24 de ago. de 2007

Hora do Meme


Zorba, o Grego (Nikos Kazantzakis)
Durante uma viagem de ônibus para João Pessoa, em 2003. Um livro sobre a força do encontro e do desprendimento.

Ascese, os Salvadores de Deus (Nikos Kazantzakis)
Depois de ler uma entrevista com a Letícia Spiller, também em 2003. Um livro sobre a liberdade e a luta pela libertação.

Medo e Submissão (Amelie Nothomb)
Numa visita despretensiosa à Biblioteca Pública, em 2001. Um livro para virar cambalhotas e gargalhar sozinho, no quarto.

Amor nos tempos do cólera (Gabriel Garcia Márquez)
Depois de uma aula de teatro, em 2006. Um livro sobre o amor mais bonito e mais humano que se pode conceber.

Caosmose (Félix Guattari)
Depois de uma aula da Profa. Roberta, em 2004. Prosa-ciência sobre a vida contemporânea e suas poéticas possibilidades.

A Bel foi quem me convidou. Para dar prosseguimento, convido o Loise, o João e a Maria.

13 de ago. de 2007

Na Baixada


Gostava muito da vida. Quando fosse pra morrer, não queria nem céu nem inferno. Queria virar assombração, só para continuar vivendo.

9 de ago. de 2007

Hora do almoço


Joana havia terminado o almoço e todo dia era a mesma batalha para que as crianças comparecessem à mesa. Enquanto os filhos se distraíam com o suco de laranja derramado na toalha, ela adiantava as coisas e servia o próprio prato. Arroz, feijão, um pouco de salada para estimular as crianças e aquele bife à milanesa do cantinho. Sempre deixava os bifes mais bonitos para os filhos.

8 de ago. de 2007

Em obras


Para Martina, as manhãs eram sempre iguais. Às sete da matina, muito antes da hora prevista pra levantar da cama, começavam as marteladas na obra ao lado. Pontualmente às sete e quinze Martina tinha vontade de lançar pela janela o travesseiro, o telefone, o criado-mudo e qualquer outra coisa que suas mãos pudessem alcançar. Nesses momentos os cinco pedreiros pareciam um exército inimigo e eram capazes de irritá-la mais até do que o chefe, o ex-namorado e a vizinha do 402.

E nem parava pra pensar que aqueles pedreiros, decididamente, também não queriam estar ali.

11 de jul. de 2007

Minha música


Um cheiro estranho toma conta da sala e, sem pestanejar, todos os convidados correm em direção ao forno. A última porção de pães de queijo será servida assim, um pouco além do ponto. É que me distraí com a música!, diz a anfitriã, rindo e recompondo-se ao lado do marido.

10 de jul. de 2007

Lucidez


Decido encher todas as minhas páginas em branco com as mais belas combinações de palavras que seja capaz de engendrar. E depois, porque quero assegurar-me que a vida não é absurda e não me encontro só sobre a terra, reúno-as todas num livro e ofereço-o ao mundo. Este retribui-me com a riqueza, a glória e o silêncio. Mas não sei que fazer com este dinheiro, nem que prazer tirar de contribuir para o progresso da literatura, pois só desejo o que jamais obterei - a certeza de que as minhas palavras tocaram o coração do mundo. É então que me pergunto o que vem a ser o meu talento, e descubro que não passa de uma forma de consolar da solidão.

Stig Dagerman

8 de jul. de 2007

Pela metade


Jorge havia se encantado com uma sala em que se encontravam diversas obras inacabadas, dentro da exposição de um pintor apaixonado pela Bahia. Pensou imediatameante sobre a própria vida e as obras que ficariam pela metade se, assim sem querer, precisasse interrompê-la.

27 de jun. de 2007

A encomenda


Dona Alice e seu filho moravam em cidades diferentes, já há alguns anos. Por motivos que só uma mãe entende, sempre precisava enviar alguma encomenda para o filho. Para tanto, utilizava um sistema bastante comum nas rodoviárias de pequenas cidades. Mas ela sempre escolhia a dedo a passageira que entregaria a encomenda da vez para o rapaz. Atenciosamente descrevia o filho à moça escolhida, falava ao filho sobre a portadora da encomenda e torcia para que o encontro desse certo. Quem sabe um neto.

14 de mai. de 2007

Trivial


Pobre Eva. Há muito perdera a conta dos romances desperdiçados por razões triviais. Cansada de não levar nada pra frente, resolveu fazer de outro jeito. Se a vida não vinha pronta, enfiaria as duas mãos na massa.

3 de mai. de 2007

28 de abr. de 2007

Despedida


Uma noite, quando meu pai passava pelo rio, vislumbrou-a dançando sob o luar. Precipitando-se enganchou seu lenço e assim a trouxe para casa tornando-a sua esposa. E agora ela ia e vinha pela casa o dia todo, procurando o lenço para que pudesse amarrá-lo nos cabelos e partir. Eu costumava acompanhar suas andanças: de como abria armários e baús, de como destampava jarras, de como se ajoelhava para espiar debaixo das camas. E eu tremia. Tremia de medo que encontrasse seu lenço mágico e se tornasse invisível. Este medo durou ainda muitos anos, ferindo profundamente minha alma recém-nascida. Ainda hoje vive em mim, mais indescritível do que antes: é com angústia que observo aquelas pessoas ou idéias pelas quais tenho amor porque sei, sei que estão procurando seus lenços para poderem ir embora.

23 de fev. de 2007

Essencial


Custava a acreditar que Raquel conhecia o mundo todo. Patrocinada pela madrinha, havia passado três anos passeando continentes afora. Assim, de repente, ninguém imaginaria. Ela não vestia a carapuça de moça viajada nem gastava seus muitos destinos em qualquer oportunidade. Preferia não dar nome aos bois. Escolheu transformar os destinos em essência e deixar atrás das entrelinhas o caso do monge tibetano que havia abandonado tudo depois de passar uma noite ao seu lado.

20 de fev. de 2007

Na minha lista (parte cinco)


Oi Ana,

queria saber como foram as coisas por lá, como estão as coisas por aí, o que tem ocupado a sua cabeça e tudo e tal. seria bom receber umas palavras suas. queria cumprir aquela promessa que fizemos, sobre não nos tratarmos como estranhos depois de tudo o que aconteceu. sei que pode ser difícil pra você, pra mim também não é fácil, mas tenho quase certeza de que vale à pena. sumir é sacanagem. as saudades são muitas. de verdade.

um beijo,

Clóvis

9 de fev. de 2007

O que dizer


Ângela Vicário viu o seu próprio pensamento refletido nos espelhos repetidos da sala. No fim daquela semana, sem ter conseguido um minuto de sossego, escreveu-lhe a primeira carta. Foi uma carta convencional na qual contava que o tinha visto sair do hotel e que teria gostado se ele a houvesse visto. Esperou em vão por uma resposta. Ao fim de dois meses, cansada de esperar, mandou-lhe outra carta no mesmo estilo indireto da anterior, cujo único propósito parecia ser condenar sua falta de cortesia. Seis meses depois tinha escrito seis cartas sem resposta, mas se conformou com a confirmação de que ele as estava recebendo.

Escreveu uma carta semanal durante metade da vida.


Gabriel García Marquez

8 de fev. de 2007

Rei e rainha


Clara tinha uma simpatia implacável por doentes rebeldes, ainda mais se já fossem velhos. Enxergava com bons olhos o embate entre a intolerância do corpo e o desejo de viver. Entendia a aflição dos seus pais, mas estava decidida: continuaria emprestando seu carro ao avô, sempre que ele lhe pedisse.

4 de fev. de 2007

Promessa


O amor vinha forte ao perceber que ela era capaz de se interessar por qualquer coisa, por coisas que ele nunca imaginaria. Ele via isso como a garantia de alguma felicidade no futuro, quando as coisas todas, aos seus próprios olhos, provavelmente já haveriam se esgotado. Resolveu casar-se.