28 de mai. de 2004

Devaneios midiáticos


- Eu quase não vejo televisão.
- Você é que tá certo. Eu vejo bastante. Vejo muita novela.
- É mesmo? Você gosta?
- Mais ou menos, mas minha namorada adora...
- Sei.
- Aí eu tenho que ver novela. Por que, se não, a gente vai conversar sobre o quê?

17 de mai. de 2004

Último dia


Outro dia fui numa palestra do Ronaldo Fraga, e lá assisti a um compacto de todos os desfiles dele. Uma de suas coleções era inspirada nas mulheres do Vale do Jequitinhonha. Ele contou que, quando esteve lá, percebeu que aquelas mulheres eram especialmente fascinadas pelo casamento. Depois o Ronaldo descobriu que tais mulheres, de um modo geral, acreditavam que o instante em que se casavam seria o último momento de felicidade em suas vidas.

11 de mai. de 2004

Carência


- Com essa iniciativa pretendemos ajudar mais uma comunidade carente...
- Me desculpe, senhor, mas aqui nós somos pobres.
- Sim, carentes...
- Não. Carentes são vocês que querem comprar camiseta, calça, DVD, carro e não podem. Aqui nós somos pobres.


Ouvi dizer que o consumo cria a carência. Algo como o princípio budista que afirma que o desejo é a razão do sofrimento.

23 de abr. de 2004

Pra virar borboleta (parte um)

Oi Clóvis,

estou fingindo que estou bem, e acho que está dando certo. passei lápis no olho. a Ângela falou que fico bonita. eu estou bem só, e acho que logo nem vou estar tão só assim. tenho tido várias coisas pra fazer e preenchido muito bem o meu tempo. o que me preocupa são as férias de julho, aí não sei mesmo como vou fazer com o meu tempo e a minha solidão. aí sim. fudeu tudo. mas para as férias de verão, eu e a Ângela fazemos planos de ir pro México.

hoje eu e a Ângela vamos tomar uma bebida mais tarde, mas não muito tarde porque temos provas amanhã. as aulas já estão quase todas no fim. me alegro. poder dormir muito me faz feliz sempre. é nos sonhos que vivo minha vida feliz, porque qualquer merda acaba quando acordo. adoro dormir. depois de uma bebedeira então...

agora mesmo eu penso em muita coisa: em não ir à aula amanhã, em dar uma passadinha na biblioteca, em pular pela janela. penso em ser alguém assim: séria e chata e sozinha. em sumir num buraco fundo do mundo. eu queria deixar de existir. eu penso sim, tudo isso é idiota e eu sei, mas já não quero resistir ao impulso de deixar de pulsar para sempre.

eu suspiro fundo e me sobe um nó, acho que hoje ele não vira borboleta, acho que, como ontem, ele vai ser lágrimas. amarga e cinza hoje. amarga, cinza e sem gosto. eu vou perdendo todo o gosto que tenho pelas coisas, por tudo. mas eu ainda gosto do copo de bebida e isso começa a me preocupar. eu queria ter um espaço no colo de alguém que fosse querido. e sou idiota e me sinto assim agora, por isso penso em parar de escrever.

um beijo,
Sônia

ps. me liga depois, e se eu não te ligo é porque só você sabe do seu tempo e das suas coisas.

22 de abr. de 2004

Pra virar borboleta (parte dois)


Oi Clóvis,

você não vai acreditar. acabei ouvindo um monte de desaforos. fiquei triste e chorei escondidinha no banheiro, voltei pra mesa decidida a encher a cara. eu bebi como nunca. foi ótimo. tinha um cara na mesa e eu fiquei falando minhas bobagens com ele e ele achou o máximo. disse que eu era poeta. fui embora pra casa bêbada e feliz. acordei cansada, não fui à aula, tomei um banho de duas horas e chorei bastante.

estou muito curiosa pra saber como foi o final da sua noite de ontem. pois é... fico amargurada pensando nas suas coisas, no jeito que você pode ter ficado. hoje eu não estou nada direta. hoje acho que vou sair pra beber com a Ângela. eu acho que estou ficando um pouco boba. entenda como quiser. mas não mate mais as suas aulas de redação. isso não.

eu já queria te ligar mas acho que não devo. e não sei o que faço. e não sei o que penso. puxa, acho que sua conversa de ontem me deixou com as idéias um pouco embaraçadas. e já tenho elas um pouco frouxas. e penso que talvez você me ligasse, mas você não liga, e não quero fazer disso tudo um drama.

acho que vou começar minha academia também, já não tenho nada a perder. eu queria continuar conversando, mas acho que assim aqui sozinha não tem jeito. bem, se você quiser tomar uma bebida, eu estou disponível todos os dias da semana.

um beijo,
Sônia

21 de abr. de 2004

Pra virar borboleta (parte três)

Oi Clóvis,

ontem eu cheguei da aula e pedi pro meu pai me levar no bar. ele não quis me levar, perguntou "esse negócio de buteco agora é todo dia?". só agora ele percebeu. e não me levou porque disse que é contra tudo isso.

fui a pé, sozinha e puta, quando parou um moço me perguntando ruas. eu disse tudo e pedi uma carona. simpático o rapaz. foi me contando que fazia psicologia e tal. o trânsito estava horrível. meia hora depois ele me deixou no bar, eu pedi desculpas por qualquer loucura, ele riu. foi uma aventurinha simpática.

toda a raiva que o meu pai me fez passou. mas adivinha quem estava no bar? falei um monte de bobagens. ele ficou irritado porque não sabe falar dessas coisas, gritou comigo. fiquei entalada, quis ir embora, chorei meia lágrima. ruim.

fiquei triste e quis ficar bêbada pra esquecer. foi o que aconteceu, e eu fiquei me achando um pouco idiota. foi uma bebedeira sem fim, até cachaça eu tomei. fui embora de táxi com a Ângela, dormi bem e hoje no primeiro horário não tive aula. voltei para casa, dormi mais e voltei. aqui estou eu, só e simplesmente. feliz.

um beijo,
Sônia

20 de abr. de 2004

Pra virar borboleta (parte quatro)


Clóvis, Clóvis...

eu queria poder esquecer tudo isso de uma vez, não consigo. não o procuro mais, ele não me procura. eu queria devolver todas as lembranças que estão comigo.

eu queria ter um amigo bom, sabe? pra ir além do que eu já sei. mas acho mesmo que não estou boa, nem pra ser boa amiga. tempos difíceis? estou lotada de coisas pra fazer, eu não quero, não tenho a menor inspiração. hoje fiz uma provinha mais ou menos, recebi outras com notinhas mais ou menos, achei ruim.

eu acho que estou quase me arrastando, odeio isso. e toda a verdade é que tudo isso pode mudar fácil assim, num estalar, mas ainda não sei. ainda não achei nada que me fizesse ver de outra forma. eu já nem quero mais ver nada - e se pudesse dormir todas as minhas horas...

nem o horóscopo me dá mais esperanças. eu nem queria ficar te falando essas bobagens, não leve em consideração. acho até que caberia alguma desculpa por aqui.

estou louca para receber todo o meu dinheirinho semana que vem, e vou me drogar e morrer de rir. se eu fosse pra bem longe ia ser bom. ou não.

um beijo,
Sônia

19 de abr. de 2004

Pra virar borboleta (parte cinco)


Oi Clóvis,

que bom que você gostou das palavras, eu estava inspiradinha sim. gostei das suas também, acho sempre que tudo pode ser muito mais simples do que nos parece. achei divertido que você achou de tudo sobre essa situação, e estaria mentindo se te dissesse que não pensei de tudo também.

ontem eu fui lá na casa e vi como nunca que foi o fim de tudo. fiquei que era um lixo, ainda estou um pouco péssima, hoje acho que vou tomar vodka. eu estava voltando de lá quando te encontrei. pena que não pudemos conversar. que saco. mas ia ser um pouco saco pra você também, eu estava chorosa que só, e ainda estou se penso em tudo. aquela sensação de nó na garganta...

estou louca, vou fumar um cigarro.

um beijo,
Sônia

18 de abr. de 2004

Pra virar borboleta (parte seis)


Oi Clóvis,

acabei passando o feriado bem quietinha, com um pouco de saudade, mas é isso mesmo. um pouco só, com meus pais no sítio da vovó, uns programinhas um pouco meus mesmo, por aí. foi bom porque preferi assim, acho que estou um pouco mais lúcida pra pensar, pra saber de mim e das minhas coisas.

no sítio, pensei e resolvi ser só. resolvi aceitar isso, né? que não dependo de nada, de ninguém pra ser o que sou, assim, eu mesma. eu estou mais tranqüila. menos ansiosa. um pouco mais livre do que eu imaginava.

ontem eu aluguei Frida e achei o máximo. foi sem dúvida o melhor filme que vi esse ano. hoje acho que vou alugar Thelma e Louise. e tal. bem, fiquei agora um tanto sem assunto e um tanto desconfortável, e é fato que fico por aqui.

um beijo,
Sônia

17 de abr. de 2004

Pra virar borboleta (parte final)


Oi Clóvis,

te escrevo hoje em resposta ao seu poema, que gostei. e se pensei em te analisar através dele, desisti. mas gosto muito das meias palavras, da palavra sã. gosto porque se subentende algo, gosto porque não sou muito direta. e por falar em não ser direta, não vou falar nada sobre aquilo. nem vou perguntar nada.

te confesso que ainda tenho medo, porque não sei como seria se me procurasse, eu não sei se ia achar bom ou ruim. e isso eu sei que não é bom. mas é isso.

achei bonito você dizer que vai ter que ver Frida com um outro alguém. mas não deixe de ver nunca, acho que você vai gostar até chorar.

e no mais, ando tranqüila pelas curvas de minha vida. fumo um cigarrinho e me deparo com tudo de grande que encontro em mim, me conheço. acho mesmo é que vou começar a viver minha vida, essa semana acho que nem bebo. é aquela coisa de finalmente enfrentar tudo o que ainda está por vir.

sábado é o aniversário da Ângela, e com certeza vai estar muito bom. todos os aniversários da Ângela foram bons. te espero lá. você sabe onde.

um beijo,
Sônia

5 de abr. de 2004

Porque é tu mesmo


Meu Deus combate sem nenhuma certeza. Vencerá? Será vencido? Não existe nada certo no Universo; ele se lança ao incerto e joga a cada instante todo o seu destino. Apega-se aos corpos quentes; não tem outra defesa. Pede socorro; proclama a mobilização por todo o Universo. É dever nosso, ao ouvir-lhe o grito, correr ao encontro de seus estandartes para combater ao seu lado. Para nos salvarmos ou nos perdermos com ele. Deus corre perigo. Não é onipotente para que possamos cruzar os braços à espera da vitória; não é todo bondade para que possamos confiantemente esperar que se compadeça de nós e nos salve.

23 de mar. de 2004

Pra cá

segunda feira, 2:13 AM

- Alô.
(Elena não diz nada)
- Alô.
(Elena sorri e não diz nada)
- Fala, Elena.
- Oi. Desculpe. É que eu achei que você não fosse atender.
- Como assim?
- Ah. Já é tarde... É segunda feira... Achei que você estivesse dormindo.
- Então você me ligou, mas não queria que eu atendesse?
- Ah. Não sei. Eu queria que você acordasse amanhã e visse que eu tinha te ligado. Só isso.

(Elena sabia que não precisava dizer mais nada. Ele já havia entendido.)

11 de mar. de 2004

Envenenados


Há muito tempo não conversávamos desse jeito. É certo que nunca fomos grandes amigos, mas antes mesmo desse dia já havíamos tido conversas inesquecíveis. E vivido momentos inesquecíveis. Descobertas, aventuras, vexames. Um dia passado ao lado do outro era sempre memorável. Mas sendo a vida irônica como é, acabamos sendo separados. Por meses. É inegável que aqueles foram bons meses para ambos. Inegável também é que aquela distância tornava cada raro encontro ainda mais prazeroso. Algumas palavras trocadas e já ficávamos satisfeitos. Então, nesse dia, depois de meses, o acaso nos uniu. De uma situação banal ressurgiu ainda mais plena aquela antiga relação, quando sobre nós já não atuavam mais as antigas distrações. A bebida, as afinidades, os desejos. Horas se passaram. Diversas histórias foram narradas. Era tarde e seria natural que nos despedíssemos. Olhamo-nos um ao outro.

Estávamos ambos fatigados, mas não queríamos perder o veneno desse dia. O sono aparecia-nos como uma fuga à hora do perigo, e tínhamos vergonha de ir para a cama.


9 de mar. de 2004

Eis nossa obra


Observá-lo era muito fácil: quanto mais alto, mais exposto. Durante anos, todos os seus esforços eram rumo ao alto, todos os seus artifícios. E eram muitos os artifícios e se estendiam a todos. Não havia limite algum. Princípio algum. O fim era bem claro, o tempo todo.

Ele flutuava porque já não havia onde pisar. E muito menos onde se agarrar. Aliás, as suas mãos estavam sempre ocupadas, assim como os seus olhos e a sua mente. Estavam todos a serviço. Em busca de um lugar onde pudesse ser mais visto, ainda que com menos nitidez. Fazendo o que fosse preciso para cativar os outros:

apaixonar-se sempre
amar sempre, a todos
ser bom e generoso, sempre
simpático também
cativante, afinal

Ele parecia descer, mas essencialmente continuava no alto, entre nobrezas, amores, genialidades, honras, realizações. Tudo muito cheio de pompa, de valor. Todos os seus gestos soavam como favores. Tudo descia dele com muito mais força, trazia consigo o peso da gravidade. Isso tornava-o insuportável.

Ao descer, várias vezes apoiou-se em meus ombros. Até o dia em que a minha cabeça não estava lá, nem as minhas pequenas verdades instantâneas.

Ele acaba de cair no chão. Mesmo no chão ele flutua, não é capaz de misturar-se. Está imóvel. Não há, há muito tempo, ninguém perto dele, ninguém que obstrua a minha visão. Assim, continua muito fácil observá-lo: nenhum vestígio de paz por perto.

28 de fev. de 2004

4.1.Justificativa


É curioso pensar em todos os seres humanos que passam a vida inteira sem fazer nenhum comentário, nenhuma objeção, nenhuma observação. Não que tais comentários e observações tenham um destinatário ou um sentido qualquer; mas (...) mesmo assim acho preferível que sejam feitos.

Michel Houellebecq

23 de fev. de 2004

Duas medidas


Se houverem dois pesos, haverão sempre duas medidas.

Nesse provérbio eu boto fé.

Que medo e que liberdade. Sobretudo, que imprevisibilidade das coisas, completamente entregues ao acaso.

18 de fev. de 2004

Devaneios dominicais


Dizem que as baratas só possuem três segundos de memória. Se você dá um peteleco numa barata, ela corre, mas logo pára, porque esquece o motivo da afobação.

16 de fev. de 2004

Infeliz compromisso


Havia nela algo como a obrigação de atestar aos outros que havia optado pelo melhor caminho. A atestação que dava-se aos outros, pois ninguém pode enganar a si mesmo. Algo como a renovação da sua auto estima e da sua imagem pública.

- Apenas indo ao baile eu encontrei diversão suficente para a noite de ontem. Eu não precisava de mais nada. Recolher-me aos meus aposentos era mesmo o melhor a se fazer.
- Guarde isso para si, amável donzela. Aos colegas da corte, esse comentário de nada vale. E se, para mim, o insosso baile não trouxe diversão, ah, isso é apenas do meu interesse.
- Desculpe-me, mas eu não o ouvi.
- Desculpe-me também, mas não vou repetir. A propósito, a senhorita sabe que o dia de ontem foi severo para mim. O que, então, a senhorita gostaria de dizer-me, ao expor que se divertiu no baile?

Algo como a renovação da sua auto estima e da sua imagem pública. Estavam, ainda, intimamente relacionadas, afinal.

12 de fev. de 2004

Aleatório


Uma noite qualquer, conversando com um amigo, música alta no fundo.

- Só que ele é muito complicado de se relacionar.
- Quem?
- De se relacionar.
- Ah. Você é muito complicado, eu sei.
- Como assim? Você sabe o quê?
- Ah, você é muito instável, né...


Tudo seria diferente se sempre conversássemos com música alta no fundo. Assim, conversando por meio de palavras ainda mais embaçadas e ambíguas, sempre escutaríamos (por pura escolha) algo mais parecido com o que queríamos escutar. E, diante disso, seríamos mais livres para dizer o que queríamos dizer, ainda que essas palavras soassem completamente fora de contexto.

10 de fev. de 2004

Eternamente


A nossa essência é a luta. Nessa luta, desenvolvem-se e atuam perenemente a dor, a alegria e a esperança. A ascensão, o combate com a corrente antagônica, gera a dor. Mas esta não é um monarca absoluto. Cada passageiro equilíbrio no curso da ascensão enche de alegria todo ser vivo. Mas de dentro da alegria e da dor salta perenemente a esperança de libertar-nos da dor, de expandirmos a alegria. E recomeça a ascensão - a dor - e renasce a alegria e salta uma nova esperança. O círculo jamais se fecha. Não é um círculo; é um redemoinho que está eternamente subindo, alargando-se, girando, desenvolvendo a grande luta.

No meio do redemoinho vamos nós. E ainda que, naufragados na alegria, estejamos momentaneamente livres da dor, a esperança aparece como força maior. Ela leva-nos a abandonar a alegria antiga e dá-nos força para superar qualquer dor. Tudo isso para que nos lancemos ao próximo instante, sempre desconhecido.

A esperança embaça-se, então, a apenas cinco centímetros dos meus olhos. E quando afasto-a do meu rosto, para assim poder vê-la melhor, ela me aparece com outra face. Desaparece, nesse instante, o seu caráter sagrado e inocente. E desprovida da consolidada embalagem, assemelha-se muito à ambição.

Eternamente subindo, alargando-se, girando...

Eternamente.