24 de dez de 2007

Trajetória


Encontrei-o saindo da adolescência, naquela época em que cada descoberta parece abalar o chão e reconfigurar todo o porvir. Suas palavras costumavam vir soltas e ter endereço certo, ainda que muitas vezes dessem com a cara na porta. É impossível negar que em alguns momentos perdeu o rumo, mas de um jeito ou de outro sempre manteve-se de pé. Hoje as palavras são mais leves, geralmente breves e quase sempre têm planos maiores. O rumo ainda é incerto, mas os passos são firmes e conscientes da importância que têm.

13 de dez de 2007

Pra sempre


Quando você fica adulto, é pra sempre. A menos que você fique bilionário. Aí você pode bater o pezinho, reclamar e dar piti que tem sempre alguém apavorado pra cuidar de ti.

Rosana Hermann

12 de dez de 2007

Tradição


Cristiano estava entusiasmado para ser pajem do casamento da prima, mas uma semana antes da cerimônia foi picado por um marimbondo. Como era muito alérgico, ficou vermelho, empolado e um pouco inchado. A prima ficou sem graça de voltar atrás e, com ajuda da mãe do menino, encontrou uma solução para o caso. Cristiano foi o primeiro pajem-ninja de que a cidade teve notícia.

11 de dez de 2007

Esconderijo


Bianca trabalhava na recepção há meses, mas nunca havia trocado uma palavra com qualquer um dos oitocentos funcionários da empresa. Era tão timída que, para driblar o quadro de aniversariantes e livrar-se dos parabéns de clientes e colegas de trabalho, passava o aniversário inteiro de crachá trocado com a outra recepcionista.

10 de dez de 2007

Exercício de terminologia


Fetichismo: preocupação direta com aparências superficiais que ocultam significados subjacentes.

David Harvey

6 de dez de 2007

Aparece



O atleta ganha sua medalha, a gente chora, ele vai pra casa e o vazio aparece. A vida aparece.

Caco Ciocler

5 de dez de 2007

Eterno retorno


Raquel estudava para os tais concursos públicos de segunda a sábado, o dia todo e às vezes de madrugada. Tudo o que queria na vida era poder largar o emprego no escritório e, quem sabe um dia, largar o ponto de ônibus. Por causa de tanto querer, o dia anterior à prova era sempre uma aflição; uma vez foi parar no hospital devido a uma crise nervosa. Mas assim que recebia a prova se acalmava. Ficava olhando através da janela durante cerca de meia hora, pensando na vida. Uma vez pediu para ir ao banheiro e, chegando lá, encontrou um frasco de creme hidratante sobre a bancada. Não teve dúvidas, passou nos braços e nas pernas, até onde as mãos alcançavam. Foi novamente reprovada no concurso.

4 de dez de 2007

Vale a pena


Priscila detestava lavar louça e por conta disso havia criado alguns hábitos bem peculiares. Agora a faca que usava para passar manteiga no pão era a mesma que cortava o bife no almoço e fatiava a torta de chocolate, sua sobremesa preferida. A colher do iogurte acabava servindo para os dias de sopa e para tomar sorvete, quando a torta de chocolate chegava ao fim. O mesmo copo servia para água, suco e para a cerveja dos fins de semana. Tudo isso sem lavar nada: deixava os objetos sobre a bancada e pronto, estava pronto. De vez em quando pensava se valia a pena esquecer o gosto de cada coisa pra economizar alguns minutos diante da pia. Pode parecer estranho, mas achava que valia.

28 de nov de 2007

Ausência


"Não", eu disse, "não sinto saudades suas". Ela falou algo que não consegui ouvir. "Fala mais alto", gritei. A ligação estava péssima, talvez fosse a chuva, quem sabe apenas a porcaria do telefone sem fio, mas eu mal conseguia ouvir a sua voz. "Como é que você não sente saudades de mim", ela gritou, "há dois dias você disse que me amava e agora vem com esta história de que não sente saudades de mim". Respirei fundo. Olhei para a cozinha. Sobre a pia havia um prato com um croissant pela metade. Segurei o telefone sem fio com força. "Ontem eu fui ao supermercado. Você disse que deveria comprar água, lembra? Disse no dia em que voltou para sua casa. Pois então eu fui ao supermercado comprar água mineral. E resolvi comprar pão também. Aí aconteceu: eu vi um pacote de croissant. Deu um aperto danado no peito, juro, mas resolvi levar um pacote. Sei lá. Não gosto tanto de croissant como você gosta, mas pensei que se eu comesse um deles nós dois estaríamos dividindo um momento novamente. Quando cheguei em casa e preparei o sanduíche de croissant, não sei o que aconteceu comigo. Não pude comer mais do que a metade. De repente, tudo em mim começou a doer. Doer não é bem a palavra. Tudo em mim começou a, isso, tudo em mim começou a esvaziar. Eu estava ficando vazio. Minha vida parecia não existir mais e sabe por quê? Porque você não estava mais ali ao meu lado comendo comigo um estúpido croissant. O que eu quero dizer com isso? Que muitas coisas perderam o sentido desde o momento em que você saiu por esta porta. Coisas bobas como comer um croissant mas que, ao seu lado, se tornam tão importantes, se tornam vitais até. São estas coisinhas que enchem a minha vida de, sei lá, vida. Então, quando você pergunta se estou com saudades, eu digo não. Não sinto saudades suas. Sinto muito mais que saudades. Eu sinto falta sua. Com saudades a gente consegue conviver. Agora, com a sua ausência eu não vivo. Você faz falta porque você faz parte de mim, entende? Alô?". Ela tentava dizer alguma coisa. Mas eu não ouvia nada. Droga de telefone sem fio. "Mais alto", eu disse. E então eu ouvi seu grito. "Desliga esta porcaria de telefone e vá ao supermercado comprar mais croissants", ela falou. "Quantos você quer?", perguntei. "Quantos você acha que pode comer durante toda sua vida?", ela gritou. E foi assim que minha vida se encheu novamente. Feito um carrinho de supermercado.

André Takeda

23 de nov de 2007

Depois rasgo



É absurdo uma pessoa fazer parte de sua vida e simplesmente deixar de existir.

Marieta Severo

22 de nov de 2007

Sem sorte (parte um)


Felipe estava de castigo e precisava ler um livro inteiro até o fim do dia. Depois de enrolar por uma semana, passaria a tarde dentro do quarto tendo como únicas companheiras as inesgotáveis cinqüenta e oito páginas daquela história. Quando chegou na segunda linha, apareceu sobre um livro um cisco - que logo percebeu ser, na verdade, um pequeno mosquito.

21 de nov de 2007

Sem sorte (parte dois)


Lembrou-se da história de que os mosquitos vivem apenas durante um dia e resolveu acompanhar a trajetória daquele inseto sem sorte. Embalou-o num plástico do fichário e ficou admirando-o durante quase meia hora. Como o mosquito não cresceu nem um milímetro, resolveu deixá-lo de lado e voltar ao livro.

20 de nov de 2007

Sem sorte (parte final)


A noite caiu junto com o fim da história e, ao lembrar-se do mosquito, viu que ele estava crescido mas também estava morto. Sentiu uma profunda compaixão pela vida sem sorte daquele inseto e resolveu enterrá-lo no jardim com as mesmas honras do canário da família, que havia morrido de velhice há pouco mais de um ano.

19 de nov de 2007

Intervalo


Sandra trabalhava há quase um ano naquela casa. Desde o primeiro dia soube que precisaria de muita paciência com a nova patroa, mas havia aprendido que emprego não se escolhe e resolveu seguir em frente. A patroa não tinha filhos, mas tinha um cachorro que lhe servia de companhia. Em segredo, os dois faziam visitas diárias a uma obra das redondezas e já tinham conquistado vários amigos vira-latas. Só voltavam pra casa um pouco antes de escurecer e passavam a noite esperando a hora de descer de novo, no dia seguinte.

16 de nov de 2007

15 de nov de 2007

Linhas tortas



Nunca tinha pensado em ser modelo na vida, na verdade queria ser cabeleireira, era meu sonho.

Luíza Brunet

14 de nov de 2007

Como sempre

Fabiana despediu-se dos amigos mais cedo e chegou em casa antes da meia noite. Às sete da manhã já estava na biblioteca. Há tempos sonhava com uma bela noite de sono, mas ainda não seria dessa vez. Pelo menos a manhã tinha corrido tranqüila e a tarde havia começado bem, depois de ganhar um bombom de um freqüentador da biblioteca. Passou a tarde pensando naquela gentileza. Como de costume, faltando meia hora para o final do expediente, todas as funcionárias se reuniram para combinar a cerveja que anunciava o início definitivo do fim de semana. Nem reparou quando o rapaz do bombom levantou-se e foi embora.

13 de nov de 2007

Reviravolta


Érico decidiu acordar cedo naquele sábado e ir direto para a biblioteca. Cansado de passar a vida reclamando dos consecutivos fracassos nos concursos públicos, juntou alguns livros e sentou-se numa mesa vazia. Às duas da tarde interrompeu os estudos e a bibliotecária gentilmente se ofereceu para cuidar dos livros. Ao voltar do almoço, trouxe um bombom como forma de agradecê-la pela atenção e gentileza. Às cinco e meia, meia hora antes da biblioteca fechar, a moça estava às gargalhadas com suas companheiras de trabalho, bem ao lado da mesa dele. Érico levantou-se decepcionado e saiu sem se despedir.

8 de nov de 2007

Inútil


Toda vez que alguém não consegue expressar sua originalidade, a nossa espécie perde uma contribuição ao seu desenvolvimento, tornando-se, então, essa vida uma experiência inútil.

Roberto Freire

7 de nov de 2007

O nome


Francisco estava dentro do ônibus, quando o colar da moça sentada à sua frente lhe chamou a atenção. No colar prateado, lia-se o nome Karina.

Karina... que nome bonito!
É o nome da minha filha.
Ah sim.

(Silêncio de um minuto, que Francisco resolve interromper)

E o seu nome, qual é?
Cleusa.
Bonito também, mas Karina é mais atual.

Calaram-se até a hora de descer.

6 de nov de 2007

Ainda de pé


Carla e Arnaldo estiveram juntos durante três anos. Agora ela estava casada com outra pessoa. Ele também. Moravam no mesmo bairro e de vez em quando encontravam-se no supermercado. Os encontros quase sempre terminavam num convite para um lanche na padaria do bairro. Na hora da despedida, vinha um abraço bem apertado e um certo orgulho por manter aquela boa relação ainda de pé. Sempre vinha também uma certa curiosidade sobre o rumo diferente que as coisas poderiam ter tomado.

5 de nov de 2007

Pontualmente


Gabriela divide o apartamento com uma amiga já há algum tempo. Trabalham na mesma empresa e, de segunda a sexta, precisam chegar pontualmente às sete horas. Acordar às seis seria suficiente mas de uns tempos pra cá passaram a levantar-se meia hora mais cedo. Todo dia, às cinco e meia da manhã, encontram-se em frente ao videokê para ensaiar algumas canções. Quando a barriga começa a doer de rir, trocam-se e vão para o ponto de ônibus.

1 de nov de 2007

31 de out de 2007

Os dias seguintes


Elisabeth estava pronta para seu primeiro dia de trabalho. Depois de muito custo, conseguiu uma vaga na linha 127. Chegou ao ponto final com dez minutos de antecedência e ficou esperando ser chamada. Passou o dia conversando com o motorista do ônibus, mesmo que em alguns momentos fosse preciso aumentar a voz. O fim do expediente veio tranqüilo e os dois se despediram, torcendo pra que o encanto resistisse aos dias seguintes.

30 de out de 2007

Coragem


Moisés trabalhava nos Correios há mais de dois anos e de vez em quando acontecia alguma coisa que compensava as horas desperdiçadas atrás do balcão. Naquela terça perderia o ônibus das seis e meia, procurando no catálogo os dados da Cadeia Municipal de João Pessoa. Havia recebido, das mãos de uma moça sem forças para conter as lágrimas, um envelope sem o endereço completo do destinatário. Não teve coragem de recusar.

29 de out de 2007

Vida nova


Rebeca sabia que aquilo era uma coisa detestável, mas havia decidido dar fim à própria vida ainda naquela semana. Começou então a escrever a lista das pessoas que impreterivelmente precisaria rever antes de deixar esse mundo. Quando a lista virou a página, percebeu que a vida ainda poderia lhe guardar algumas surpresas. Não pensou duas vezes antes de arrumar as malas e ir atrás do que lhe pertencia.

25 de out de 2007

Mais perto



A minha relação com Caetano é muito próxima. Mas nós somos muito tímidos, um diante do outro.

Gal Costa

24 de out de 2007

Sob controle


Marília havia se mudado para uma pequena cidade num outro estado, tudo isso por causa de um salário melhor. Estava lá há quase dois meses e até então não havia descoberto um grande amigo sequer. Sua rotina resumia-se ao trajeto entre casa e trabalho, trabalho e casa e vice-versa. Um dia tomou um pouco de coragem, uma dose de whisky e um táxi para um forró que acontecia toda sexta no centro da cidade. Dentro do táxi, suspirou ao descobrir que ainda tinha as rédeas da vida nas mãos.

23 de out de 2007

A mais forte


Virgínia nasceu antes que sua mãe completasse seis meses de gestação. Passou um tempo no CTI mas hoje trabalha como garçonete num bar muito bem freqüentado. Talvez por ter nascido prematura, só consegue carregar uma cerveja cheia de cada vez. Às vezes tenta carregar duas garrafas, mas acaba precisando apoia-las em outra mesa durante o trajeto. De vez em quando cai inteira no chão, com garrafa e tudo. Mesmo assim é a preferida de vários clientes.

22 de out de 2007

Sem dúvida


Débora dava plantão quase todo sábado. Ficava à espera de alguma emergência e às vezes precisava sair sozinha com o motorista da ambulância. Sempre que isso acontecia, cabia a ela e a mais ninguém verificar se a vítima estava viva ou não. Por insegurança ou esperança, sempre ligava os aparelhos todos e tomava o rumo do hospital. Chegando lá, a turma brincava: Outro presunto?. Mas ela não conseguia fazer diferente.

19 de out de 2007

Fazendo hora



Fico fazendo hora para o tempo passar, para poder subir no palco outra vez.

Maria Bethânia

18 de out de 2007

Invisível


Ítalo juntou suas últimas moedas e mandou imprimir vinte cartazes. Em cada cartaz, uma foto do cachorro desaparecido e o anúncio de uma recompensa que ele ainda não sabia como pagar. Passou uma tarde inteira pensando sobre os melhores postes e às sete da noite os cartazes já se espalhavam pelo bairro. No dia seguinte apareceu um rapaz à sua porta, trazendo um cachorro e dispensando a recompensa. Ítalo sabia que o cachorro era outro, mas não conseguiu recusar a oferta.

17 de out de 2007

Outra vez


Clarice morreu pela primeira vez aos oito anos e pensou que fosse para sempre. Morreu novamente alguns anos depois, ao terminar de escrever seu primeiro livro e achar que nunca mais conseguiria escrever outro. Quando pensou que já estava livre, separou-se do marido e viu a morte outra vez. Morreu tantas vezes, com velório, enterro e tudo, que já não entendia como ainda estava viva. Mas que estava, estava.

15 de out de 2007

Sabedoria


Isabela passava todos os domingos com o pai. Depois de sair em disparada pela porta, os dois almoçavam juntos e gastavam a tarde sentados na varanda de casa. Enquanto ela brincava no chão, ele falava sobre as coisas do mundo. Países, sentimentos, parentes distantes: falava sobre tudo isso com muito gosto. Isabela parecia não prestar atenção, mas quando voltava para casa anotava tudo num caderno comprado em segredo, especialmente para as coisas que aprendia com o pai.

12 de out de 2007

Por quê?



Quando faltam uns 15 minutos para o início de cada espetáculo, eu começo: Por que escolhi essa profissão?

Marília Pêra

10 de out de 2007

Cinco minutos


Cristina lembrava-se com saudades do seu primeiro dia de trabalho. Naquela segunda-feira distante, olhava o email de cinco em cinco minutos, ansiosa para que ali aparecesse uma nova missão. De uns meses pra cá, cada intervalo de cinco minutos anunciava o momento de verificar se ainda não havia chegado a hora de juntar suas coisas e encerrar o expediente. Resolveu procurar outro emprego antes que o que já era pouco se acabasse de vez.

9 de out de 2007

Quanto parece


Sandra é aquela moça que fica na porta da loja de perfumes, com a função de distribuir tirinhas de papel perfumado aos freqüentadores do shopping. O trabalho em si não a incomoda mais do que notar as pessoas que fingem que não a enxergam e depois se culpam por isso. Ela gostaria de dizer a essas pessoas que não leva tão a sério o desinteresse generalizado pelos papeizinhos perfumados. Ela está ali, mas é de olho em um novo emprego.

8 de out de 2007

Pela frente


Fernanda estava naquele emprego há pouco tempo, mas já havia entendido o que tinha pela frente. Por mais que se esforçasse, precisava desistir de ganhar elogios e aprender a enfrentar a decepção dos clientes diante daqueles pacotinhos de fotos três por quatro. Mas ela não desistia.

5 de out de 2007

O exercício do esquecimento



Às vezes, acordo e penso que ele está do meu lado. Esqueço que ele se foi. Quando toca o telefone, penso que é ele.

Eva Wilma

4 de out de 2007

Motivo de orgulho



Antes de ir embora, um dos assaltantes falou: Você faz um favor pra mim: dá um autógrafo pra minha mãe? Há muito tempo ela não tem motivo pra se orgulhar de mim.

Letícia Sabatella

3 de out de 2007

Três amigas


Érica morava no mesmo prédio há mais de dez anos. Numa noite de quinta, discutiu com o marido e viu-o sair de mala e cuia pela porta da sala. Sentiu-se tão sozinha que aceitou o convite da vizinha de porta: foi parar na reunião de condomínio. Acabou conhecendo outra vizinha, moradora da cobertura e esposa de um marido que viajava de segunda a sexta. Finito o evento, foram as três para o apartamento de Érica. Acordaram as três, no sofá, às sete da manhã.

2 de out de 2007

Invenção


Alice reparou que seu marido estava quieto demais naquela manhã de domingo. Em três anos de casamento, ela havia aprendido o que entender desse silêncio todo. Não pensou duas vezes: inventou um sonho bem engraçado em que o marido era seu aliado numa batalha impensável. E foram necessários menos de trinta segundos de sonho narrado para que ele estivesse de sorriso aberto, pronto para começar um outro domingo.

1 de out de 2007

Segredo


Camila tinha onze anos e era a primeira vez que seus pais permitiam que ela nadasse sozinha, na parte funda do mar. Lá onde não dava mais pé, veio uma onda forte que a deixou mais de um minuto rodando embaixo d'água. Pensou Calma!, relaxou e saiu - sem contar para ninguém.

29 de set de 2007

Tudo o que vê




Queria muito que minha filha gostasse de transformar objetos do cotidiano. Acho que consegui. Hoje ela carrega tudo o que vê - sementes, penas, palitos, canudos - e leva para casa.

Maria Luísa Mendonça

27 de set de 2007

Pelo caminho




Essa jornada em busca de si mesmo é o caminho de todo herói trágico.

Alessandra Negrini

26 de set de 2007

Diagnóstico


Augusto não era a pessoa mais feliz do mundo, mas tinha lá suas alegrias. Entre elas o chopp no fim da tarde e as visitas dominicais dos netos. Era pensando nessas alegrias que lhe doía saber que a vida poderia deixar-lhe ainda antes dos sessenta anos. Resolveu parar de fumar.

25 de set de 2007

Atmosfera


Gabriel tinha acabado de levar um empurrão, mas estava tão satisfeito com a vida que nem se incomodou. Olhou para trás, soltou um sorriso e voltou-se rapidamente para a direção do palco, onde acontecia o show da sua banda preferida. O peso do empurrão ainda repousava sobre o seu ombro direito mas, sem que entendesse, aquilo havia se transformado numa coisa boa.

24 de set de 2007

As metáforas das coisas


Luiz às vezes abusava da bebida: isso não era segredo. Mas é que quando bebia compreendia melhor as metáforas das coisas. E viver sem perceber essas metáforas já não fazia mais sentido.

21 de set de 2007

Sem freios



Vejo estes atores tentando ser outras pessoas e me admira sempre como embarcam no sofrimento alheio sem freios, parecem mesmo gostar.

Fernando Meirelles

19 de set de 2007

Tudo errado



Você vê a mulher que afogou os cinco filhos e ainda mandaram matá-la: está tudo errado. Ninguém procurou saber por que a mulher matou os filhos.

Letícia Spiller

18 de set de 2007

Quatro meninas


Seu Domingos nunca teve um filho. Para compensar, foram quatro as vezes em que sua esposa deu luz a uma menina. Hoje as quatro meninas já passavam dos quarenta anos e, aos domingos, sempre almoçavam na casa do pai. Abriam a boca no instante em que atravessavam a porta e só fechavam na hora da despedida. Seu Domingos até achava bonito todo aquele falatório, mas realmente não conseguia acompanhar. Por causa disso tradicionalmente simulava um cochilo no sofá, logo após o almoço. Mas cochilava com um sorriso no rosto.

17 de set de 2007

Gentileza


Mesmo às sextas-feiras, Mariana acordava às seis da manhã. Em cima de sua mesa, uma pilha de processos trabalhistas. O emprego já não lhe parecia tão interessante como antigamente, mas naquela sexta ela nem se importava. Na noite anterior, no samba que costumava frequentar, havia recebido de um rapaz qualquer um ramo de flores bem pequenas, ajeitadas com cuidado em seu cabelo. Acordou pensando nisso.

13 de set de 2007

Dura na queda


Dona Leopoldina havia completado oitenta e dois anos no último mês de janeiro. Passeava muito a pé, pois na sua época eram poucas as mulheres que aprendiam a dirigir. As pernas já andavam bambas e não era raro que se estabacasse no chão a cada esquina percorrida. Mas não sentia vergonha disso e nem causava preocupação na vizinhança: era notória a sua habilidade para levantar-se do chão em apenas dez segundos. Costumava, inclusive, arrancar aplausos dos pedestres desavisados que passavam pelo bairro.

12 de set de 2007

Corisco


Sim, Corisco tinha esse nome em homenagem ao filme. Sofreu um pouco quando criança, mas depois percebeu que o nome difícil o tornara mais forte. Ainda criança aprendeu o valor daqueles que não se abalavam com essa história do nome. Sabia que atos como esses denunciavam um tipo especial de desprendimento, que muito lhe interessava.

11 de set de 2007

Depois das nove


Lídia nunca cedia ao impulso de tocar campainha na casa da vizinha depois das nove da noite. Não era por vergonha, mas por saber que aquilo despertaria na vizinha uma irreversível impressão de intimidade.

2 de set de 2007

Sem pudor


Quanto mais falamos sobre sexo, mais o reprimimos. Isso porque criamos esquemas que julgam e comparam as práticas sexuais.


Michel Foucault

24 de ago de 2007

Hora do Meme


Zorba, o Grego (Nikos Kazantzakis)
Durante uma viagem de ônibus para João Pessoa, em 2003. Um livro sobre a força do encontro e do desprendimento.

Ascese, os Salvadores de Deus (Nikos Kazantzakis)
Depois de ler uma entrevista com a Letícia Spiller, também em 2003. Um livro sobre a liberdade e a luta pela libertação.

Medo e Submissão (Amelie Nothomb)
Numa visita despretensiosa à Biblioteca Pública, em 2001. Um livro para virar cambalhotas e gargalhar sozinho, no quarto.

Amor nos tempos do cólera (Gabriel Garcia Márquez)
Depois de uma aula de teatro, em 2006. Um livro sobre o amor mais bonito e mais humano que se pode conceber.

Caosmose (Félix Guattari)
Depois de uma aula da Profa. Roberta, em 2004. Prosa-ciência sobre a vida contemporânea e suas poéticas possibilidades.

A Bel foi quem me convidou. Para dar prosseguimento, convido o Loise, o João e a Maria.

13 de ago de 2007

Na Baixada


Gostava muito da vida. Quando fosse pra morrer, não queria nem céu nem inferno. Queria virar assombração, só para continuar vivendo.

9 de ago de 2007

Hora do almoço


Joana havia terminado o almoço e todo dia era a mesma batalha para que as crianças comparecessem à mesa. Enquanto os filhos se distraíam com o suco de laranja derramado na toalha, ela adiantava as coisas e servia o próprio prato. Arroz, feijão, um pouco de salada para estimular as crianças e aquele bife à milanesa do cantinho. Sempre deixava os bifes mais bonitos para os filhos.

8 de ago de 2007

Em obras


Para Martina, as manhãs eram sempre iguais. Às sete da matina, muito antes da hora prevista pra levantar da cama, começavam as marteladas na obra ao lado. Pontualmente às sete e quinze Martina tinha vontade de lançar pela janela o travesseiro, o telefone, o criado-mudo e qualquer outra coisa que suas mãos pudessem alcançar. Nesses momentos os cinco pedreiros pareciam um exército inimigo e eram capazes de irritá-la mais até do que o chefe, o ex-namorado e a vizinha do 402.

E nem parava pra pensar que aqueles pedreiros, decididamente, também não queriam estar ali.

11 de jul de 2007

Minha música


Um cheiro estranho toma conta da sala e, sem pestanejar, todos os convidados correm em direção ao forno. A última porção de pães de queijo será servida assim, um pouco além do ponto. É que me distraí com a música!, diz a anfitriã, rindo e recompondo-se ao lado do marido.

10 de jul de 2007

Lucidez


Decido encher todas as minhas páginas em branco com as mais belas combinações de palavras que seja capaz de engendrar. E depois, porque quero assegurar-me que a vida não é absurda e não me encontro só sobre a terra, reúno-as todas num livro e ofereço-o ao mundo. Este retribui-me com a riqueza, a glória e o silêncio. Mas não sei que fazer com este dinheiro, nem que prazer tirar de contribuir para o progresso da literatura, pois só desejo o que jamais obterei - a certeza de que as minhas palavras tocaram o coração do mundo. É então que me pergunto o que vem a ser o meu talento, e descubro que não passa de uma forma de consolar da solidão.

Stig Dagerman

8 de jul de 2007

Pela metade


Jorge havia se encantado com uma sala em que se encontravam diversas obras inacabadas, dentro da exposição de um pintor apaixonado pela Bahia. Pensou imediatameante sobre a própria vida e as obras que ficariam pela metade se, assim sem querer, precisasse interrompê-la.

27 de jun de 2007

A encomenda


Dona Alice e seu filho moravam em cidades diferentes, já há alguns anos. Por motivos que só uma mãe entende, sempre precisava enviar alguma encomenda para o filho. Para tanto, utilizava um sistema bastante comum nas rodoviárias de pequenas cidades. Mas ela sempre escolhia a dedo a passageira que entregaria a encomenda da vez para o rapaz. Atenciosamente descrevia o filho à moça escolhida, falava ao filho sobre a portadora da encomenda e torcia para que o encontro desse certo. Quem sabe um neto.

14 de mai de 2007

Trivial


Pobre Eva. Há muito perdera a conta dos romances desperdiçados por razões triviais. Cansada de não levar nada pra frente, resolveu fazer de outro jeito. Se a vida não vinha pronta, enfiaria as duas mãos na massa.

3 de mai de 2007

28 de abr de 2007

Despedida


Uma noite, quando meu pai passava pelo rio, vislumbrou-a dançando sob o luar. Precipitando-se enganchou seu lenço e assim a trouxe para casa tornando-a sua esposa. E agora ela ia e vinha pela casa o dia todo, procurando o lenço para que pudesse amarrá-lo nos cabelos e partir. Eu costumava acompanhar suas andanças: de como abria armários e baús, de como destampava jarras, de como se ajoelhava para espiar debaixo das camas. E eu tremia. Tremia de medo que encontrasse seu lenço mágico e se tornasse invisível. Este medo durou ainda muitos anos, ferindo profundamente minha alma recém-nascida. Ainda hoje vive em mim, mais indescritível do que antes: é com angústia que observo aquelas pessoas ou idéias pelas quais tenho amor porque sei, sei que estão procurando seus lenços para poderem ir embora.

23 de fev de 2007

Essencial


Custava a acreditar que Raquel conhecia o mundo todo. Patrocinada pela madrinha, havia passado três anos passeando continentes afora. Assim, de repente, ninguém imaginaria. Ela não vestia a carapuça de moça viajada nem gastava seus muitos destinos em qualquer oportunidade. Preferia não dar nome aos bois. Escolheu transformar os destinos em essência e deixar atrás das entrelinhas o caso do monge tibetano que havia abandonado tudo depois de passar uma noite ao seu lado.

20 de fev de 2007

Na minha lista (parte cinco)


Oi Ana,

queria saber como foram as coisas por lá, como estão as coisas por aí, o que tem ocupado a sua cabeça e tudo e tal. seria bom receber umas palavras suas. queria cumprir aquela promessa que fizemos, sobre não nos tratarmos como estranhos depois de tudo o que aconteceu. sei que pode ser difícil pra você, pra mim também não é fácil, mas tenho quase certeza de que vale à pena. sumir é sacanagem. as saudades são muitas. de verdade.

um beijo,

Clóvis

9 de fev de 2007

O que dizer


Ângela Vicário viu o seu próprio pensamento refletido nos espelhos repetidos da sala. No fim daquela semana, sem ter conseguido um minuto de sossego, escreveu-lhe a primeira carta. Foi uma carta convencional na qual contava que o tinha visto sair do hotel e que teria gostado se ele a houvesse visto. Esperou em vão por uma resposta. Ao fim de dois meses, cansada de esperar, mandou-lhe outra carta no mesmo estilo indireto da anterior, cujo único propósito parecia ser condenar sua falta de cortesia. Seis meses depois tinha escrito seis cartas sem resposta, mas se conformou com a confirmação de que ele as estava recebendo.

Escreveu uma carta semanal durante metade da vida.


Gabriel García Marquez

8 de fev de 2007

Rei e rainha


Clara tinha uma simpatia implacável por doentes rebeldes, ainda mais se já fossem velhos. Enxergava com bons olhos o embate entre a intolerância do corpo e o desejo de viver. Entendia a aflição dos seus pais, mas estava decidida: continuaria emprestando seu carro ao avô, sempre que ele lhe pedisse.

4 de fev de 2007

Promessa


O amor vinha forte ao perceber que ela era capaz de se interessar por qualquer coisa, por coisas que ele nunca imaginaria. Ele via isso como a garantia de alguma felicidade no futuro, quando as coisas todas, aos seus próprios olhos, provavelmente já haveriam se esgotado. Resolveu casar-se.

3 de fev de 2007

Justa causa


Sentia por ele um amor profundo, mas sabia que seria impossível conviver com aquela gargalhada durante muito tempo. Poderia aturar uma série de outras coisas, mas não conseguia encontrar sentido em amar alguém cuja expressão da felicidade fosse algo absolutamente indesejável. Resolveu deixá-lo.

22 de jan de 2007

Origens


Aurélio pensava sobre as ações que vinham como respostas aos problemas. Essas ações seriam dali em diante chamadas de soluções. Reservaria o outro termo para as ações que surgissem espontaneamente, a partir de desejos e escolhas. Começava a rever muitas das coisas que havia vivido até então, separando-as entre soluções e ações. Essa atividade lhe proporcionava mesmo um certo prazer, por ter a impressão de que, com isso, começava a entender um pouco mais sobre seus caminhos. Foi quando percebeu que o grande amor da sua vida não passava de uma solução para um domingo sem palavras - e decidiu derrubar aquela teoria, que associava o valor das coisas às suas origens.

14 de jan de 2007

Sem valor


Cecília estava farta de sair com aquelas senhoras que nada faziam além de criticar vizinhas, antigas amigas e até desconhecidas. Estava muito cansada de ouvir palavras desdenhosas, que diminuiam o mundo e nada diziam sobre as senhoras. Trocaria sem pestanejar todo aquele falatório por uma frase que expusesse o que entre as coisas todas era importante e interessante para as senhoras. Queria entender porque elas deixavam de lado todo o resto e só falavam sobre o que julgavam errado e sem valor.