21 de ago de 2006

Culturas



Fala-se em cultura como se, só pelo seu nome, ela, em si, já fosse positiva. É preciso atentar para o fato de que a cultura se constitui num campo de disputas, de valores conflitantes.

Vera Pallamin

17 de ago de 2006

Nas suas gavetas


Revirava as gavetas do armário numa busca que enchia o quarto de papéis, retratos e pedaços de coisas que não sabia para que guardava. Um pedaço de fio, um pedaço de foto e um pedaço daquele dia em que descobriu que a vida sempre continua. Encontrou uma carta e pôs de lado, junto com aquela reportagem sobre um amor do passado que havia saído no jornal. Revirava a gaveta como se mais nada existisse além dela. Embaixo de alguns bilhetes, encontrou as cartas daquele jogo. Tentou jogar o jogo, na esperança de conseguir parar de revirar as gavetas e de encher o quarto de papéis, retratos e meias sem par. Mas o antigo jogo não tinha mais graça, insistiria nesse novo: redescobrir-se nas suas gavetas.

16 de ago de 2006

O corpo maior


Finalmente descobriu o que são, para ele, as boas e as más companhias. Isso foi depois de perceber que são as almas que se acompanham, e não os corpos. Concluiu que as almas querem crescer, querem misturar-se às outras e quem sabe terminar em algum tipo de fusão. Antes de tudo, portanto, é importante que a alma cresça. E isso se dá pela transformação de matéria em espírito. É nesse momento que o outro tem importância decisiva: é fundamental aprender a dar o devido supervalor às coisas que nos aparecem, assim como àquelas que nos acontecem. É preciso aprender a retirar das coisas aquilo que delas faz crescer nossa alma. Melhor se duas almas crescem ao mesmo tempo, diante da mesma coisa. É depois de muito crescer que duas almas podem se misturar. É só depois que as almas se misturam. E se engana quem pensa que isso tudo leva muito mais do que dois ou três minutos.

3 de ago de 2006

Vida e formas


Há muito tempo queria conversar com ela, mas lhe parecia impossível. Não sabia como se aproximar, como colocar em palavras algo tão delicado. No fim das contas, foi lá e fez. Descobriu que a incapacidade de verbalizar conduz ao ato. E torceu pra que nunca mais precisasse abrir a boca.