31 de out de 2007

Os dias seguintes


Elisabeth estava pronta para seu primeiro dia de trabalho. Depois de muito custo, conseguiu uma vaga na linha 127. Chegou ao ponto final com dez minutos de antecedência e ficou esperando ser chamada. Passou o dia conversando com o motorista do ônibus, mesmo que em alguns momentos fosse preciso aumentar a voz. O fim do expediente veio tranqüilo e os dois se despediram, torcendo pra que o encanto resistisse aos dias seguintes.

30 de out de 2007

Coragem


Moisés trabalhava nos Correios há mais de dois anos e de vez em quando acontecia alguma coisa que compensava as horas desperdiçadas atrás do balcão. Naquela terça perderia o ônibus das seis e meia, procurando no catálogo os dados da Cadeia Municipal de João Pessoa. Havia recebido, das mãos de uma moça sem forças para conter as lágrimas, um envelope sem o endereço completo do destinatário. Não teve coragem de recusar.

29 de out de 2007

Vida nova


Rebeca sabia que aquilo era uma coisa detestável, mas havia decidido dar fim à própria vida ainda naquela semana. Começou então a escrever a lista das pessoas que impreterivelmente precisaria rever antes de deixar esse mundo. Quando a lista virou a página, percebeu que a vida ainda poderia lhe guardar algumas surpresas. Não pensou duas vezes antes de arrumar as malas e ir atrás do que lhe pertencia.

25 de out de 2007

Mais perto



A minha relação com Caetano é muito próxima. Mas nós somos muito tímidos, um diante do outro.

Gal Costa

24 de out de 2007

Sob controle


Marília havia se mudado para uma pequena cidade num outro estado, tudo isso por causa de um salário melhor. Estava lá há quase dois meses e até então não havia descoberto um grande amigo sequer. Sua rotina resumia-se ao trajeto entre casa e trabalho, trabalho e casa e vice-versa. Um dia tomou um pouco de coragem, uma dose de whisky e um táxi para um forró que acontecia toda sexta no centro da cidade. Dentro do táxi, suspirou ao descobrir que ainda tinha as rédeas da vida nas mãos.

23 de out de 2007

A mais forte


Virgínia nasceu antes que sua mãe completasse seis meses de gestação. Passou um tempo no CTI mas hoje trabalha como garçonete num bar muito bem freqüentado. Talvez por ter nascido prematura, só consegue carregar uma cerveja cheia de cada vez. Às vezes tenta carregar duas garrafas, mas acaba precisando apoia-las em outra mesa durante o trajeto. De vez em quando cai inteira no chão, com garrafa e tudo. Mesmo assim é a preferida de vários clientes.

22 de out de 2007

Sem dúvida


Débora dava plantão quase todo sábado. Ficava à espera de alguma emergência e às vezes precisava sair sozinha com o motorista da ambulância. Sempre que isso acontecia, cabia a ela e a mais ninguém verificar se a vítima estava viva ou não. Por insegurança ou esperança, sempre ligava os aparelhos todos e tomava o rumo do hospital. Chegando lá, a turma brincava: Outro presunto?. Mas ela não conseguia fazer diferente.

19 de out de 2007

Fazendo hora



Fico fazendo hora para o tempo passar, para poder subir no palco outra vez.

Maria Bethânia

18 de out de 2007

Invisível


Ítalo juntou suas últimas moedas e mandou imprimir vinte cartazes. Em cada cartaz, uma foto do cachorro desaparecido e o anúncio de uma recompensa que ele ainda não sabia como pagar. Passou uma tarde inteira pensando sobre os melhores postes e às sete da noite os cartazes já se espalhavam pelo bairro. No dia seguinte apareceu um rapaz à sua porta, trazendo um cachorro e dispensando a recompensa. Ítalo sabia que o cachorro era outro, mas não conseguiu recusar a oferta.

17 de out de 2007

Outra vez


Clarice morreu pela primeira vez aos oito anos e pensou que fosse para sempre. Morreu novamente alguns anos depois, ao terminar de escrever seu primeiro livro e achar que nunca mais conseguiria escrever outro. Quando pensou que já estava livre, separou-se do marido e viu a morte outra vez. Morreu tantas vezes, com velório, enterro e tudo, que já não entendia como ainda estava viva. Mas que estava, estava.

15 de out de 2007

Sabedoria


Isabela passava todos os domingos com o pai. Depois de sair em disparada pela porta, os dois almoçavam juntos e gastavam a tarde sentados na varanda de casa. Enquanto ela brincava no chão, ele falava sobre as coisas do mundo. Países, sentimentos, parentes distantes: falava sobre tudo isso com muito gosto. Isabela parecia não prestar atenção, mas quando voltava para casa anotava tudo num caderno comprado em segredo, especialmente para as coisas que aprendia com o pai.

12 de out de 2007

Por quê?



Quando faltam uns 15 minutos para o início de cada espetáculo, eu começo: Por que escolhi essa profissão?

Marília Pêra

10 de out de 2007

Cinco minutos


Cristina lembrava-se com saudades do seu primeiro dia de trabalho. Naquela segunda-feira distante, olhava o email de cinco em cinco minutos, ansiosa para que ali aparecesse uma nova missão. De uns meses pra cá, cada intervalo de cinco minutos anunciava o momento de verificar se ainda não havia chegado a hora de juntar suas coisas e encerrar o expediente. Resolveu procurar outro emprego antes que o que já era pouco se acabasse de vez.

9 de out de 2007

Quanto parece


Sandra é aquela moça que fica na porta da loja de perfumes, com a função de distribuir tirinhas de papel perfumado aos freqüentadores do shopping. O trabalho em si não a incomoda mais do que notar as pessoas que fingem que não a enxergam e depois se culpam por isso. Ela gostaria de dizer a essas pessoas que não leva tão a sério o desinteresse generalizado pelos papeizinhos perfumados. Ela está ali, mas é de olho em um novo emprego.

8 de out de 2007

Pela frente


Fernanda estava naquele emprego há pouco tempo, mas já havia entendido o que tinha pela frente. Por mais que se esforçasse, precisava desistir de ganhar elogios e aprender a enfrentar a decepção dos clientes diante daqueles pacotinhos de fotos três por quatro. Mas ela não desistia.

5 de out de 2007

O exercício do esquecimento



Às vezes, acordo e penso que ele está do meu lado. Esqueço que ele se foi. Quando toca o telefone, penso que é ele.

Eva Wilma

4 de out de 2007

Motivo de orgulho



Antes de ir embora, um dos assaltantes falou: Você faz um favor pra mim: dá um autógrafo pra minha mãe? Há muito tempo ela não tem motivo pra se orgulhar de mim.

Letícia Sabatella

3 de out de 2007

Três amigas


Érica morava no mesmo prédio há mais de dez anos. Numa noite de quinta, discutiu com o marido e viu-o sair de mala e cuia pela porta da sala. Sentiu-se tão sozinha que aceitou o convite da vizinha de porta: foi parar na reunião de condomínio. Acabou conhecendo outra vizinha, moradora da cobertura e esposa de um marido que viajava de segunda a sexta. Finito o evento, foram as três para o apartamento de Érica. Acordaram as três, no sofá, às sete da manhã.

2 de out de 2007

Invenção


Alice reparou que seu marido estava quieto demais naquela manhã de domingo. Em três anos de casamento, ela havia aprendido o que entender desse silêncio todo. Não pensou duas vezes: inventou um sonho bem engraçado em que o marido era seu aliado numa batalha impensável. E foram necessários menos de trinta segundos de sonho narrado para que ele estivesse de sorriso aberto, pronto para começar um outro domingo.

1 de out de 2007

Segredo


Camila tinha onze anos e era a primeira vez que seus pais permitiam que ela nadasse sozinha, na parte funda do mar. Lá onde não dava mais pé, veio uma onda forte que a deixou mais de um minuto rodando embaixo d'água. Pensou Calma!, relaxou e saiu - sem contar para ninguém.