31 de mai de 2005

Insone


O tempo deixou de agir nele, tornou-se vácuo. É sem, é vazio de tudo. De sentido e de forma. Tão vazio de vida que à noite nem morre. Seus olhos não se fecham, seu corpo não descansa. É obra inacabada, parada por falta de verba ou descaso. Não há sono, há saudade.

30 de mai de 2005

Insone II


Havia descoberto um impulso. Um verdadeiro fascínio por aqueles que acreditavam, pelos que movimentavam-se com desenvoltura na arena que até então lhe parecera tão árida. Queria inserir-se numa vida convicta qualquer. Numa vida convicta. Procurava agitar-se até viver uma nova história que pudesse contar; até constituir um mundo particular que pudesse compartilhar. Seriam mais muitas noites em claro, agora a pensar nesse projeto. Dessa vez, noites (instantaneamente) felizes, sobretudo pela esperança que nelas surgia.

29 de mai de 2005

Insone III


Notava, enquanto acostumava-se com o hábito de não dormir, que a cada noite passada em claro mais as coisas do mundo se esclareciam. Ao não dormir, a energia não se perdia com o fechar dos olhos e o repousar do corpo. As vontades permaneciam insatisfeitas, em busca de realização. Os aprendizados, assim como as boas experiências, deixavam de dispersar-se, de encaminhar-se para o desconhecido território da memória. O presente acentuava-se, as idéias encadeavam-se e, ao mesmo tempo, tornavam-se singulares pela abolição da rotina. Os fatos deixavam de aprisionar-se em dias, passavam a dar-se em seu tempo devido, em seu espaço adequado.

28 de mai de 2005

Insone IV


Havia encontrado um amor. Depois de inúmeras noites em claro, nas quais privava-se de todas as experiências que a ele se ofereciam, libertou-se. A liberdade de vínculos que até então defendia representava a ausência de escolhas, o posicionamento no lugar nenhum. Por ter se livrado de tudo, acabou aprisionado em si mesmo. Mas agora amava.

25 de mai de 2005

Onde?


Em 17 de janeiro de 1906, aos quatorze anos de idade, Mariquinha casou-se com seu primo Soquinho. Teve seu primeiro filho aos quinze anos e, aos quarenta e quatro, o décimo-sexto. Mariquinha faleceu em 1983, aos noventa e dois anos de idade. Antes disso, escreveu alguns versos.

Gente, cadê a gente dessa casa?
Gente que os meus olhos viam.
Hoje não vejo mais.
Gente que comigo dormia,
gente que comigo comia,
gente que comigo vivia.
Me fala gente!
Onde está a gente dessa casa?


23 de mai de 2005

Em repouso


O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há de sê-lo a vida humana? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz, mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver?

Stig Dagerman