14 de dez de 2004

Sobre ela


Parece-me que ela não foi criada com o objetivo de agradar. Parece que foi apagada pouco a pouco. Acabou tomando um aparente medo da vida. Ela não é o tipo de pessoa que faz catarse. Parece incrustada em alguma coisa que ninguém vê. Genuínamente existindo. Ao invés de explodir em risos e lágrimas selvagens, em palavras ditas num tom acima, ela fez outra escolha.

30 de nov de 2004

Ao redor


Tem gente que anda olhando pra baixo. Deus me livre. Imagina se alguém me dá um sorriso e eu não vejo.

29 de nov de 2004

Pulo fora



É, porque acho que ficamos felizes ou tristes em função de coisas que acontecem. E a felicidade também não é o melhor estado. Assim como a depressão e a tristeza, a felicidade e a alegria são barulhentas demais. Por isso, sinto-me plena quando estou tranqüila.

Maitê (coisa feia)

27 de nov de 2004

Bancando o palhaço


O pessoal do hospital não gostava muito de mim, na certa achava que eu era inerte demais; até no hospital, e quem sabe no leito de morte, você é condenado a bancar o palhaço.

Michel Houllebecq

19 de nov de 2004

Serenidade


A tarefa parecia-me cada vez mais fácil. Era absolutamente tediosa, o que não me desagradava, pois podia assim ocupar minha mente com outras coisas. (...) Chamava esse estado de serenidade escritural. Não era tão grande a diferença entre a função de monge copista, na Idade Média, e a minha... Como era bom viver sem orgulho nem inteligência. Eu estava hibernando.

Amélie Nothomb

11 de nov de 2004

Introdução



O amor faz passar o tempo. O tempo faz passar o amor.

Quem me disse foi um senhor de sessenta anos.

9 de nov de 2004

São mais de dois


Suspeito que atrás de todas as aparências há uma essência em luta. Quero unir-me a ela. Suspeito que a essência em luta busca também, atrás das aparências, unir-se ao meu coração. Mas o corpo se ergue entre nós e nos separa. A mente se ergue entre nós e nos separa.

3 de nov de 2004

Assim por diante


Numa conversa sobre fidelidade...

A ocasião faz o ladrão.
A bebida faz a ocasião
Logo, a bebida faz o ladrão.
Quem não bebe não trai.

E assim por diante.

29 de out de 2004

Brigitte (parte um)


aquele dia fora amarelo. Brigitte queria que tivesse sido azul como o céu estrelado, como nunca. talvez nem no dia em que Osvaldo e ela se encontraram pela primeira vez. mas a noite estava estrelada, e era isso o que lhe importava.

isso prometia que, no dia seguinte àquele, Osvaldo esperaria pelo que nunca aconteceria. Brigitte havia decidido fazer aquilo porque o coração de Osvaldo não permitia que a felicidade entrasse. Osvaldo temia que a nova felicidade fosse maior que a vida que ele havia sonhado para si, durante toda a sua juventude.

surpresa, era assim que Brigitte estava naquele instante, e nada parecia poder retirá-la daquele imprevisível estado, em que todos nos encontramos.

ela beijou Osvaldo no rosto e adormeceu.

28 de out de 2004

Brigitte (parte dois)


horas depois, acordou.

Brigitte gostava de sair de casa todo dia às seis horas da manhã. ela seguia, até então, o ritual que inventara quando criança:

ao pisar fora de casa, olhava para o céu e respirava três vezes enquanto mentalizava a palavra amor,

amor, palavra que antes - e até então - parecia-lhe um grande enigma. talvez o maior deles. mas naquele instante tudo lhe apareceu claramente (obviamente) e ela decidiu que era hora de dar um abraço em Osvaldo. entregaria-se a outro na noite daquele novo dia. e agora, que iria separar-se de Osvaldo, não sabia se conseguiria repetir aquele ritual de todos os dias. o ritual parecia-lhe completamente desnecessário. amava-se, afinal.

Brigitte levantou-se. olhou para Osvaldo e disse: "nunca mais".

preparou-se para um encontro. saiu de casa correndo, numa agitação de cabelos e pulseiras balançando.

27 de out de 2004

Brigitte (parte três)


ao abrir a porta, Brigitte surpreendeu-se de novo: todos observavam uma cena armada por um casal de barraqueiros, que só queriam arrumar confusão. ela não queria mais. decidiu dar meia volta.

parou no meio da meia volta.

olhou ao seu redor
e não encontrou ninguém
a quem admirasse ou
a quem devesse qualquer forma especial de respeito.

Brigitte libertou-se então da moral que a atormentara durante toda a sua vida. agora sentia aquele gostoso sentimento sem nenhuma culpa.

enquanto isso, ela chupava um picolé, um dos mais gelados que já havia experimentado. nada em sua memória comparava-se àquele frio, àquela paralização, àquela imobilidade.

foi quando ouviu uma buzina e, num rompante, bateu a porta, prendeu os cabelos e soltou algumas pulseiras no ar.

ajeitou seu vestido. caminhou dois quarteirões.

26 de out de 2004

Brigitte (parte quatro)


sentou-se na calçada. esperava pelo primeiro carro que passasse. só iria de carro, porque se alguém passasse a pé, ainda que tivesse boa vontade, não poderia levá-la muito longe de casa. e, apesar da distância enorme que a separaria de seus pais e irmãos, Brigitte não se sentiria sozinha.

ela apenas sentia-se incomodada pela inércia que comandara os últimos dias. sentia-se presa a uma vida que não adequava-se aos seus planos nem aos seus desejos, agora incontroláveis.

Brigitte sentiu então que o clima daquele lugar lhe fazia bem. já há muito tempo não passavam carros nem pessoas. ela gostava de sentir-se. ali mesmo. na calçada.

a sua vida poderia transformar-se. antes mesmo que qualquer carro ou kombi ou caminhão passasse e a levasse dali.

horas se passaram. Brigitte experimentava-se.

25 de out de 2004

Brigitte (parte final)


enquanto isso, dois carros e uma caminhonete ofereceram-se para levar Brigitte daquele lugar. aguardavam a decisão dela, enfileirados.

ainda naquela tarde, Brigitte precisava decidir entre os um dos três caminhos recém-aparecidos em sua vida. precisava ponderar devidamente as promessas e os custos de cada caminho. confiante e decidida, optou pela segunda opção, que poderia trazer-lhe, no futuro, maior felicidade.

"mas nada é precedente e nada pode garantir ganhos futuros. as variáveis sobrepõem-se o tempo todo e a natureza das coisas é nitidamente imediata",

foi o que pensou, um minuto depois. sua escolha persistia pendente. era preciso pensar nas consequências imediatas e abandonar os grandes planos, antes postos em primeiro lugar.

sim, ela mudara de opinião. tinha esse direito. não queria agora o caminho mais difícil. queria apenas um caminho mais calmo, para que as coisas acontecessem de forma mais natural em sua vida.

afinal, de quem era mesmo aquela vida?

unicamente dela, mas às vezes Brigitte parecia esquecer-se disso. aquela escolha, relacionada à próxima pessoa com a qual dividiria sua vida, decididamente, ficou para depois. ou para nunca mais.

14 de out de 2004

Nosso clichê


é dos nossos limites que estou falando. um limite não existe sozinho, sempre está relacionado a duas grandezas. a cada nosso que eu falo, mais eu sei que existimos. o curioso é que quanto mais destemido eu sou, mais medo me aparece (mas queria que esse medo e esse destemor fossem nossos).

e deve ser assim que surge um clichê. por causa de gente assim, que não vive sem.

4 de out de 2004

Fragmentos recolhidos do limbo


eu não penso duas vezes. eu viro criança, viro mendigo, viro um cachorro sem dono. e mesmo assim me trata como se eu pudesse partir a qualquer momento, como se não soubesse que não há nada que me atraia e me conforte mais do que a sua mera presença.

eu prefiro não tomar a nossa relação como exemplo de nada. prefiro aproxima-la da exceção, lá somos mais inofensivos. ser exceção traz um conforto, uma sensação de liberdade.

modulo os amores em forma de amizade. modulo minhas vontades em nome do que me permitem. às vezes penso que vivo a metade da minha vida, a metade do que seria capaz de experimentar.

23 de set de 2004

O próximo passo


Estava sentado, calado, olhando para o horizonte. Olhares piedosos se aproximavam. Era como se gritassem em sua direção, bem perto dos seus ouvidos. Antes mesmo que lhe os olhares se transformassem em palavras e gestos, resolveu dizer alguma coisa, assegurar-se de que não haveria interrupção.

Não me perguntem se estou triste. Se me decepcionei, se alguma coisa aconteceu (prefiro a autonomia de expor-me somente quando me sentir à vontade). Por favor não direcionem, com suas piedosas palavras, a minha cruel atenção a qualquer ponto que me faça sentir mal. Deixem-me iludido, introspectivo e distraído. A distração me conduz a um lugar mais leve, mais pertinente. A realidade me condena, a atenção me persegue.

A consciência me impede de dar o próximo passo.

Deixe as pessoas tranqüilas. Não abra os olhos delas. Se você fizer isso, que vão elas ver? Deixe que continuem sonhando! A menos que, quando elas abrirem os olhos, você possa mostrar-lhes um mundo melhor. Você pode?

20 de set de 2004

Na minha lista (parte dois)


Donato,

depois de tantos anos, é um pouco difícil começar essa carta. tantos anos sem te ligar, sem nos encontrarmos, sem qualquer tipo de contato. depois de tantos outros anos de convivência diária, feito tico e teco. eu também não entendo qual é a distância que nos separa, talvez seja a distância do tempo. talvez a seja a distância dos passos que demos em direções opostas.

talvez seja justamente por isso que não te procurei durante tanto tempo. eu sempre pensei em fazê-lo, mas sempre achei que seria um pouco sem graça e um pouco sem assunto. sempre achei que nunca seria como antes, que isso era impossível. ainda acho isso, mas estou fazendo uma lista importante e você acabou aparecendo nela. então tomei coragem e escrevi essa carta.

tomei coragem de assumir que algumas pessoas fazem mesmo parte do passado. que algumas pessoas que um dia foram essenciais podem hoje não ser mais. você é essencial nas minhas lembranças, nas minhas referências. mas provavelmente vou continuar sem te ligar, sem te procurar nem nada disso. talvez eu não te ligue nem no dia do seu aniversário (porque na última vez foi meio desconfortável). essa distância nos cai bem. mas não tem jeito, eu não me esqueço de você.

um abraço,

Clóvis

13 de set de 2004

Homens de verdade

Eis o que é um homem de verdade. Um homem de sangue quente e ossatura sólida, que, quando sofre, deixa correr grandes lágrimas autênticas; quando está feliz, não expõe sua alegria, fazendo-a passar pela peneira da metafísica.

Risos artificiais, previsíveis, incapazes de emocionar ou de repercutir a emoção vivida. O riso e a gargalhada não são as únicas formas de dizer que algo de muito bom acabou de acontecer. Que tal ousar, explorar o caminho da metafísica, transformar essa energia em outra?

8 de set de 2004

Na minha lista (parte um)


Oi Cássia,

resolvi escrever essa carta porque no sabado assisti a "minha vida sem mim", um filme muito bonito. não sei se você já viu, tomara que sim. o lance é que, num determinado momento do filme, uma personagem resolvia fazer uma lista das coisas que queria fazer antes de morrer. pois é. não sei porque, e nem sei se vou saber, mas durante o filme me lembrei muito de você.

lembrei daquela nossa conversa na praia, do "o que é que a gente tá fazendo com a nossa vida?" (e eu ainda não sei o que é que me prende aqui e não me deixa transformar todos os meus dias em dias como aquele). lembrei daquele dia que andamos pra muito longe e depois descansamos na sombra de um barquinho simpático. lembrei da nossa despedida no aeroporto. do seu sorriso quando me viu parado e sem graça, atrás da pilastra.

eu acho isso tudo muito emocionante. porque a maioria dessas lembranças é de momentos sem palavras, ou em que as palavras eram secundárias. momentos em que outros tipos de ligação, em que outros tipos de comunicação pareciam sobrepor-se às palavras. em que o silêncio fazia bem, dava tranquilidade. em que a mera presença dava mais prazer do que qualquer palavra.

eu acho muito raro e muito bom encontrar pessoas assim. então eu resolvi colocar na minha lista: encontrar com você de novo. resolvi também te contar isso, porque acho que essas coisas fazem bem pra gente, são boas de ouvir e de dizer. não sei como vai ser entre a gente, mas agora é assim e eu gosto. e às vezes eu sinto saudade de você, do seu jeito e das nossas andanças.

um beijo,

Clóvis

4 de set de 2004

O máximo possível



A história começa com duas pessoas que se gostam muito e que, portanto, se vêem o máximo possível.

Os dois estão juntos há um mês e têm passado a maior parte do tempo dentro de casa, olhando um pra cara do outro. As despedidas diárias são sempre dolorosas, mas é uma dor que eles já conhecem. É uma sensação de morte, de dilaceramento, como se um pedaço fosse arrancado. Por causa disso, os dois regularmente sentem-se no fundo do poço, mas como já estiveram muito lá, sabem que não é o fim do mundo.

A história não termina.

23 de ago de 2004

Polaroid


Adoro minhas mãos. Adoro rir de mim mesma. Sou perdida por gente doida. Desprezo gente que se leva a sério. Adoro aristocratas. Durmo bem menos do que gostaria. Adoro gente que diz " é ruim, hein?!". Detesto gente que mitifica. Gosto muito de dirigir. Não gosto de mistério. Desprezo gente fiteira.

Mais ou menos assim. Um pouco partimpim.

13 de ago de 2004

Descobertas


Pensava sobre as pessoas e as coisas das quais mais sentia saudade.

Em alguns instantes descobriu que eram exatamente aquelas de que havia se despedido antes da hora, antes de quando queria fazê-lo. Depois, conversando com suas amigas, descobriu que era sempre assim, com todas as pessoas, com todas as saudades.

E, sendo assim, acabou descobrindo que aqueles amores que a gente guarda são algo muito mais simples do que imaginava. Descoberta essa que, de qualquer forma, não a fazia sentir-se melhor ou pior. Mas talvez ajudasse-a a ter mais cuidado nas despedidas e nas saudades.

- É preciso ter cuidado.

(valeria à pena levar relações ao seu limite? valeria à pena poupa-las, encerra-las antes da hora para que delas fossem guardadas boas lembranças?)

11 de ago de 2004

Assim


brincando

como se
não fosse
nada
muito
sério

como se
nada
fosse
muito
sério

vivendo
assim
meio
de graça

3 de ago de 2004

Que me desmonte



homme à la cheminée

Um homem ali, observando a lareira.
De repente o homem não é mais o mesmo.
E a lareira ali, intacta.

É tão bom quando a gente vê alguma coisa que desmonta a gente, que deixa a gente um caos. E pode ser ainda melhor se essa coisa for uma pessoa.

29 de jul de 2004

A sorte de um amor tranquilo


segunda
- e ontem foi tão bonito porque nele eu vi o meu passado, os que passaram. e ele foi capaz de despertar em mim algo de bom, de valioso sobre os que um dia rejeitei.

terça
- e hoje foi horrível.
- como assim?
- eu finjo (como sempre, desde uns tempos pra cá) que nada acontece em mim quando o encontro.
- e será que alguém ainda acredita nisso?
- eu não. e nem ele, imagino.
- e o que será que nele acontece no caso desses encontros?
- não sei. vejo-nos com os olhos baixos, desconversados, presos às formalidades e banalidades. sem que consigamos afastarmo-nos um passo sequer desse incômodo lugar. deixados a sós: banal, banal (sem ao menos uma piadinha mais arriscada, mais sugestiva). ele vai ao grupo e sigo-o até o momento em que percebo a minha inexistência instantânea, a minha ausência situacional. resolvo então assumi-la e sair da história.
- nossa...

quarta
- e hoje?
- através da janela eu o vejo. sozinho, em busca de alguém, de qualquer pessoa que não seja eu. parece ser apenas uma história que acontece através da janela, dentro dela. as demais são demais para mim. essa me basta.
- eu não sei como você aguenta...
- vestígios de confiança me conduzem a essa situação. todos os esforços para que (1) ele me veja, (2) pense que não o vi, (3) levante-se e (4) venha até mim.... (já haviam mais de oito passos traçados e nenhum ainda dado)

(de novo assim: uma vida a gente vive, a outra a gente guarda)

quinta
- e aí?
- passo então a acreditar que não deveria ser, prefiro assim. afirmo a mim mesmo que os amores são recíprocos, que dois que se amam aproveitariam as situações que encontram, que não seriam capazes de ignorar a improbabilidade dessa situação, nem a sua unicidade.
- entendi. em todos os meus amores foi assim também. nos grandes amores e nos grandes prazeres. nos outros, a autoridade e a hierarquia, as relações de favorecido e favorecedor aniquilaram tudo.
- então acabou, prefiro assim. que esses favores eu não peço a ninguém.

9 de jul de 2004

Carta para Marina


Odeio essa distância que nos separa. Odeio não estarmos mais ligadas pelos laços da vida em comum que a infância - mesmo em lugares tão diferentes - proporciona. Odeio termos tomado rumos tão diferentes e agora existir comum à nós apenas o laço da amizade. Porque à vezes ponho em dúvida a força desse laço e fico me perguntando se eventualmente ele não pode vir a arrebentar.

Me assusta ficar tanto tempo sem conversar com você; você que tantas vezes foi a minha própria voz, que tantas vezes foi minha irmã, que usei para dizer à mim o que eu gostaria de dizer; que tantas vezes foi minha porta voz à mim mesma.

Você que tantas vezes foi quem me segurou de pé, me segurou no colo, e de tantos outros modos que eu não saberia precisar nem tampouco entender. Ou explicar.

Me lembro quando a conheci, época em que três anos a menos ou a mais era o que diferenciava uma criança de uma moça; mas penso que nunca foi problema para nós, passamos por tudo quase que simultaneamente. Uma precoce demais, a outra atrasada demais, e entre demoras e adiantamentos encontramos juntas no tic tac do relógio o nosso próprio tempo.

Conversar com você sempre foi o mesmo que conversar comigo, perdi a conta de quantas cartas à você comecei confusa e finalizei esclarecida após relatar-te os fatos. Fatos que eu repetia vinte vezes em no máximo vinte e três folhas, frente e verso; e você lia e comentava cada frase, cada intenção. Sem falar nos envelopes gigantescos destinados aos nomes mais estranhos possíveis aos olhos dos carteiros e dos vizinhos. Sinto falta desse chão que você sempre foi para mim.

Talvez porque a infância terminou e passamos de adolescentes à adultas sem que nos déssemos conta, e acabamos por aprender a sermos nosso próprio chão. À dar à nós nossos próprios colos.

Isso nos faz independentes. E reduz nossa ligação à meros laços de amor que criamos durante os anos. Não mais a vida em comum. Não mais os mesmos caminhos. Não mais os mesmos ideais e provavelmente nem mais os mesmos planos. Que dirá então, um futuro em comum.

Laços de amor e de amizade. Amizade que não é mais a mesma, que deu espaço à trabalhos, obrigações, preguiças, namoros, amigos fisicamente próximos, e tantas outras fatalidades? obstáculos? interesses? que às vezes me parecem terem alcançado o que os quilômetros jamais conseguiram.

Me pergunto então, se o laço que nos une é mesmo assim frágil a ponto de partir-se de fato. Ou ainda, simplesmente soltar-se... e caso isso viesse a acontecer, estaríamos afinal livres uma da outra, soltas pelo espaço flutuando...

Tento descobrir o que seria então de mim. O que seria de nós. Reduziríamos à nada uma à outra.

Sinto medo. Medo de não precisar mais que seja meu chão; medo que talvez você também não me precise mais. Medo de ter crescido e, inevitável, ter-me tornado sozinha como qualquer pessoa.

Mais medo ainda por perceber que hoje preciso de você de outra forma. Pela simples existência destes laços de amizade e amor que formaram-se com o passar destes anos; que são a única coisa que agora resta-nos em comum.

E que eu espero serem fortes o suficiente para não deixar que nos percamos eu de você e você de mim; pelo único motivo de eu te amar tanto assim e você ser ainda, a minha número um.


Esse texto não fui eu quem escreveu, foi a Thaís Capusso. Eu não a conheço. Ele estava aqui guardado e resolvi postar, já que vou viajar e não tinha nada pertinente pronto. Acho-o bom de ler, de pensar. Bom, é isso: amanhã bem cedo lanço-me formalmente ao acaso. Cazuza para todos!

1 de jul de 2004

A gente inventa


O nosso amor a gente inventa pra se distrair...

Os românticos certamente condenariam essa afirmação. Os mais céticos, por sua vez, perguntariam o que é que a gente não inventa. E será que tudo não é mesmo invenção? Que seja, então. Mas que idéia boa é inventar um amor, não há jeito melhor de se distrair.

25 de jun de 2004

Corpo humano


E se eu gosto de músculos deve ser por causa da consistência deles. Mas eu gosto mais quando consigo envolvê-los na minha mão. Quando posso acreditar que por um instante faço parte e estimulo aquela rigidez. E se eu não gosto de banha deve ser porque ela se espalha à medida que eu pressiono. E muda de forma. E não oferece a mínima resistência, até chegar no osso. Por isso é que eu devo gostar de osso: porque para mudar os ossos de uma pessoa é preciso um mínimo de violência. E eu gosto do que não se adapta a mim. Gosto de relacionar-me com algo de imutável e de exclusivo. Não preciso que ninguém se vista de mim para ter acesso ao que ofereço. Esse acesso é inevitável. Prefiro que as pessoas continuem vestidas como as encontrei e que por trás de cada traje hajam músculos e ossos a espera. Músculos em busca de estímulos e ossos satisfeitos, calcificados. E que não haja banha, porque não quero interromper o estado de nada. Quero potencializar. Essencialmente de um, potencialmente de todos.

18 de jun de 2004

Aos mestres


Tem professores que corrigem os trabalhos dos alunos, mas eu os leio. Da mesma forma que leio os meus autores, leio os meus alunos. Ler um trabalho é bem diferente de corrigi-lo.

Professora Roberta

Algo como um respeito independente, inerente a qualquer relação. Uma predisposição à troca, uma libertação de hierarquias e formalizações. Tudo isso a qualquer momento, com qualquer pessoa. Em suma, a onda do momento: livrar-se de pressupostos.

11 de jun de 2004

O que é divino



Eu acho que levar a sério tensiona, deixa você ineficaz, porque você fica intelectualizando as coisas. Eu acho que nada que é sério demais pode ser divino, sabe? O Domingos fala isso. O Domingos fala um negócio que é maravilhoso, que depois que você pensa, ele fala: "Tudo que é divino é sem esforço". O momento do gozo não tem esforço. Tem aquela coisa toda antes, mas na hora do êxtase ele é sem esforço. E tem que ser. E eu fui descobrindo isso, porque eu não tinha prática...

E não é que a Maitê tem as suas afinidades com o Nikos... Nessa entrevista ela fala sobre o trabalho, mas me atrevo a dizer que é sobre a vida também. "Tudo o que é divino é sem esforço": além de um ótimo jeito de ver as coisas, uma boa frase pra tatuagem (será?).

5 de jun de 2004

Devaneios midiáticos


Já faz um tempo que assisto à novela das sete sempre que posso. E morro de rir. Gosto dela porque o autor está livre de qualquer compromisso com a verossimilhança ou com a representação da realidade. Uma novela leve, enfim. Num dia qualquer dessa semana, assisti à seguinte cena:

Ulisses, Verinha e Eduardo na sala de um apartamento chique. Ulisses tenta fugir do apartamento com um baú pesado, cheio de ouro. Num determinado momento, Eduardo bate com uma frigideira na cabeça de Ulisses, que desmaia. Nesse instante Verinha (Maitê) pára a cena e pergunta a Eduardo: "Espere aí! O que é que uma frigideira estava fazendo no meio da sala?". E Eduardo responde: "Providência divina!".

Providência divina que nada. Tratava-se de uma licença poética, em plena novela das sete. E dessa vez o autor resolveu dar voz - e resposta - aos telespectadores mais acostumados com o realismo excessivo que permeia as novelas. Genial.

Mas fica a pergunta: será que a Maitê participou da concepção da cena? Aliás, se vir alguma entrevista com a Maitê, não perca. Ela é surpreendente.

28 de mai de 2004

Devaneios midiáticos


- Eu quase não vejo televisão.
- Você é que tá certo. Eu vejo bastante. Vejo muita novela.
- É mesmo? Você gosta?
- Mais ou menos, mas minha namorada adora...
- Sei.
- Aí eu tenho que ver novela. Por que, se não, a gente vai conversar sobre o quê?

17 de mai de 2004

Último dia


Outro dia fui numa palestra do Ronaldo Fraga, e lá assisti a um compacto de todos os desfiles dele. Uma de suas coleções era inspirada nas mulheres do Vale do Jequitinhonha. Ele contou que, quando esteve lá, percebeu que aquelas mulheres eram especialmente fascinadas pelo casamento. Depois o Ronaldo descobriu que tais mulheres, de um modo geral, acreditavam que o instante em que se casavam seria o último momento de felicidade em suas vidas.

11 de mai de 2004

Carência


- Com essa iniciativa pretendemos ajudar mais uma comunidade carente...
- Me desculpe, senhor, mas aqui nós somos pobres.
- Sim, carentes...
- Não. Carentes são vocês que querem comprar camiseta, calça, DVD, carro e não podem. Aqui nós somos pobres.


Ouvi dizer que o consumo cria a carência. Algo como o princípio budista que afirma que o desejo é a razão do sofrimento.

23 de abr de 2004

Pra virar borboleta (parte um)

Oi Clóvis,

estou fingindo que estou bem, e acho que está dando certo. passei lápis no olho. a Ângela falou que fico bonita. eu estou bem só, e acho que logo nem vou estar tão só assim. tenho tido várias coisas pra fazer e preenchido muito bem o meu tempo. o que me preocupa são as férias de julho, aí não sei mesmo como vou fazer com o meu tempo e a minha solidão. aí sim. fudeu tudo. mas para as férias de verão, eu e a Ângela fazemos planos de ir pro México.

hoje eu e a Ângela vamos tomar uma bebida mais tarde, mas não muito tarde porque temos provas amanhã. as aulas já estão quase todas no fim. me alegro. poder dormir muito me faz feliz sempre. é nos sonhos que vivo minha vida feliz, porque qualquer merda acaba quando acordo. adoro dormir. depois de uma bebedeira então...

agora mesmo eu penso em muita coisa: em não ir à aula amanhã, em dar uma passadinha na biblioteca, em pular pela janela. penso em ser alguém assim: séria e chata e sozinha. em sumir num buraco fundo do mundo. eu queria deixar de existir. eu penso sim, tudo isso é idiota e eu sei, mas já não quero resistir ao impulso de deixar de pulsar para sempre.

eu suspiro fundo e me sobe um nó, acho que hoje ele não vira borboleta, acho que, como ontem, ele vai ser lágrimas. amarga e cinza hoje. amarga, cinza e sem gosto. eu vou perdendo todo o gosto que tenho pelas coisas, por tudo. mas eu ainda gosto do copo de bebida e isso começa a me preocupar. eu queria ter um espaço no colo de alguém que fosse querido. e sou idiota e me sinto assim agora, por isso penso em parar de escrever.

um beijo,
Sônia

ps. me liga depois, e se eu não te ligo é porque só você sabe do seu tempo e das suas coisas.

22 de abr de 2004

Pra virar borboleta (parte dois)


Oi Clóvis,

você não vai acreditar. acabei ouvindo um monte de desaforos. fiquei triste e chorei escondidinha no banheiro, voltei pra mesa decidida a encher a cara. eu bebi como nunca. foi ótimo. tinha um cara na mesa e eu fiquei falando minhas bobagens com ele e ele achou o máximo. disse que eu era poeta. fui embora pra casa bêbada e feliz. acordei cansada, não fui à aula, tomei um banho de duas horas e chorei bastante.

estou muito curiosa pra saber como foi o final da sua noite de ontem. pois é... fico amargurada pensando nas suas coisas, no jeito que você pode ter ficado. hoje eu não estou nada direta. hoje acho que vou sair pra beber com a Ângela. eu acho que estou ficando um pouco boba. entenda como quiser. mas não mate mais as suas aulas de redação. isso não.

eu já queria te ligar mas acho que não devo. e não sei o que faço. e não sei o que penso. puxa, acho que sua conversa de ontem me deixou com as idéias um pouco embaraçadas. e já tenho elas um pouco frouxas. e penso que talvez você me ligasse, mas você não liga, e não quero fazer disso tudo um drama.

acho que vou começar minha academia também, já não tenho nada a perder. eu queria continuar conversando, mas acho que assim aqui sozinha não tem jeito. bem, se você quiser tomar uma bebida, eu estou disponível todos os dias da semana.

um beijo,
Sônia

21 de abr de 2004

Pra virar borboleta (parte três)

Oi Clóvis,

ontem eu cheguei da aula e pedi pro meu pai me levar no bar. ele não quis me levar, perguntou "esse negócio de buteco agora é todo dia?". só agora ele percebeu. e não me levou porque disse que é contra tudo isso.

fui a pé, sozinha e puta, quando parou um moço me perguntando ruas. eu disse tudo e pedi uma carona. simpático o rapaz. foi me contando que fazia psicologia e tal. o trânsito estava horrível. meia hora depois ele me deixou no bar, eu pedi desculpas por qualquer loucura, ele riu. foi uma aventurinha simpática.

toda a raiva que o meu pai me fez passou. mas adivinha quem estava no bar? falei um monte de bobagens. ele ficou irritado porque não sabe falar dessas coisas, gritou comigo. fiquei entalada, quis ir embora, chorei meia lágrima. ruim.

fiquei triste e quis ficar bêbada pra esquecer. foi o que aconteceu, e eu fiquei me achando um pouco idiota. foi uma bebedeira sem fim, até cachaça eu tomei. fui embora de táxi com a Ângela, dormi bem e hoje no primeiro horário não tive aula. voltei para casa, dormi mais e voltei. aqui estou eu, só e simplesmente. feliz.

um beijo,
Sônia

20 de abr de 2004

Pra virar borboleta (parte quatro)


Clóvis, Clóvis...

eu queria poder esquecer tudo isso de uma vez, não consigo. não o procuro mais, ele não me procura. eu queria devolver todas as lembranças que estão comigo.

eu queria ter um amigo bom, sabe? pra ir além do que eu já sei. mas acho mesmo que não estou boa, nem pra ser boa amiga. tempos difíceis? estou lotada de coisas pra fazer, eu não quero, não tenho a menor inspiração. hoje fiz uma provinha mais ou menos, recebi outras com notinhas mais ou menos, achei ruim.

eu acho que estou quase me arrastando, odeio isso. e toda a verdade é que tudo isso pode mudar fácil assim, num estalar, mas ainda não sei. ainda não achei nada que me fizesse ver de outra forma. eu já nem quero mais ver nada - e se pudesse dormir todas as minhas horas...

nem o horóscopo me dá mais esperanças. eu nem queria ficar te falando essas bobagens, não leve em consideração. acho até que caberia alguma desculpa por aqui.

estou louca para receber todo o meu dinheirinho semana que vem, e vou me drogar e morrer de rir. se eu fosse pra bem longe ia ser bom. ou não.

um beijo,
Sônia

19 de abr de 2004

Pra virar borboleta (parte cinco)


Oi Clóvis,

que bom que você gostou das palavras, eu estava inspiradinha sim. gostei das suas também, acho sempre que tudo pode ser muito mais simples do que nos parece. achei divertido que você achou de tudo sobre essa situação, e estaria mentindo se te dissesse que não pensei de tudo também.

ontem eu fui lá na casa e vi como nunca que foi o fim de tudo. fiquei que era um lixo, ainda estou um pouco péssima, hoje acho que vou tomar vodka. eu estava voltando de lá quando te encontrei. pena que não pudemos conversar. que saco. mas ia ser um pouco saco pra você também, eu estava chorosa que só, e ainda estou se penso em tudo. aquela sensação de nó na garganta...

estou louca, vou fumar um cigarro.

um beijo,
Sônia

18 de abr de 2004

Pra virar borboleta (parte seis)


Oi Clóvis,

acabei passando o feriado bem quietinha, com um pouco de saudade, mas é isso mesmo. um pouco só, com meus pais no sítio da vovó, uns programinhas um pouco meus mesmo, por aí. foi bom porque preferi assim, acho que estou um pouco mais lúcida pra pensar, pra saber de mim e das minhas coisas.

no sítio, pensei e resolvi ser só. resolvi aceitar isso, né? que não dependo de nada, de ninguém pra ser o que sou, assim, eu mesma. eu estou mais tranqüila. menos ansiosa. um pouco mais livre do que eu imaginava.

ontem eu aluguei Frida e achei o máximo. foi sem dúvida o melhor filme que vi esse ano. hoje acho que vou alugar Thelma e Louise. e tal. bem, fiquei agora um tanto sem assunto e um tanto desconfortável, e é fato que fico por aqui.

um beijo,
Sônia

17 de abr de 2004

Pra virar borboleta (parte final)


Oi Clóvis,

te escrevo hoje em resposta ao seu poema, que gostei. e se pensei em te analisar através dele, desisti. mas gosto muito das meias palavras, da palavra sã. gosto porque se subentende algo, gosto porque não sou muito direta. e por falar em não ser direta, não vou falar nada sobre aquilo. nem vou perguntar nada.

te confesso que ainda tenho medo, porque não sei como seria se me procurasse, eu não sei se ia achar bom ou ruim. e isso eu sei que não é bom. mas é isso.

achei bonito você dizer que vai ter que ver Frida com um outro alguém. mas não deixe de ver nunca, acho que você vai gostar até chorar.

e no mais, ando tranqüila pelas curvas de minha vida. fumo um cigarrinho e me deparo com tudo de grande que encontro em mim, me conheço. acho mesmo é que vou começar a viver minha vida, essa semana acho que nem bebo. é aquela coisa de finalmente enfrentar tudo o que ainda está por vir.

sábado é o aniversário da Ângela, e com certeza vai estar muito bom. todos os aniversários da Ângela foram bons. te espero lá. você sabe onde.

um beijo,
Sônia

5 de abr de 2004

Porque é tu mesmo


Meu Deus combate sem nenhuma certeza. Vencerá? Será vencido? Não existe nada certo no Universo; ele se lança ao incerto e joga a cada instante todo o seu destino. Apega-se aos corpos quentes; não tem outra defesa. Pede socorro; proclama a mobilização por todo o Universo. É dever nosso, ao ouvir-lhe o grito, correr ao encontro de seus estandartes para combater ao seu lado. Para nos salvarmos ou nos perdermos com ele. Deus corre perigo. Não é onipotente para que possamos cruzar os braços à espera da vitória; não é todo bondade para que possamos confiantemente esperar que se compadeça de nós e nos salve.

23 de mar de 2004

Pra cá

segunda feira, 2:13 AM

- Alô.
(Elena não diz nada)
- Alô.
(Elena sorri e não diz nada)
- Fala, Elena.
- Oi. Desculpe. É que eu achei que você não fosse atender.
- Como assim?
- Ah. Já é tarde... É segunda feira... Achei que você estivesse dormindo.
- Então você me ligou, mas não queria que eu atendesse?
- Ah. Não sei. Eu queria que você acordasse amanhã e visse que eu tinha te ligado. Só isso.

(Elena sabia que não precisava dizer mais nada. Ele já havia entendido.)

11 de mar de 2004

Envenenados


Há muito tempo não conversávamos desse jeito. É certo que nunca fomos grandes amigos, mas antes mesmo desse dia já havíamos tido conversas inesquecíveis. E vivido momentos inesquecíveis. Descobertas, aventuras, vexames. Um dia passado ao lado do outro era sempre memorável. Mas sendo a vida irônica como é, acabamos sendo separados. Por meses. É inegável que aqueles foram bons meses para ambos. Inegável também é que aquela distância tornava cada raro encontro ainda mais prazeroso. Algumas palavras trocadas e já ficávamos satisfeitos. Então, nesse dia, depois de meses, o acaso nos uniu. De uma situação banal ressurgiu ainda mais plena aquela antiga relação, quando sobre nós já não atuavam mais as antigas distrações. A bebida, as afinidades, os desejos. Horas se passaram. Diversas histórias foram narradas. Era tarde e seria natural que nos despedíssemos. Olhamo-nos um ao outro.

Estávamos ambos fatigados, mas não queríamos perder o veneno desse dia. O sono aparecia-nos como uma fuga à hora do perigo, e tínhamos vergonha de ir para a cama.


9 de mar de 2004

Eis nossa obra


Observá-lo era muito fácil: quanto mais alto, mais exposto. Durante anos, todos os seus esforços eram rumo ao alto, todos os seus artifícios. E eram muitos os artifícios e se estendiam a todos. Não havia limite algum. Princípio algum. O fim era bem claro, o tempo todo.

Ele flutuava porque já não havia onde pisar. E muito menos onde se agarrar. Aliás, as suas mãos estavam sempre ocupadas, assim como os seus olhos e a sua mente. Estavam todos a serviço. Em busca de um lugar onde pudesse ser mais visto, ainda que com menos nitidez. Fazendo o que fosse preciso para cativar os outros:

apaixonar-se sempre
amar sempre, a todos
ser bom e generoso, sempre
simpático também
cativante, afinal

Ele parecia descer, mas essencialmente continuava no alto, entre nobrezas, amores, genialidades, honras, realizações. Tudo muito cheio de pompa, de valor. Todos os seus gestos soavam como favores. Tudo descia dele com muito mais força, trazia consigo o peso da gravidade. Isso tornava-o insuportável.

Ao descer, várias vezes apoiou-se em meus ombros. Até o dia em que a minha cabeça não estava lá, nem as minhas pequenas verdades instantâneas.

Ele acaba de cair no chão. Mesmo no chão ele flutua, não é capaz de misturar-se. Está imóvel. Não há, há muito tempo, ninguém perto dele, ninguém que obstrua a minha visão. Assim, continua muito fácil observá-lo: nenhum vestígio de paz por perto.

28 de fev de 2004

4.1.Justificativa


É curioso pensar em todos os seres humanos que passam a vida inteira sem fazer nenhum comentário, nenhuma objeção, nenhuma observação. Não que tais comentários e observações tenham um destinatário ou um sentido qualquer; mas (...) mesmo assim acho preferível que sejam feitos.

Michel Houellebecq

23 de fev de 2004

Duas medidas


Se houverem dois pesos, haverão sempre duas medidas.

Nesse provérbio eu boto fé.

Que medo e que liberdade. Sobretudo, que imprevisibilidade das coisas, completamente entregues ao acaso.

18 de fev de 2004

Devaneios dominicais


Dizem que as baratas só possuem três segundos de memória. Se você dá um peteleco numa barata, ela corre, mas logo pára, porque esquece o motivo da afobação.

16 de fev de 2004

Infeliz compromisso


Havia nela algo como a obrigação de atestar aos outros que havia optado pelo melhor caminho. A atestação que dava-se aos outros, pois ninguém pode enganar a si mesmo. Algo como a renovação da sua auto estima e da sua imagem pública.

- Apenas indo ao baile eu encontrei diversão suficente para a noite de ontem. Eu não precisava de mais nada. Recolher-me aos meus aposentos era mesmo o melhor a se fazer.
- Guarde isso para si, amável donzela. Aos colegas da corte, esse comentário de nada vale. E se, para mim, o insosso baile não trouxe diversão, ah, isso é apenas do meu interesse.
- Desculpe-me, mas eu não o ouvi.
- Desculpe-me também, mas não vou repetir. A propósito, a senhorita sabe que o dia de ontem foi severo para mim. O que, então, a senhorita gostaria de dizer-me, ao expor que se divertiu no baile?

Algo como a renovação da sua auto estima e da sua imagem pública. Estavam, ainda, intimamente relacionadas, afinal.

12 de fev de 2004

Aleatório


Uma noite qualquer, conversando com um amigo, música alta no fundo.

- Só que ele é muito complicado de se relacionar.
- Quem?
- De se relacionar.
- Ah. Você é muito complicado, eu sei.
- Como assim? Você sabe o quê?
- Ah, você é muito instável, né...


Tudo seria diferente se sempre conversássemos com música alta no fundo. Assim, conversando por meio de palavras ainda mais embaçadas e ambíguas, sempre escutaríamos (por pura escolha) algo mais parecido com o que queríamos escutar. E, diante disso, seríamos mais livres para dizer o que queríamos dizer, ainda que essas palavras soassem completamente fora de contexto.

10 de fev de 2004

Eternamente


A nossa essência é a luta. Nessa luta, desenvolvem-se e atuam perenemente a dor, a alegria e a esperança. A ascensão, o combate com a corrente antagônica, gera a dor. Mas esta não é um monarca absoluto. Cada passageiro equilíbrio no curso da ascensão enche de alegria todo ser vivo. Mas de dentro da alegria e da dor salta perenemente a esperança de libertar-nos da dor, de expandirmos a alegria. E recomeça a ascensão - a dor - e renasce a alegria e salta uma nova esperança. O círculo jamais se fecha. Não é um círculo; é um redemoinho que está eternamente subindo, alargando-se, girando, desenvolvendo a grande luta.

No meio do redemoinho vamos nós. E ainda que, naufragados na alegria, estejamos momentaneamente livres da dor, a esperança aparece como força maior. Ela leva-nos a abandonar a alegria antiga e dá-nos força para superar qualquer dor. Tudo isso para que nos lancemos ao próximo instante, sempre desconhecido.

A esperança embaça-se, então, a apenas cinco centímetros dos meus olhos. E quando afasto-a do meu rosto, para assim poder vê-la melhor, ela me aparece com outra face. Desaparece, nesse instante, o seu caráter sagrado e inocente. E desprovida da consolidada embalagem, assemelha-se muito à ambição.

Eternamente subindo, alargando-se, girando...

Eternamente.

9 de fev de 2004

Mover moinhos


Cristina era o tipo de pessoa que olhava para os dois lados antes de arrancar o carro, no sinal. Plenamente capaz de, numa grande roda de conhecidos, perder piadas promissoras só para poupar alguém de pequenos e insustentáveis constrangimentos.

2 de fev de 2004

Paisagem


- Alô.
- Alô. Quem está falando?
- É Elena.
- Elena, acho que a gente não se conhece e na verdade eu queria mesmo era falar com um amigo meu, mas o telefone dele estava ocupado e o seu estava aqui, anotado no bloquinho... Bom, então eu acho que vou falar com você mesmo, você se incomoda?
(Elena sorri discretamente e não diz nada)
- Elena, sabe quando algumas coisas que antes eram importantes deixam de importar e tudo o que você quer é prosseguir na estrada, calmamente, vendo tudo o que há de bonito na paisagem? E aí você descobre que há muito mais nessa estrada do que você seria capaz de imaginar. E aí você resolve desacelerar um pouco, para que alguns daqueles que ficaram lá atrás se aproximem. E aí você percebe que eles são partes importantes dessa estrada e dessa paisagem. E aí você continua, sem temor algum, por ver lá na frente uma paisagem ainda mais bonita.
- Sei, sim. Esse é você?
- Isso. Eu vejo uma paisagem muito bonita lá na frente, e também ao meu lado. E eu queria ter três ou quatro olhos para poder enxergar mais e enxergar sempre. E enxergar também o que acontece atrás de mim. Mas aí eu me lembro que isso não é possível, e nem por isso eu perco a calma. A paisagem me preenche e me tranquiliza.
- Um dia eu ouvi que paisagem é tudo aquilo que devolve o olhar. Você deve estar apaixonado.(Ele sorri discretamente e não diz nada)

Ele e Elena despedem-se. Os dois colocam o telefone no gancho ao mesmo tempo. E por alguns minutos não tiram os olhos do aparelho.


29 de jan de 2004

Realeza


não espera a certeza chegar
sabe que não há certeza
leva-se pela leveza
que arriscar é ter beleza

24 de jan de 2004

Para viver à beira do abismo



Busco a verdade através do meu trabalho. Afinal, o público não vem ao cinema para ver atores ou personagens, mas para saber alguma coisa sobre si mesmo.

Juliane Moore

Por isso vou ao cinema.

22 de jan de 2004

A preferida


A preguiça é a máscara preferida do medo de se arriscar e da constatação de que não há nada de extraordinário a ser feito.

16 de jan de 2004

As it comes


Valorizo tudo o que há de simplório em mim. Procuro os gostos mais óbvios e gratuitos. Rejeito toda forma de complexidade. Retorno aos sentimentos mais previsíveis e banais. Afasto-me da tendência a surpreender. Busco ser cíclico. Linear. Ando calmamente pela calçada. Dou seta antes de virar e olho para os dois lados antes de atravessar. A rotina seduz-me à medida que torna-se imperceptível. Procuro desesperadamente um vício. Uma leve neurose que indique-me apenas um caminho, de preferência calmo e silencioso. Deixo-me levar pela onda, ainda que barulhenta, se esse for o caso. Sonho em fechar os olhos e tampar os ouvidos, às vezes. Esforço-me, num único esforço, para ser capaz de deslizar suavemente até o abismo.

12 de jan de 2004

Incidências


As coincidências encontradas após qualquer tipo de procura devem ser desconsideradas.

Primeiro, porque são tantas.
Segundo, porque quem procura sempre acha.

11 de jan de 2004

Desconhecida


O que era exatamente aquela sua curiosidade sobre o que se passava dentro e fora dos outros?

Curiosidade até então inofensiva, até então insaciável, que lhe parecia pouco saudável. Talvez essa fosse uma visão cultural das coisas. Bla bla bla. A curiosidade persistia, e restringia-se aos presentes. Os distantes, assim como as palavras por eles proferidas, mantinham-se firmes em segundo plano.

Assim, cada janela aparecia-lhe como uma possibilidade. Cada transeunte - uns mais e outros menos - aparecia-lhe como um candidato à próxima palavra ou ao próximo abraço ou ao próximo beijo. Sua fixação pelo desconhecido e pelo imediato gratuito casual consumia-lhe deliciosamente. Resolveu que os motores da sua vida seriam os pulsos imediatistas, que essa seria a sua natureza. Aboliu os compromissos formais com o vivido, o prometido e o subentendido. Esquivava-se também dos planos, dos desejos maiores e dos previamente arquitetados. Libertava-se à medida que, por puro gosto, passava reto em frente à porta da sua casa, rumo à até então desconhecida próxima esquina.

Mas havia alguém que, misteriosamente, sempre trazia-lhe de volta dos tais passeios. Com muita discrição. E isso muito lhe agradava. Será que, quanto mais alto está o patrão, mais longa se torna a corda da escravatura? O escravo pode então agitar-se numa arena mais espaçosa, e morrerá sem nunca ter encontrado a corda. Será isso então que chamamos de liberdade?