22/10/2009

De costume


Isaura havia passado quase duas semanas entre uma sala de cirurgia e um quarto de hospital. Lutou com unhas, dentes e parentes para que a vida não lhe abandonasse. Ao longo daqueles dias recebeu visitas e telefonemas de gente que não via há muito tempo. Contou também com a paciência e a companhia constante dos filhos adultos, coisa que lhe parecia tão rara. Do alto dos seus cinquenta anos, pensou que aqueles dias anunciariam o início de uma nova etapa em sua vida. Mas agora, felizmente, havia se recuperado. Estava de volta à própria casa e - surpresa! - à solidão que já era de costume.

29/05/2009

Ideologia


O crescimento pelo crescimento é a ideologia da célula cancerígena.

Edward Abbey

11/05/2009

Por um pio


Logo que viram o apartamento, apaixonaram-se pela bela copa de árvore que enfeitava a vista da janela do quarto. Eram nascidos no interior e gostavam de acordar com os pássaros. Ela mais do que ele, é verdade - porque ele gostava mesmo era de vê-la feliz. Por isso foi grande a decepção quando daquela árvore, ao longo de dois meses de casa nova, não saiu sequer um pio. Três dias antes do aniversário dela, ele teve uma idéia. Ela não acreditou ao acordar.

18/03/2009

Pouco tempo


Seu Dorival havia comprado um carro na época das vacas gordas e atualmente enfrentava alguma dificuldade para sustentar o possante. De bico em bico, sobrava pouco dinheiro e muito pouco tempo para cuidar das muitas avarias que se acumulavam com tantos anos de uso. Naquele dia de azar, o carro cismou de enguiçar no meio de um engarrafamento. Não era a primeira vez e Seu Dorival sempre tinha a esperança de que alguém fosse aparecer para ajudá-lo a empurrar o carro até o acostamento. Geralmente não aparecia ninguém e ele nem condenava, pois sabia que, de bico em bico, para as outras pessoas também sobrava muito pouco tempo.

17/03/2009

Trabalho


O sistema competitivo deforma o caráter humano. Subverte o instinto de trabalho, a tendência congênita de produzir dentro dos limites de nossa capacidade, o interesse pelo trabalho bem-feito.

Lewis Coser

04/03/2009

Era uma casa


Marilda gostava muito dos seus irmãos, mas gostava acima de tudo da sua patroa. Trabalhava naquela casa já há mais de cinco anos e sabia ser hoje uma pessoa mais feliz do que na época em que conseguiu o emprego. Saboreava com gosto cada elogio à sua comida e cada brincadeira com as crianças. Achava um pouco ruim que a patroa trabalhasse muito durante a semana e só mesmo no sábado tivesse tempo pra sentar-se na cozinha. Por conta disso, mesmo liberada desde as duas horas, Marilda gostava de passar ali suas tardes de sábado e não costumava se despedir da patroa antes de anoitecer.

21/11/2008

Desespero


Homero escolheu ser taxista porque era bom no volante e também porque gostava de conversar. Mas desde o dia em que precisou vender o táxi as coisas desandaram. Não era a primeira vez que ele trabalhava como motorista particular, mas nunca havia sido proibido de circular pelas áreas comuns do prédio nos momentos em que a patroa estava em casa. Por conta disso encarou com um certo desespero o fato de passar grande parte do dia sentado, sozinho e em silêncio, dentro de um carro estacionado em uma garagem. Quis dizer a patroa que aquilo era falta de respeito, mas não pôde porque precisava do emprego.

26/10/2008

Travessia


Romeu tinha apenas onze anos e vivia se espantando com o mundo. Esforçava-se para entender o funcionamento das coisas, mas a cada dia aumentava mais a sua impressão de que, do mundo, sabia e servia pra muito pouca coisa. A impressão só dava sossego nas temporadas que passava na casa da avó. Era na cidade dela que ele se revelava um ótimo atravessador de ruas, acompanhando a avó e todas as suas amigas naquelas travessias que, para ele, pareciam as coisas mais simples e prazerosas da vida.

12/10/2008

Amontoado


Bernardo assistiu a uma peça de teatro e desde então uma frase andava ecoando na sua cabeça: como é que pode se transformar num amontoado de tarefas a vida da gente? Era uma frase relativamente simples, mas aquilo parecia organizar todos os conflitos que o rodeavam nos últimos tempos. O rapaz, que já não era menino há alguns pares de anos, custava a enfrentar a vida adulta e a série de tarefas que diariamente se impunham à sua vida, quisesse ele ou não. As tarefas vinham de todos os lados, não podia olhar de rabo de olho pra um canto que, pronto, de lá aparecia uma nova tarefa.

15/09/2008

Janela aberta


Martin vivia em um dos bairros mais quentes da cidade, em uma das cidades mais quentes do país. Naquele fim de semana herdou da avó um velho aparelho de ar condicionado e pensou que o presente lhe serviria como fiel companheiro para o resto da vida. Na segunda-feira seguinte, encontrou-se com o vizinho do 302 no elevador. O vizinho tinha olheiras devastadoras e queixava-se de um estranho zumbido que vinha atormentando suas noites, há dias. Martin se fez de desentendido, mas voltou a dormir com a janela aberta.