de forma. Tão vazio de vida que à noite nem morre. Seus olhos não se fecham, seu corpo não descansa. É obra inacabada, parada por falta de verba ou descaso. Não há sono, há saudade.

30 de mai. de 2005

Insone II


Havia descoberto um impulso. Um verdadeiro fascínio por aqueles que acreditavam, pelos que movimentavam-se com desenvoltura na arena que até então lhe parecera tão árida. Queria inserir-se numa vida convicta qualquer. Numa vida convicta. Procurava agitar-se até viver uma nova história que pudesse contar; até constituir um mundo particular que pudesse compartilhar. Seriam mais muitas noites em claro, agora a pensar nesse projeto. Dessa vez, noites (instantaneamente) felizes, sobretudo pela esperança que nelas surgia.

29 de mai. de 2005

Insone III


Notava, enquanto acostumava-se com o hábito de não dormir, que a cada noite passada em claro mais as coisas do mundo se esclareciam. Ao não dormir, a energia não se perdia com o fechar dos olhos e o repousar do corpo. As vontades permaneciam insatisfeitas, em busca de realização. Os aprendizados, assim como as boas experiências, deixavam de dispersar-se, de encaminhar-se para o desconhecido território da memória. O presente acentuava-se, as idéias encadeavam-se e, ao mesmo tempo, tornavam-se singulares pela abolição da rotina. Os fatos deixavam de aprisionar-se em dias, passavam a dar-se em seu tempo devido, em seu espaço adequado.

28 de mai. de 2005

Insone IV


Havia encontrado um amor. Depois de inúmeras noites em claro, nas quais privava-se de todas as experiências que a ele se ofereciam, libertou-se. A liberdade de vínculos que até então defendia representava a ausência de escolhas, o posicionamento no lugar nenhum. Por ter se livrado de tudo, acabou aprisionado em si mesmo. Mas agora amava.

25 de mai. de 2005

Onde?


Em 17 de janeiro de 1906, aos quatorze anos de idade, Mariquinha casou-se com seu primo Soquinho. Teve seu primeiro filho aos quinze anos e, aos quarenta e quatro, o décimo-sexto. Mariquinha faleceu em 1983, aos noventa e dois anos de idade. Antes disso, escreveu alguns versos.

Gente, cadê a gente dessa casa?
Gente que os meus olhos viam.
Hoje não vejo mais.
Gente que comigo dormia,
gente que comigo comia,
gente que comigo vivia.
Me fala gente!
Onde está a gente dessa casa?


23 de mai. de 2005

Em repouso


O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há de sê-lo a vida humana? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz, mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver?

Stig Dagerman

11 de abr. de 2005

Flora



Uma criatura muito feliz. A melhor companheira de que consigo me lembrar. Foram várias as vezes em que, no meio da noite, vinha dormir na minha cama. Chegava devagar e deitava num cantinho sem fazer nenhum barulho. De manhã, antes que eu acordasse, saía do meu quarto e voltava para o seu lugar. Também foram muitas as noites que ela passou na cozinha, sentada numa cadeira, olhando a rua através da janela menor. Quando alguém esquecia a porta destrancada, ela descia as escadas e ia ver a rua mais de perto. Permanecia entre as plantas do pequeno jardim que havia na frente do prédio até que o sol nascesse.

Ela gostava de ver as pequenas estrelas que se acendiam e se apagavam na rua.

De manhã, era sempre a primeira a aparecer na sala. Recostada num cantinho do sofá, recebia com um olhar macio todos os que cruzavam a porta do corredor. Eu sempre a cumprimentava com um carinho, assim como meu irmão. As outras pessoas costumavam não nota-la. Ela parecia não se importar com isso, ao menos nunca reclamava nem alterava sua expressão, tão calma e pacífica. Ninguém a levava a sério, ninguém prestava muita atenção nela. Às vezes ela passava o dia inteiro andando pela casa, passando por todos os cômodos, olhando para cada pessoa até ganhar um sorriso ou uma palavra. Gostava de retribuí-los, quando era o caso.

Entre noites em claro, dores desumanas e alegrias instantâneas foi que a ela se apagou. Desde então meu irmão e eu passamos algumas noites em claro, do jeito que ela gostava que as noites fossem. Num dia desses, no meio de uma noite dessas, papai veio nos chamar para conhecer a sua nova esposa.

Uma moça simpática, um pouco mais nova e mais agitada que a mamãe.

24 de mar. de 2005

Especulando


Os pobres cada vez mais pobres; os ricos cada vez mais ricos e mais isolados (mas nunca o suficiente). E a riqueza anda tão afastada da produção. Seu terreno contemporâneo é a especulação.

1 de mar. de 2005

Working class


O tédio pode ser dividido em dois tipos: o da indiferença e o da insatisfação permanente. Qualquer afirmação de vazio existencial traz consigo uma pretensão absurda, uma covardia disfarçada. Qual seria o mal contido nos fúteis propósitos, responsável pela rejeição dos mesmos? Chego a dizer que os grandes dramas da existência acontecem nos subúrbios, na working class.

4 de fev. de 2005

Instantânea


Eu pensei que fosse o início da felicidade. Mas era a própria felicidade, naquele exato momento. Desde então percebi que é só nesse estado que a felicidade existe, sem anúncio, sem despedida.

14 de dez. de 2004

Sobre ela


Parece-me que ela não foi criada com o objetivo de agradar. Parece que foi apagada pouco a pouco. Acabou tomando um aparente medo da vida. Ela não é o tipo de pessoa que faz catarse. Parece incrustada em alguma coisa que ninguém vê. Genuínamente existindo. Ao invés de explodir em risos e lágrimas selvagens, em palavras ditas num tom acima, ela fez outra escolha.

30 de nov. de 2004

Ao redor


Tem gente que anda olhando pra baixo. Deus me livre. Imagina se alguém me dá um sorriso e eu não vejo.

29 de nov. de 2004

Pulo fora



É, porque acho que ficamos felizes ou tristes em função de coisas que acontecem. E a felicidade também não é o melhor estado. Assim como a depressão e a tristeza, a felicidade e a alegria são barulhentas demais. Por isso, sinto-me plena quando estou tranqüila.

Maitê (coisa feia)