29 de out. de 2004
Brigitte (parte um)
aquele dia fora amarelo. Brigitte queria que tivesse sido azul como o céu estrelado, como nunca. talvez nem no dia em que Osvaldo e ela se encontraram pela primeira vez. mas a noite estava estrelada, e era isso o que lhe importava.
isso prometia que, no dia seguinte àquele, Osvaldo esperaria pelo que nunca aconteceria. Brigitte havia decidido fazer aquilo porque o coração de Osvaldo não permitia que a felicidade entrasse. Osvaldo temia que a nova felicidade fosse maior que a vida que ele havia sonhado para si, durante toda a sua juventude.
surpresa, era assim que Brigitte estava naquele instante, e nada parecia poder retirá-la daquele imprevisível estado, em que todos nos encontramos.
ela beijou Osvaldo no rosto e adormeceu.
28 de out. de 2004
Brigitte (parte dois)
horas depois, acordou.
Brigitte gostava de sair de casa todo dia às seis horas da manhã. ela seguia, até então, o ritual que inventara quando criança:
ao pisar fora de casa, olhava para o céu e respirava três vezes enquanto mentalizava a palavra amor,
amor, palavra que antes - e até então - parecia-lhe um grande enigma. talvez o maior deles. mas naquele instante tudo lhe apareceu claramente (obviamente) e ela decidiu que era hora de dar um abraço em Osvaldo. entregaria-se a outro na noite daquele novo dia. e agora, que iria separar-se de Osvaldo, não sabia se conseguiria repetir aquele ritual de todos os dias. o ritual parecia-lhe completamente desnecessário. amava-se, afinal.
Brigitte levantou-se. olhou para Osvaldo e disse: "nunca mais".
preparou-se para um encontro. saiu de casa correndo, numa agitação de cabelos e pulseiras balançando.
27 de out. de 2004
Brigitte (parte três)
ao abrir a porta, Brigitte surpreendeu-se de novo: todos observavam uma cena armada por um casal de barraqueiros, que só queriam arrumar confusão. ela não queria mais. decidiu dar meia volta.
parou no meio da meia volta.
olhou ao seu redor
e não encontrou ninguém
a quem admirasse ou
a quem devesse qualquer forma especial de respeito.
Brigitte libertou-se então da moral que a atormentara durante toda a sua vida. agora sentia aquele gostoso sentimento sem nenhuma culpa.
enquanto isso, ela chupava um picolé, um dos mais gelados que já havia experimentado. nada em sua memória comparava-se àquele frio, àquela paralização, àquela imobilidade.
foi quando ouviu uma buzina e, num rompante, bateu a porta, prendeu os cabelos e soltou algumas pulseiras no ar.
ajeitou seu vestido. caminhou dois quarteirões.
26 de out. de 2004
Brigitte (parte quatro)
sentou-se na calçada. esperava pelo primeiro carro que passasse. só iria de carro, porque se alguém passasse a pé, ainda que tivesse boa vontade, não poderia levá-la muito longe de casa. e, apesar da distância enorme que a separaria de seus pais e irmãos, Brigitte não se sentiria sozinha.
ela apenas sentia-se incomodada pela inércia que comandara os últimos dias. sentia-se presa a uma vida que não adequava-se aos seus planos nem aos seus desejos, agora incontroláveis.
Brigitte sentiu então que o clima daquele lugar lhe fazia bem. já há muito tempo não passavam carros nem pessoas. ela gostava de sentir-se. ali mesmo. na calçada.
a sua vida poderia transformar-se. antes mesmo que qualquer carro ou kombi ou caminhão passasse e a levasse dali.
horas se passaram. Brigitte experimentava-se.
25 de out. de 2004
Brigitte (parte final)
enquanto isso, dois carros e uma caminhonete ofereceram-se para levar Brigitte daquele lugar. aguardavam a decisão dela, enfileirados.
ainda naquela tarde, Brigitte precisava decidir entre os um dos três caminhos recém-aparecidos em sua vida. precisava ponderar devidamente as promessas e os custos de cada caminho. confiante e decidida, optou pela segunda opção, que poderia trazer-lhe, no futuro, maior felicidade.
"mas nada é precedente e nada pode garantir ganhos futuros. as variáveis sobrepõem-se o tempo todo e a natureza das coisas é nitidamente imediata",
foi o que pensou, um minuto depois. sua escolha persistia pendente. era preciso pensar nas consequências imediatas e abandonar os grandes planos, antes postos em primeiro lugar.
sim, ela mudara de opinião. tinha esse direito. não queria agora o caminho mais difícil. queria apenas um caminho mais calmo, para que as coisas acontecessem de forma mais natural em sua vida.
afinal, de quem era mesmo aquela vida?
unicamente dela, mas às vezes Brigitte parecia esquecer-se disso. aquela escolha, relacionada à próxima pessoa com a qual dividiria sua vida, decididamente, ficou para depois. ou para nunca mais.
14 de out. de 2004
Nosso clichê
é dos nossos limites que estou falando. um limite não existe sozinho, sempre está relacionado a duas grandezas. a cada nosso que eu falo, mais eu sei que existimos. o curioso é que quanto mais destemido eu sou, mais medo me aparece (mas queria que esse medo e esse destemor fossem nossos).
e deve ser assim que surge um clichê. por causa de gente assim, que não vive sem.
4 de out. de 2004
Fragmentos recolhidos do limbo
eu não penso duas vezes. eu viro criança, viro mendigo, viro um cachorro sem dono. e mesmo assim me trata como se eu pudesse partir a qualquer momento, como se não soubesse que não há nada que me atraia e me conforte mais do que a sua mera presença.
eu prefiro não tomar a nossa relação como exemplo de nada. prefiro aproxima-la da exceção, lá somos mais inofensivos. ser exceção traz um conforto, uma sensação de liberdade.
modulo os amores em forma de amizade. modulo minhas vontades em nome do que me permitem. às vezes penso que vivo a metade da minha vida, a metade do que seria capaz de experimentar.
23 de set. de 2004
O próximo passo
Estava sentado, calado, olhando para o horizonte. Olhares piedosos se aproximavam. Era como se gritassem em sua direção, bem perto dos seus ouvidos. Antes mesmo que lhe os olhares se transformassem em palavras e gestos, resolveu dizer alguma coisa, assegurar-se de que não haveria interrupção.
Não me perguntem se estou triste. Se me decepcionei, se alguma coisa aconteceu (prefiro a autonomia de expor-me somente quando me sentir à vontade). Por favor não direcionem, com suas piedosas palavras, a minha cruel atenção a qualquer ponto que me faça sentir mal. Deixem-me iludido, introspectivo e distraído. A distração me conduz a um lugar mais leve, mais pertinente. A realidade me condena, a atenção me persegue.
A consciência me impede de dar o próximo passo.
Deixe as pessoas tranqüilas. Não abra os olhos delas. Se você fizer isso, que vão elas ver? Deixe que continuem sonhando! A menos que, quando elas abrirem os olhos, você possa mostrar-lhes um mundo melhor. Você pode?
20 de set. de 2004
Na minha lista (parte dois)
Donato,
depois de tantos anos, é um pouco difícil começar essa carta. tantos anos sem te ligar, sem nos encontrarmos, sem qualquer tipo de contato. depois de tantos outros anos de convivência diária, feito tico e teco. eu também não entendo qual é a distância que nos separa, talvez seja a distância do tempo. talvez a seja a distância dos passos que demos em direções opostas.
talvez seja justamente por isso que não te procurei durante tanto tempo. eu sempre pensei em fazê-lo, mas sempre achei que seria um pouco sem graça e um pouco sem assunto. sempre achei que nunca seria como antes, que isso era impossível. ainda acho isso, mas estou fazendo uma lista importante e você acabou aparecendo nela. então tomei coragem e escrevi essa carta.
tomei coragem de assumir que algumas pessoas fazem mesmo parte do passado. que algumas pessoas que um dia foram essenciais podem hoje não ser mais. você é essencial nas minhas lembranças, nas minhas referências. mas provavelmente vou continuar sem te ligar, sem te procurar nem nada disso. talvez eu não te ligue nem no dia do seu aniversário (porque na última vez foi meio desconfortável). essa distância nos cai bem. mas não tem jeito, eu não me esqueço de você.
um abraço,
Clóvis
13 de set. de 2004
Homens de verdade
Eis o que é um homem de verdade. Um homem de sangue quente e ossatura sólida, que, quando sofre, deixa correr grandes lágrimas autênticas; quando está feliz, não expõe sua alegria, fazendo-a passar pela peneira da metafísica.
Risos artificiais, previsíveis, incapazes de emocionar ou de repercutir a emoção vivida. O riso e a gargalhada não são as únicas formas de dizer que algo de muito bom acabou de acontecer. Que tal ousar, explorar o caminho da metafísica, transformar essa energia em outra?
Risos artificiais, previsíveis, incapazes de emocionar ou de repercutir a emoção vivida. O riso e a gargalhada não são as únicas formas de dizer que algo de muito bom acabou de acontecer. Que tal ousar, explorar o caminho da metafísica, transformar essa energia em outra?
8 de set. de 2004
Na minha lista (parte um)
Oi Cássia,
resolvi escrever essa carta porque no sabado assisti a "minha vida sem mim", um filme muito bonito. não sei se você já viu, tomara que sim. o lance é que, num determinado momento do filme, uma personagem resolvia fazer uma lista das coisas que queria fazer antes de morrer. pois é. não sei porque, e nem sei se vou saber, mas durante o filme me lembrei muito de você.
lembrei daquela nossa conversa na praia, do "o que é que a gente tá fazendo com a nossa vida?" (e eu ainda não sei o que é que me prende aqui e não me deixa transformar todos os meus dias em dias como aquele). lembrei daquele dia que andamos pra muito longe e depois descansamos na sombra de um barquinho simpático. lembrei da nossa despedida no aeroporto. do seu sorriso quando me viu parado e sem graça, atrás da pilastra.
eu acho isso tudo muito emocionante. porque a maioria dessas lembranças é de momentos sem palavras, ou em que as palavras eram secundárias. momentos em que outros tipos de ligação, em que outros tipos de comunicação pareciam sobrepor-se às palavras. em que o silêncio fazia bem, dava tranquilidade. em que a mera presença dava mais prazer do que qualquer palavra.
eu acho muito raro e muito bom encontrar pessoas assim. então eu resolvi colocar na minha lista: encontrar com você de novo. resolvi também te contar isso, porque acho que essas coisas fazem bem pra gente, são boas de ouvir e de dizer. não sei como vai ser entre a gente, mas agora é assim e eu gosto. e às vezes eu sinto saudade de você, do seu jeito e das nossas andanças.
um beijo,
Clóvis
4 de set. de 2004
O máximo possível

A história começa com duas pessoas que se gostam muito e que, portanto, se vêem o máximo possível.
Os dois estão juntos há um mês e têm passado a maior parte do tempo dentro de casa, olhando um pra cara do outro. As despedidas diárias são sempre dolorosas, mas é uma dor que eles já conhecem. É uma sensação de morte, de dilaceramento, como se um pedaço fosse arrancado. Por causa disso, os dois regularmente sentem-se no fundo do poço, mas como já estiveram muito lá, sabem que não é o fim do mundo.
A história não termina.
23 de ago. de 2004
Polaroid
Adoro minhas mãos. Adoro rir de mim mesma. Sou perdida por gente doida. Desprezo gente que se leva a sério. Adoro aristocratas. Durmo bem menos do que gostaria. Adoro gente que diz " é ruim, hein?!". Detesto gente que mitifica. Gosto muito de dirigir. Não gosto de mistério. Desprezo gente fiteira.
Mais ou menos assim. Um pouco partimpim.
13 de ago. de 2004
Descobertas
Pensava sobre as pessoas e as coisas das quais mais sentia saudade.
Em alguns instantes descobriu que eram exatamente aquelas de que havia se despedido antes da hora, antes de quando queria fazê-lo. Depois, conversando com suas amigas, descobriu que era sempre assim, com todas as pessoas, com todas as saudades.
E, sendo assim, acabou descobrindo que aqueles amores que a gente guarda são algo muito mais simples do que imaginava. Descoberta essa que, de qualquer forma, não a fazia sentir-se melhor ou pior. Mas talvez ajudasse-a a ter mais cuidado nas despedidas e nas saudades.
- É preciso ter cuidado.
(valeria à pena levar relações ao seu limite? valeria à pena poupa-las, encerra-las antes da hora para que delas fossem guardadas boas lembranças?)
11 de ago. de 2004
3 de ago. de 2004
Que me desmonte

homme à la cheminée
Um homem ali, observando a lareira.
De repente o homem não é mais o mesmo.
E a lareira ali, intacta.
É tão bom quando a gente vê alguma coisa que desmonta a gente, que deixa a gente um caos. E pode ser ainda melhor se essa coisa for uma pessoa.
29 de jul. de 2004
A sorte de um amor tranquilo
segunda
- e ontem foi tão bonito porque nele eu vi o meu passado, os que passaram. e ele foi capaz de despertar em mim algo de bom, de valioso sobre os que um dia rejeitei.
terça
- e hoje foi horrível.
- como assim?
- eu finjo (como sempre, desde uns tempos pra cá) que nada acontece em mim quando o encontro.
- e será que alguém ainda acredita nisso?
- eu não. e nem ele, imagino.
- e o que será que nele acontece no caso desses encontros?
- não sei. vejo-nos com os olhos baixos, desconversados, presos às formalidades e banalidades. sem que consigamos afastarmo-nos um passo sequer desse incômodo lugar. deixados a sós: banal, banal (sem ao menos uma piadinha mais arriscada, mais sugestiva). ele vai ao grupo e sigo-o até o momento em que percebo a minha inexistência instantânea, a minha ausência situacional. resolvo então assumi-la e sair da história.
- nossa...
quarta
- e hoje?
- através da janela eu o vejo. sozinho, em busca de alguém, de qualquer pessoa que não seja eu. parece ser apenas uma história que acontece através da janela, dentro dela. as demais são demais para mim. essa me basta.
- eu não sei como você aguenta...
- vestígios de confiança me conduzem a essa situação. todos os esforços para que (1) ele me veja, (2) pense que não o vi, (3) levante-se e (4) venha até mim.... (já haviam mais de oito passos traçados e nenhum ainda dado)
(de novo assim: uma vida a gente vive, a outra a gente guarda)
quinta
- e aí?
- passo então a acreditar que não deveria ser, prefiro assim. afirmo a mim mesmo que os amores são recíprocos, que dois que se amam aproveitariam as situações que encontram, que não seriam capazes de ignorar a improbabilidade dessa situação, nem a sua unicidade.
- entendi. em todos os meus amores foi assim também. nos grandes amores e nos grandes prazeres. nos outros, a autoridade e a hierarquia, as relações de favorecido e favorecedor aniquilaram tudo.
- então acabou, prefiro assim. que esses favores eu não peço a ninguém.
9 de jul. de 2004
Carta para Marina
Odeio essa distância que nos separa. Odeio não estarmos mais ligadas pelos laços da vida em comum que a infância - mesmo em lugares tão diferentes - proporciona. Odeio termos tomado rumos tão diferentes e agora existir comum à nós apenas o laço da amizade. Porque à vezes ponho em dúvida a força desse laço e fico me perguntando se eventualmente ele não pode vir a arrebentar.
Me assusta ficar tanto tempo sem conversar com você; você que tantas vezes foi a minha própria voz, que tantas vezes foi minha irmã, que usei para dizer à mim o que eu gostaria de dizer; que tantas vezes foi minha porta voz à mim mesma.
Você que tantas vezes foi quem me segurou de pé, me segurou no colo, e de tantos outros modos que eu não saberia precisar nem tampouco entender. Ou explicar.
Me lembro quando a conheci, época em que três anos a menos ou a mais era o que diferenciava uma criança de uma moça; mas penso que nunca foi problema para nós, passamos por tudo quase que simultaneamente. Uma precoce demais, a outra atrasada demais, e entre demoras e adiantamentos encontramos juntas no tic tac do relógio o nosso próprio tempo.
Conversar com você sempre foi o mesmo que conversar comigo, perdi a conta de quantas cartas à você comecei confusa e finalizei esclarecida após relatar-te os fatos. Fatos que eu repetia vinte vezes em no máximo vinte e três folhas, frente e verso; e você lia e comentava cada frase, cada intenção. Sem falar nos envelopes gigantescos destinados aos nomes mais estranhos possíveis aos olhos dos carteiros e dos vizinhos. Sinto falta desse chão que você sempre foi para mim.
Talvez porque a infância terminou e passamos de adolescentes à adultas sem que nos déssemos conta, e acabamos por aprender a sermos nosso próprio chão. À dar à nós nossos próprios colos.
Isso nos faz independentes. E reduz nossa ligação à meros laços de amor que criamos durante os anos. Não mais a vida em comum. Não mais os mesmos caminhos. Não mais os mesmos ideais e provavelmente nem mais os mesmos planos. Que dirá então, um futuro em comum.
Laços de amor e de amizade. Amizade que não é mais a mesma, que deu espaço à trabalhos, obrigações, preguiças, namoros, amigos fisicamente próximos, e tantas outras fatalidades? obstáculos? interesses? que às vezes me parecem terem alcançado o que os quilômetros jamais conseguiram.
Me pergunto então, se o laço que nos une é mesmo assim frágil a ponto de partir-se de fato. Ou ainda, simplesmente soltar-se... e caso isso viesse a acontecer, estaríamos afinal livres uma da outra, soltas pelo espaço flutuando...
Tento descobrir o que seria então de mim. O que seria de nós. Reduziríamos à nada uma à outra.
Sinto medo. Medo de não precisar mais que seja meu chão; medo que talvez você também não me precise mais. Medo de ter crescido e, inevitável, ter-me tornado sozinha como qualquer pessoa.
Mais medo ainda por perceber que hoje preciso de você de outra forma. Pela simples existência destes laços de amizade e amor que formaram-se com o passar destes anos; que são a única coisa que agora resta-nos em comum.
E que eu espero serem fortes o suficiente para não deixar que nos percamos eu de você e você de mim; pelo único motivo de eu te amar tanto assim e você ser ainda, a minha número um.
Esse texto não fui eu quem escreveu, foi a Thaís Capusso. Eu não a conheço. Ele estava aqui guardado e resolvi postar, já que vou viajar e não tinha nada pertinente pronto. Acho-o bom de ler, de pensar. Bom, é isso: amanhã bem cedo lanço-me formalmente ao acaso. Cazuza para todos!
1 de jul. de 2004
A gente inventa
O nosso amor a gente inventa pra se distrair...
Os românticos certamente condenariam essa afirmação. Os mais céticos, por sua vez, perguntariam o que é que a gente não inventa. E será que tudo não é mesmo invenção? Que seja, então. Mas que idéia boa é inventar um amor, não há jeito melhor de se distrair.
25 de jun. de 2004
Corpo humano
E se eu gosto de músculos deve ser por causa da consistência deles. Mas eu gosto mais quando consigo envolvê-los na minha mão. Quando posso acreditar que por um instante faço parte e estimulo aquela rigidez. E se eu não gosto de banha deve ser porque ela se espalha à medida que eu pressiono. E muda de forma. E não oferece a mínima resistência, até chegar no osso. Por isso é que eu devo gostar de osso: porque para mudar os ossos de uma pessoa é preciso um mínimo de violência. E eu gosto do que não se adapta a mim. Gosto de relacionar-me com algo de imutável e de exclusivo. Não preciso que ninguém se vista de mim para ter acesso ao que ofereço. Esse acesso é inevitável. Prefiro que as pessoas continuem vestidas como as encontrei e que por trás de cada traje hajam músculos e ossos a espera. Músculos em busca de estímulos e ossos satisfeitos, calcificados. E que não haja banha, porque não quero interromper o estado de nada. Quero potencializar. Essencialmente de um, potencialmente de todos.
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