28 de abr de 2008

Liberdade


Jaqueline enxergava o mundo através de uma janela bem pequena, que definia a fronteira entre a área do xerox e o resto da universidade. Nos primeiros dias de trabalho já havia reparado que mesmo os olhos das pessoas mais educadas costumavam desviar dos seus. Resolveu tirar proveito da indiferença geral e, vez ou outra, divertia-se ao ostentar um belo bigode português durante todo o expediente.

25 de abr de 2008

Vida doce


Carmem queria ser atriz, desde pequena. Queria viver na Itália por um tempo, queria morar num apartamento de frente para o mar. Queria, mas contentava-se com férias no exterior uma vez por ano. Quando lhe perguntavam sobre a vontade de ser atriz, ela devolvia um sorriso amarelo e desconversava. Da janela do restaurante, Carmem enxergava a mesma rua de sempre e esforçava-se para não amargar diante de todas as coisas que não haviam acontecido.

16 de abr de 2008

Evoluindo



Gosto de saber se está todo mundo bem, correndo atrás dos seus desejos, evoluindo.

Patrícia Pillar

7 de abr de 2008

Não tinha nada


Lívia sentia um aperto na barriga a cada manhã, sempre que cruzava a porta da rua. Morava sozinha há pouco tempo e ainda não tinha se acostumado a abandonar a casa a própria sorte, diariamente. Sabia que era estranho pensar nisso, mas não havia nada que lhe garantisse que a casa estaria no mesmo lugar quando chegasse do trabalho. Por conta dessa aflição, nunca aceitava tomar uma cerveja depois do expediente. Voltava correndo para conferir se estava tudo em ordem, pedia uma pizza e só punha os pés fora de casa no dia seguinte.

2 de abr de 2008

Até o fim


Idalina desfilava na ala das baianas há mais de dez anos e esse era, sem dúvida, um dos maiores prazeres da sua vida. Outro grande prazer era tomar a primeira cerveja depois do desfile: era apenas o anúncio das muitas outras garrafas que viriam até a linha 126 voltar a passar. Ela fazia questão de aproveitar o veneno daquela noite até o fim. Liderava a mesa das baianas, ainda vestidas a caráter, e já criava tradição no bar em frente ao ponto de ônibus.