5 de ago. de 2005
20 de jul. de 2005
Oblíquo

- Desculpe-me pelo sumiço. É que eu não tô bom e não sou capaz de compartilhar isso. Não saberia como me comportar, preferi me esconder.
A amizade é um bom lugar pra fragilidade. Outro bom lugar pra ela é o amor. As fragilidades são muitas, são geralmente ocultas ou ocultadas. É preciso coragem para oferecê-las a alguém. E se a covardia destaca-se entre as fragilidades dele, parece entrar num caminho sem volta. Um caminho de fragilidades solitárias, de aproximações impossíveis. A aparente impossibilidade de oferecer-se, por covardia ou pela iminência do fracasso, é o que imobiliza-o e afasta-o das coisas encantadoras do mundo. Coisas cada vez menores, pelo ângulo cada vez mais oblíquo sob o qual ele é capaz de vê-las (e atrás do qual é levado a esconder-se).
12 de jul. de 2005
2 am
- Você ainda balança?
- Balanço e quase caio.
- Nossa, fiz uma cara aqui que nenhum emoticon consegue representar. Inúteis.
- Cara de quê?
- Ah. Acho que nenhuma palavra consegue representar também. Inúteis.
- E agora?
- Ah, eu gosto de você viu. Meio sem jeito mas gosto.
- Por que meio sem jeito?
- Ah, porque eu nao sei contextualizar, demonstrar. Sei lá.
- Mas eu gosto, por mais que sem jeito também, de você. E gosto de você gostar de mim.
- Que bom isso, assim a essa hora, assim sem porquê. Assim que é bom gostar.
- Oh... quase um post.
- É verdade.
31 de mai. de 2005
Insone
O tempo deixou de agir nele, tornou-se vácuo. É sem, é vazio de tudo. De sentido e de forma. Tão vazio de vida que à noite nem morre. Seus olhos não se fecham, seu corpo não descansa. É obra inacabada, parada por falta de verba ou descaso. Não há sono, há saudade.
30 de mai. de 2005
Insone II
Havia descoberto um impulso. Um verdadeiro fascínio por aqueles que acreditavam, pelos que movimentavam-se com desenvoltura na arena que até então lhe parecera tão árida. Queria inserir-se numa vida convicta qualquer. Numa vida convicta. Procurava agitar-se até viver uma nova história que pudesse contar; até constituir um mundo particular que pudesse compartilhar. Seriam mais muitas noites em claro, agora a pensar nesse projeto. Dessa vez, noites (instantaneamente) felizes, sobretudo pela esperança que nelas surgia.
29 de mai. de 2005
Insone III
Notava, enquanto acostumava-se com o hábito de não dormir, que a cada noite passada em claro mais as coisas do mundo se esclareciam. Ao não dormir, a energia não se perdia com o fechar dos olhos e o repousar do corpo. As vontades permaneciam insatisfeitas, em busca de realização. Os aprendizados, assim como as boas experiências, deixavam de dispersar-se, de encaminhar-se para o desconhecido território da memória. O presente acentuava-se, as idéias encadeavam-se e, ao mesmo tempo, tornavam-se singulares pela abolição da rotina. Os fatos deixavam de aprisionar-se em dias, passavam a dar-se em seu tempo devido, em seu espaço adequado.
28 de mai. de 2005
Insone IV
Havia encontrado um amor. Depois de inúmeras noites em claro, nas quais privava-se de todas as experiências que a ele se ofereciam, libertou-se. A liberdade de vínculos que até então defendia representava a ausência de escolhas, o posicionamento no lugar nenhum. Por ter se livrado de tudo, acabou aprisionado em si mesmo. Mas agora amava.
25 de mai. de 2005
Onde?
Em 17 de janeiro de 1906, aos quatorze anos de idade, Mariquinha casou-se com seu primo Soquinho. Teve seu primeiro filho aos quinze anos e, aos quarenta e quatro, o décimo-sexto. Mariquinha faleceu em 1983, aos noventa e dois anos de idade. Antes disso, escreveu alguns versos.
Gente, cadê a gente dessa casa?
Gente que os meus olhos viam.
Hoje não vejo mais.
Gente que comigo dormia,
gente que comigo comia,
gente que comigo vivia.
Me fala gente!
Onde está a gente dessa casa?
23 de mai. de 2005
Em repouso
O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há de sê-lo a vida humana? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz, mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver?
Stig Dagerman
4 de mai. de 2005
11 de abr. de 2005
Flora

Uma criatura muito feliz. A melhor companheira de que consigo me lembrar. Foram várias as vezes em que, no meio da noite, vinha dormir na minha cama. Chegava devagar e deitava num cantinho sem fazer nenhum barulho. De manhã, antes que eu acordasse, saía do meu quarto e voltava para o seu lugar. Também foram muitas as noites que ela passou na cozinha, sentada numa cadeira, olhando a rua através da janela menor. Quando alguém esquecia a porta destrancada, ela descia as escadas e ia ver a rua mais de perto. Permanecia entre as plantas do pequeno jardim que havia na frente do prédio até que o sol nascesse.
Ela gostava de ver as pequenas estrelas que se acendiam e se apagavam na rua.
De manhã, era sempre a primeira a aparecer na sala. Recostada num cantinho do sofá, recebia com um olhar macio todos os que cruzavam a porta do corredor. Eu sempre a cumprimentava com um carinho, assim como meu irmão. As outras pessoas costumavam não nota-la. Ela parecia não se importar com isso, ao menos nunca reclamava nem alterava sua expressão, tão calma e pacífica. Ninguém a levava a sério, ninguém prestava muita atenção nela. Às vezes ela passava o dia inteiro andando pela casa, passando por todos os cômodos, olhando para cada pessoa até ganhar um sorriso ou uma palavra. Gostava de retribuí-los, quando era o caso.
Entre noites em claro, dores desumanas e alegrias instantâneas foi que a ela se apagou. Desde então meu irmão e eu passamos algumas noites em claro, do jeito que ela gostava que as noites fossem. Num dia desses, no meio de uma noite dessas, papai veio nos chamar para conhecer a sua nova esposa.
Uma moça simpática, um pouco mais nova e mais agitada que a mamãe.
24 de mar. de 2005
Especulando
Os pobres cada vez mais pobres; os ricos cada vez mais ricos e mais isolados (mas nunca o suficiente). E a riqueza anda tão afastada da produção. Seu terreno contemporâneo é a especulação.
1 de mar. de 2005
Working class
O tédio pode ser dividido em dois tipos: o da indiferença e o da insatisfação permanente. Qualquer afirmação de vazio existencial traz consigo uma pretensão absurda, uma covardia disfarçada. Qual seria o mal contido nos fúteis propósitos, responsável pela rejeição dos mesmos? Chego a dizer que os grandes dramas da existência acontecem nos subúrbios, na working class.
6 de fev. de 2005
4 de fev. de 2005
Instantânea
Eu pensei que fosse o início da felicidade. Mas era a própria felicidade, naquele exato momento. Desde então percebi que é só nesse estado que a felicidade existe, sem anúncio, sem despedida.
14 de dez. de 2004
Sobre ela
Parece-me que ela não foi criada com o objetivo de agradar. Parece que foi apagada pouco a pouco. Acabou tomando um aparente medo da vida. Ela não é o tipo de pessoa que faz catarse. Parece incrustada em alguma coisa que ninguém vê. Genuínamente existindo. Ao invés de explodir em risos e lágrimas selvagens, em palavras ditas num tom acima, ela fez outra escolha.
30 de nov. de 2004
Ao redor
Tem gente que anda olhando pra baixo. Deus me livre. Imagina se alguém me dá um sorriso e eu não vejo.
29 de nov. de 2004
Pulo fora
27 de nov. de 2004
Bancando o palhaço
O pessoal do hospital não gostava muito de mim, na certa achava que eu era inerte demais; até no hospital, e quem sabe no leito de morte, você é condenado a bancar o palhaço.
Michel Houllebecq
19 de nov. de 2004
Serenidade
A tarefa parecia-me cada vez mais fácil. Era absolutamente tediosa, o que não me desagradava, pois podia assim ocupar minha mente com outras coisas. (...) Chamava esse estado de serenidade escritural. Não era tão grande a diferença entre a função de monge copista, na Idade Média, e a minha... Como era bom viver sem orgulho nem inteligência. Eu estava hibernando.
Amélie Nothomb
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