14 de nov de 2005

Na minha lista (parte quatro)


Oi Davi,

escrevo pra dizer que achei muito bom te reencontrar, ainda que em tais circunstâncias. não sei se isso é claro pra você, mas eu te admiro pra caramba. você é uma das pessoas mais generosas e cristalinas que eu conheço, o que pra mim são valores maiores. acho que essas coisas tristes que acontecem devem servir pra sacudir a gente, pra mostrar aos nossos olhos coisas das quais eles estavam distraídos.

hoje quando você me ligou mais cedo e começou a falar da Regina, pensei que fosse me chamar pra ir visitá-la no hospital ou coisa parecida. fiquei muito surpreso ao ouvir que a notícia era outra. daí passei o dia pensando naquela época do colégio, pensando que ainda queria aprender muita coisa com você. aprender um pouco do jeito que você leva a vida, que me parece ser um jeito muito bom.

eu sei que as coisas não acontecem assim, tão rápido. mas queria que a gente se reaproximasse e acredito nessa carta como um primeiro passo rumo a alguma coisa que pode nos fazer muito bem.

um abraço,

Clóvis

29 de out de 2005

Clóvis etc.


Elena não precisa dizer nada. Sônia, trôpega e feliz, caminha por uma rua iluminada. Flora sabe que não será esquecida. Brigitte assume a própria sorte. Donato não sabe o que sentir. Rita acaba de ganhar um abraço. Cássia lembra-se de Clóvis sempre que vai à praia. Lúcia anda em busca de um novo amor. Pedro é qualquer um.

20 de out de 2005

Bom dia


Era uma longa história. Longa porque espalhada no tempo, afinal seria possível contá-la em dois ou três capítulos. Até que os dois se encontraram e a história passou a acelerar-se. Vários capítulos por dia, num ritmo frenético de cenas. Mesmo assim, os dois esforçavam-se (será que havia mesmo algum esforço?) rumo à naturalidade das cenas. Eram cenas singulares e prazerosas, isso era inegável. Numa das cenas mais bonitas, um dos dois acordava mais cedo e saía pra comprar pão. Na volta, trazia uma escova de dentes de presente - e escovar os dentes nunca mais foi a mesma coisa. E se era uma cena bonita de contar, o que dizer do prazer de interpretá-la.

10 de out de 2005

Ritmia


- eu tô feliz.
- oh.
- eu acho.
- nossa, esse "eu acho" avacalhou.
- mas eu disse porque a felicidade é uma coisa meio incerta, meio difícil de se aproximar com tanta propriedade.
- ah tá.
(um momento de silêncio)
- mas sabe o que que eu acho?
- hum.
- que a felicidade vem quando a gente sente que tá fazendo a coisa certa. quando a gente acha que está no caminho adequado e que não há lugar melhor do que aquele que se ocupa, naquele momento.

4 de out de 2005

Atropelados


- é que a minha cabeça está a mil, e às vezes parece que a gente está atropelando as coisas.
- eu sei. as coisas acabaram indo muito rápido.
- também acho.
- e eu falei que ia esperar seu tempo, suas coisas... mas é que eu não dei conta.
- é. mas eu também não dei conta. atropelei.
- de que vale economizar alma ou cercar um coração vazio?

3 de out de 2005

Presente de grego


- você é ótimo.
(um momento de silêncio)
- posso te falar uma coisa que é um pouco brega mas é verdade?
- pode sim.
- eu só sou ótimo porque eu te encontrei. você me faz muito bem, me faz querer ser ótimo. esse jeito aqui é só com você. eu também gosto muito dessa pessoa, na qual a sua presença me transforma.

29 de set de 2005

Na minha lista (parte três)


Oi Rita,

sabe aqueles dias de nostalgia, de pensar muito nas coisas que se foram e ainda mais naquelas que não se foram direito? sabe aqueles dias em que o sono custa a chegar? pois é. você sabe que sempre que entro numa dessas, pego minha caixa de coisas queridas e começo a mexer. numa tentativa de me aproximar desse desconhecido território da memória.

no meio das coisas queridas estava a sua carta. aquela carta que você escreveu na minha frente, por não conseguir dizer o que queria com palavras faladas. durante esse tempo todo evitei abrir e reler essa carta, talvez por nunca ter sabido o que pensar sobre ela. talvez por birra, vai saber. mas hoje resolvi lê-la.

quando penso na gente lembro imediatamente daquela briga horrível no carro, quando eu acabei te deixando plantada no meio da estrada. lembro também da sua covardia, daquela mentirada toda. por outro lado, consigo enxergar alguns momentos da mais profunda entrega entre nós dois. consigo sim. mas enfim. tô escrevendo porque queria dar um fim mais bonito pra nossa história.

ainda não sei sé é hora da gente sentar e conversar, nem sequer se isso faria algum sentido. mesmo assim queria saber o que se passa sobre mim aí na sua cabeça, porque eu não faço a menor idéia. acho muito estranho eu fingir que não te conheço, você fingir que não me conhece e pronto. queria saber se essa é mesmo a melhor solução. acho que trocar umas cartas a respeito não vai nos fazer mal. não consigo tirar da cabeça que o que a gente viveu foi bonito.

um beijo,

Clóvis

20 de jul de 2005

Oblíquo



- Desculpe-me pelo sumiço. É que eu não tô bom e não sou capaz de compartilhar isso. Não saberia como me comportar, preferi me esconder.

A amizade é um bom lugar pra fragilidade. Outro bom lugar pra ela é o amor. As fragilidades são muitas, são geralmente ocultas ou ocultadas. É preciso coragem para oferecê-las a alguém. E se a covardia destaca-se entre as fragilidades dele, parece entrar num caminho sem volta. Um caminho de fragilidades solitárias, de aproximações impossíveis. A aparente impossibilidade de oferecer-se, por covardia ou pela iminência do fracasso, é o que imobiliza-o e afasta-o das coisas encantadoras do mundo. Coisas cada vez menores, pelo ângulo cada vez mais oblíquo sob o qual ele é capaz de vê-las (e atrás do qual é levado a esconder-se).

12 de jul de 2005

2 am


- Você ainda balança?
- Balanço e quase caio.
- Nossa, fiz uma cara aqui que nenhum emoticon consegue representar. Inúteis.
- Cara de quê?
- Ah. Acho que nenhuma palavra consegue representar também. Inúteis.
- E agora?
- Ah, eu gosto de você viu. Meio sem jeito mas gosto.
- Por que meio sem jeito?
- Ah, porque eu nao sei contextualizar, demonstrar. Sei lá.
- Mas eu gosto, por mais que sem jeito também, de você. E gosto de você gostar de mim.
- Que bom isso, assim a essa hora, assim sem porquê. Assim que é bom gostar.
- Oh... quase um post.
- É verdade.

31 de mai de 2005

Insone


O tempo deixou de agir nele, tornou-se vácuo. É sem, é vazio de tudo. De sentido e de forma. Tão vazio de vida que à noite nem morre. Seus olhos não se fecham, seu corpo não descansa. É obra inacabada, parada por falta de verba ou descaso. Não há sono, há saudade.

30 de mai de 2005

Insone II


Havia descoberto um impulso. Um verdadeiro fascínio por aqueles que acreditavam, pelos que movimentavam-se com desenvoltura na arena que até então lhe parecera tão árida. Queria inserir-se numa vida convicta qualquer. Numa vida convicta. Procurava agitar-se até viver uma nova história que pudesse contar; até constituir um mundo particular que pudesse compartilhar. Seriam mais muitas noites em claro, agora a pensar nesse projeto. Dessa vez, noites (instantaneamente) felizes, sobretudo pela esperança que nelas surgia.

29 de mai de 2005

Insone III


Notava, enquanto acostumava-se com o hábito de não dormir, que a cada noite passada em claro mais as coisas do mundo se esclareciam. Ao não dormir, a energia não se perdia com o fechar dos olhos e o repousar do corpo. As vontades permaneciam insatisfeitas, em busca de realização. Os aprendizados, assim como as boas experiências, deixavam de dispersar-se, de encaminhar-se para o desconhecido território da memória. O presente acentuava-se, as idéias encadeavam-se e, ao mesmo tempo, tornavam-se singulares pela abolição da rotina. Os fatos deixavam de aprisionar-se em dias, passavam a dar-se em seu tempo devido, em seu espaço adequado.

28 de mai de 2005

Insone IV


Havia encontrado um amor. Depois de inúmeras noites em claro, nas quais privava-se de todas as experiências que a ele se ofereciam, libertou-se. A liberdade de vínculos que até então defendia representava a ausência de escolhas, o posicionamento no lugar nenhum. Por ter se livrado de tudo, acabou aprisionado em si mesmo. Mas agora amava.

25 de mai de 2005

Onde?


Em 17 de janeiro de 1906, aos quatorze anos de idade, Mariquinha casou-se com seu primo Soquinho. Teve seu primeiro filho aos quinze anos e, aos quarenta e quatro, o décimo-sexto. Mariquinha faleceu em 1983, aos noventa e dois anos de idade. Antes disso, escreveu alguns versos.

Gente, cadê a gente dessa casa?
Gente que os meus olhos viam.
Hoje não vejo mais.
Gente que comigo dormia,
gente que comigo comia,
gente que comigo vivia.
Me fala gente!
Onde está a gente dessa casa?


23 de mai de 2005

Em repouso


O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há de sê-lo a vida humana? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz, mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver?

Stig Dagerman

11 de abr de 2005

Flora



Uma criatura muito feliz. A melhor companheira de que consigo me lembrar. Foram várias as vezes em que, no meio da noite, vinha dormir na minha cama. Chegava devagar e deitava num cantinho sem fazer nenhum barulho. De manhã, antes que eu acordasse, saía do meu quarto e voltava para o seu lugar. Também foram muitas as noites que ela passou na cozinha, sentada numa cadeira, olhando a rua através da janela menor. Quando alguém esquecia a porta destrancada, ela descia as escadas e ia ver a rua mais de perto. Permanecia entre as plantas do pequeno jardim que havia na frente do prédio até que o sol nascesse.

Ela gostava de ver as pequenas estrelas que se acendiam e se apagavam na rua.

De manhã, era sempre a primeira a aparecer na sala. Recostada num cantinho do sofá, recebia com um olhar macio todos os que cruzavam a porta do corredor. Eu sempre a cumprimentava com um carinho, assim como meu irmão. As outras pessoas costumavam não nota-la. Ela parecia não se importar com isso, ao menos nunca reclamava nem alterava sua expressão, tão calma e pacífica. Ninguém a levava a sério, ninguém prestava muita atenção nela. Às vezes ela passava o dia inteiro andando pela casa, passando por todos os cômodos, olhando para cada pessoa até ganhar um sorriso ou uma palavra. Gostava de retribuí-los, quando era o caso.

Entre noites em claro, dores desumanas e alegrias instantâneas foi que a ela se apagou. Desde então meu irmão e eu passamos algumas noites em claro, do jeito que ela gostava que as noites fossem. Num dia desses, no meio de uma noite dessas, papai veio nos chamar para conhecer a sua nova esposa.

Uma moça simpática, um pouco mais nova e mais agitada que a mamãe.

24 de mar de 2005

Especulando


Os pobres cada vez mais pobres; os ricos cada vez mais ricos e mais isolados (mas nunca o suficiente). E a riqueza anda tão afastada da produção. Seu terreno contemporâneo é a especulação.

1 de mar de 2005

Working class


O tédio pode ser dividido em dois tipos: o da indiferença e o da insatisfação permanente. Qualquer afirmação de vazio existencial traz consigo uma pretensão absurda, uma covardia disfarçada. Qual seria o mal contido nos fúteis propósitos, responsável pela rejeição dos mesmos? Chego a dizer que os grandes dramas da existência acontecem nos subúrbios, na working class.

4 de fev de 2005

Instantânea


Eu pensei que fosse o início da felicidade. Mas era a própria felicidade, naquele exato momento. Desde então percebi que é só nesse estado que a felicidade existe, sem anúncio, sem despedida.