27 de jun. de 2007

A encomenda


Dona Alice e seu filho moravam em cidades diferentes, já há alguns anos. Por motivos que só uma mãe entende, sempre precisava enviar alguma encomenda para o filho. Para tanto, utilizava um sistema bastante comum nas rodoviárias de pequenas cidades. Mas ela sempre escolhia a dedo a passageira que entregaria a encomenda da vez para o rapaz. Atenciosamente descrevia o filho à moça escolhida, falava ao filho sobre a portadora da encomenda e torcia para que o encontro desse certo. Quem sabe um neto.

14 de mai. de 2007

Trivial


Pobre Eva. Há muito perdera a conta dos romances desperdiçados por razões triviais. Cansada de não levar nada pra frente, resolveu fazer de outro jeito. Se a vida não vinha pronta, enfiaria as duas mãos na massa.

3 de mai. de 2007

28 de abr. de 2007

Despedida


Uma noite, quando meu pai passava pelo rio, vislumbrou-a dançando sob o luar. Precipitando-se enganchou seu lenço e assim a trouxe para casa tornando-a sua esposa. E agora ela ia e vinha pela casa o dia todo, procurando o lenço para que pudesse amarrá-lo nos cabelos e partir. Eu costumava acompanhar suas andanças: de como abria armários e baús, de como destampava jarras, de como se ajoelhava para espiar debaixo das camas. E eu tremia. Tremia de medo que encontrasse seu lenço mágico e se tornasse invisível. Este medo durou ainda muitos anos, ferindo profundamente minha alma recém-nascida. Ainda hoje vive em mim, mais indescritível do que antes: é com angústia que observo aquelas pessoas ou idéias pelas quais tenho amor porque sei, sei que estão procurando seus lenços para poderem ir embora.

23 de fev. de 2007

Essencial


Custava a acreditar que Raquel conhecia o mundo todo. Patrocinada pela madrinha, havia passado três anos passeando continentes afora. Assim, de repente, ninguém imaginaria. Ela não vestia a carapuça de moça viajada nem gastava seus muitos destinos em qualquer oportunidade. Preferia não dar nome aos bois. Escolheu transformar os destinos em essência e deixar atrás das entrelinhas o caso do monge tibetano que havia abandonado tudo depois de passar uma noite ao seu lado.

20 de fev. de 2007

Na minha lista (parte cinco)


Oi Ana,

queria saber como foram as coisas por lá, como estão as coisas por aí, o que tem ocupado a sua cabeça e tudo e tal. seria bom receber umas palavras suas. queria cumprir aquela promessa que fizemos, sobre não nos tratarmos como estranhos depois de tudo o que aconteceu. sei que pode ser difícil pra você, pra mim também não é fácil, mas tenho quase certeza de que vale à pena. sumir é sacanagem. as saudades são muitas. de verdade.

um beijo,

Clóvis

9 de fev. de 2007

O que dizer


Ângela Vicário viu o seu próprio pensamento refletido nos espelhos repetidos da sala. No fim daquela semana, sem ter conseguido um minuto de sossego, escreveu-lhe a primeira carta. Foi uma carta convencional na qual contava que o tinha visto sair do hotel e que teria gostado se ele a houvesse visto. Esperou em vão por uma resposta. Ao fim de dois meses, cansada de esperar, mandou-lhe outra carta no mesmo estilo indireto da anterior, cujo único propósito parecia ser condenar sua falta de cortesia. Seis meses depois tinha escrito seis cartas sem resposta, mas se conformou com a confirmação de que ele as estava recebendo.

Escreveu uma carta semanal durante metade da vida.


Gabriel García Marquez

8 de fev. de 2007

Rei e rainha


Clara tinha uma simpatia implacável por doentes rebeldes, ainda mais se já fossem velhos. Enxergava com bons olhos o embate entre a intolerância do corpo e o desejo de viver. Entendia a aflição dos seus pais, mas estava decidida: continuaria emprestando seu carro ao avô, sempre que ele lhe pedisse.

4 de fev. de 2007

Promessa


O amor vinha forte ao perceber que ela era capaz de se interessar por qualquer coisa, por coisas que ele nunca imaginaria. Ele via isso como a garantia de alguma felicidade no futuro, quando as coisas todas, aos seus próprios olhos, provavelmente já haveriam se esgotado. Resolveu casar-se.

3 de fev. de 2007

Justa causa


Sentia por ele um amor profundo, mas sabia que seria impossível conviver com aquela gargalhada durante muito tempo. Poderia aturar uma série de outras coisas, mas não conseguia encontrar sentido em amar alguém cuja expressão da felicidade fosse algo absolutamente indesejável. Resolveu deixá-lo.

22 de jan. de 2007

Origens


Aurélio pensava sobre as ações que vinham como respostas aos problemas. Essas ações seriam dali em diante chamadas de soluções. Reservaria o outro termo para as ações que surgissem espontaneamente, a partir de desejos e escolhas. Começava a rever muitas das coisas que havia vivido até então, separando-as entre soluções e ações. Essa atividade lhe proporcionava mesmo um certo prazer, por ter a impressão de que, com isso, começava a entender um pouco mais sobre seus caminhos. Foi quando percebeu que o grande amor da sua vida não passava de uma solução para um domingo sem palavras - e decidiu derrubar aquela teoria, que associava o valor das coisas às suas origens.

14 de jan. de 2007

Sem valor


Cecília estava farta de sair com aquelas senhoras que nada faziam além de criticar vizinhas, antigas amigas e até desconhecidas. Estava muito cansada de ouvir palavras desdenhosas, que diminuiam o mundo e nada diziam sobre as senhoras. Trocaria sem pestanejar todo aquele falatório por uma frase que expusesse o que entre as coisas todas era importante e interessante para as senhoras. Queria entender porque elas deixavam de lado todo o resto e só falavam sobre o que julgavam errado e sem valor.

10 de dez. de 2006

No bonde das cinco


Ao saltar do bonde de burro, uma meninazinha que estava com o pai lhe pediu um dos chocolates da caixa que carregava na mão. O pai ralhou com ela e pediu desculpas a Florentino Ariza. Mas ele deu a caixa completa à menina achando que aquele gesto o redimia de todo amargor, e acalmou o papai com um tapinha no ombro.

- Eram para um amor que foi para o caralho - segredou-lhe.


Gabriel García Márquez

5 de dez. de 2006

Galheteiros e tapetinhos


Começava a entendê-la. Ela havia abandonado uma vida em nome de outra, muito mais distante do ponto em que estava. Por causa disso precisava mostrar-se, o tempo todo, envolvida naqueles novos valores. Parou de sair por aí, de entregar-se a qualquer um que lhe atraísse. Até parar de beber ela parou. Ela agora era moça de família, ocupava-se com a decoração da casa e as roupas do marido. Gastava todo o seu dinheiro em galheteiros e tapetinhos, insistentemente exibidos mesmo a quem não quisesse vê-los. Interpretava qualquer dorzinha de cabeça como um sinal da gravidez que tanto esperava, que traria a ela a certeza de que os velhos tempos eram mesmo velhos. Jantava com casais de amigos, freqüentava batizados e acompanhava todas as novelas em cartaz. Fazia tudo isso com uma naturalidade admirável, sem despertar suspeitas em ninguém. Mas não adiantava, a gravidez não vinha nunca, e isso começava a deixá-la preocupada.

1 de dez. de 2006

Separações


A vida é cheia de dedos, são eles que juntam e separam as coisas. Os dedos dos outros dóem, mas dói muito mais a ponta dos nossos dedos nos outros. Incomoda o choque entre o meu movimento e o seu, entre um dedo que, descrente, tenta empurrar um corpo convicto.

20 de nov. de 2006

À sua espera


Fátima enxugou as mãos e sentou-se à mesa, em frente à patroa. Ouviu que as crianças estavam crescidas, que o serviço da casa havia diminuído muito, que os tempos estavam difíceis e que, portanto, ela seria despedida. Diante de tantas palavras, Fátima não soube o que dizer. Depois de algum silêncio levantou-se e deu um abraço na patroa, que retribuiu. Sentiria saudades. Fátima não sabia o que fazer depois de cruzar aquela porta. Tinha trinta e oito anos, poucos amigos e pouca família. Ainda tinha muito tempo pela frente e não sabia por onde começar a vivê-lo.

16 de out. de 2006

A escolha


Perceber todas as influências de todos os pontos de todos os corpos seria descer ao estado de objeto material.

Perceber conscientemente significa escolher, e a consciência consiste antes de tudo nesse discernimento prático. (...) Qual a razão especial que faz com que um fenômeno, de que eu era de início apenas o espectador indiferente, adquira de repente um interesse vital para mim?


Henri Bergson

15 de out. de 2006

A costureira


Há mais de trinta anos ela trabalhava para aquela família. Uma vez por mês aparecia para copiar os modelos das revistas, consertar algumas peças e costurar alguns lençóis. Com o tempo passou a vir menos, porque a família tinha ficado pequena. De uns tempos pra cá, passou a não cobrar para fazer os consertos; a costureira ligava, marcava um dia qualquer e vinha. Passava o dia na casa, almoçava com a senhora e fazia questão de realizar alguns pequenos consertos. Mas agora a costureira estava praticamente cega, por causa do diabetes, e o resultado do seu trabalho era cada vez mais detestável. De qualquer maneira, a senhora sentia-se na obrigação de recolher algumas peças de roupa entre os filhos e deixar que a costureira as "consertasse". Eram anos de amizade, afinal. Não lhe custava muito, afinal. Essas eram as respostas dadas pela senhora aos seus filhos, quando eles perguntavam onde é que estava a generosidade daquela relação.

16 de set. de 2006

Mais um dia


Quizá hay días en que no me escuchas nada. Pero también hay otros días en que me contestas. Así que puedo decir en cada momento que incluso cuando no contestas y quizás no escuchas nada, que algo de esto se está escuchando, que no estoy hablando sola conmigo misma, es decir, en el desierto, algo que no podría soportar - por mucho tiempo. Eso es lo que me ayuda a continuar, o sea, a continuar hablando.

¡Anda! ¿Qué es lo que veo? ¡Algo que parece tener vida! ¡Una hormiga! ¡Una hormiga, Willie, una hormiga viva! ¿Dónde se habrá metido? ¡Aquí! Tiene como una pelotita blanca entre sus patas.

Se ha enterrado.


Samuel Beckett