24 de mar. de 2005

Especulando


Os pobres cada vez mais pobres; os ricos cada vez mais ricos e mais isolados (mas nunca o suficiente). E a riqueza anda tão afastada da produção. Seu terreno contemporâneo é a especulação.

1 de mar. de 2005

Working class


O tédio pode ser dividido em dois tipos: o da indiferença e o da insatisfação permanente. Qualquer afirmação de vazio existencial traz consigo uma pretensão absurda, uma covardia disfarçada. Qual seria o mal contido nos fúteis propósitos, responsável pela rejeição dos mesmos? Chego a dizer que os grandes dramas da existência acontecem nos subúrbios, na working class.

4 de fev. de 2005

Instantânea


Eu pensei que fosse o início da felicidade. Mas era a própria felicidade, naquele exato momento. Desde então percebi que é só nesse estado que a felicidade existe, sem anúncio, sem despedida.

14 de dez. de 2004

Sobre ela


Parece-me que ela não foi criada com o objetivo de agradar. Parece que foi apagada pouco a pouco. Acabou tomando um aparente medo da vida. Ela não é o tipo de pessoa que faz catarse. Parece incrustada em alguma coisa que ninguém vê. Genuínamente existindo. Ao invés de explodir em risos e lágrimas selvagens, em palavras ditas num tom acima, ela fez outra escolha.

30 de nov. de 2004

Ao redor


Tem gente que anda olhando pra baixo. Deus me livre. Imagina se alguém me dá um sorriso e eu não vejo.

29 de nov. de 2004

Pulo fora



É, porque acho que ficamos felizes ou tristes em função de coisas que acontecem. E a felicidade também não é o melhor estado. Assim como a depressão e a tristeza, a felicidade e a alegria são barulhentas demais. Por isso, sinto-me plena quando estou tranqüila.

Maitê (coisa feia)

27 de nov. de 2004

Bancando o palhaço


O pessoal do hospital não gostava muito de mim, na certa achava que eu era inerte demais; até no hospital, e quem sabe no leito de morte, você é condenado a bancar o palhaço.

Michel Houllebecq

19 de nov. de 2004

Serenidade


A tarefa parecia-me cada vez mais fácil. Era absolutamente tediosa, o que não me desagradava, pois podia assim ocupar minha mente com outras coisas. (...) Chamava esse estado de serenidade escritural. Não era tão grande a diferença entre a função de monge copista, na Idade Média, e a minha... Como era bom viver sem orgulho nem inteligência. Eu estava hibernando.

Amélie Nothomb

11 de nov. de 2004

Introdução



O amor faz passar o tempo. O tempo faz passar o amor.

Quem me disse foi um senhor de sessenta anos.

9 de nov. de 2004

São mais de dois


Suspeito que atrás de todas as aparências há uma essência em luta. Quero unir-me a ela. Suspeito que a essência em luta busca também, atrás das aparências, unir-se ao meu coração. Mas o corpo se ergue entre nós e nos separa. A mente se ergue entre nós e nos separa.

3 de nov. de 2004

Assim por diante


Numa conversa sobre fidelidade...

A ocasião faz o ladrão.
A bebida faz a ocasião
Logo, a bebida faz o ladrão.
Quem não bebe não trai.

E assim por diante.

29 de out. de 2004

Brigitte (parte um)


aquele dia fora amarelo. Brigitte queria que tivesse sido azul como o céu estrelado, como nunca. talvez nem no dia em que Osvaldo e ela se encontraram pela primeira vez. mas a noite estava estrelada, e era isso o que lhe importava.

isso prometia que, no dia seguinte àquele, Osvaldo esperaria pelo que nunca aconteceria. Brigitte havia decidido fazer aquilo porque o coração de Osvaldo não permitia que a felicidade entrasse. Osvaldo temia que a nova felicidade fosse maior que a vida que ele havia sonhado para si, durante toda a sua juventude.

surpresa, era assim que Brigitte estava naquele instante, e nada parecia poder retirá-la daquele imprevisível estado, em que todos nos encontramos.

ela beijou Osvaldo no rosto e adormeceu.

28 de out. de 2004

Brigitte (parte dois)


horas depois, acordou.

Brigitte gostava de sair de casa todo dia às seis horas da manhã. ela seguia, até então, o ritual que inventara quando criança:

ao pisar fora de casa, olhava para o céu e respirava três vezes enquanto mentalizava a palavra amor,

amor, palavra que antes - e até então - parecia-lhe um grande enigma. talvez o maior deles. mas naquele instante tudo lhe apareceu claramente (obviamente) e ela decidiu que era hora de dar um abraço em Osvaldo. entregaria-se a outro na noite daquele novo dia. e agora, que iria separar-se de Osvaldo, não sabia se conseguiria repetir aquele ritual de todos os dias. o ritual parecia-lhe completamente desnecessário. amava-se, afinal.

Brigitte levantou-se. olhou para Osvaldo e disse: "nunca mais".

preparou-se para um encontro. saiu de casa correndo, numa agitação de cabelos e pulseiras balançando.

27 de out. de 2004

Brigitte (parte três)


ao abrir a porta, Brigitte surpreendeu-se de novo: todos observavam uma cena armada por um casal de barraqueiros, que só queriam arrumar confusão. ela não queria mais. decidiu dar meia volta.

parou no meio da meia volta.

olhou ao seu redor
e não encontrou ninguém
a quem admirasse ou
a quem devesse qualquer forma especial de respeito.

Brigitte libertou-se então da moral que a atormentara durante toda a sua vida. agora sentia aquele gostoso sentimento sem nenhuma culpa.

enquanto isso, ela chupava um picolé, um dos mais gelados que já havia experimentado. nada em sua memória comparava-se àquele frio, àquela paralização, àquela imobilidade.

foi quando ouviu uma buzina e, num rompante, bateu a porta, prendeu os cabelos e soltou algumas pulseiras no ar.

ajeitou seu vestido. caminhou dois quarteirões.

26 de out. de 2004

Brigitte (parte quatro)


sentou-se na calçada. esperava pelo primeiro carro que passasse. só iria de carro, porque se alguém passasse a pé, ainda que tivesse boa vontade, não poderia levá-la muito longe de casa. e, apesar da distância enorme que a separaria de seus pais e irmãos, Brigitte não se sentiria sozinha.

ela apenas sentia-se incomodada pela inércia que comandara os últimos dias. sentia-se presa a uma vida que não adequava-se aos seus planos nem aos seus desejos, agora incontroláveis.

Brigitte sentiu então que o clima daquele lugar lhe fazia bem. já há muito tempo não passavam carros nem pessoas. ela gostava de sentir-se. ali mesmo. na calçada.

a sua vida poderia transformar-se. antes mesmo que qualquer carro ou kombi ou caminhão passasse e a levasse dali.

horas se passaram. Brigitte experimentava-se.

25 de out. de 2004

Brigitte (parte final)


enquanto isso, dois carros e uma caminhonete ofereceram-se para levar Brigitte daquele lugar. aguardavam a decisão dela, enfileirados.

ainda naquela tarde, Brigitte precisava decidir entre os um dos três caminhos recém-aparecidos em sua vida. precisava ponderar devidamente as promessas e os custos de cada caminho. confiante e decidida, optou pela segunda opção, que poderia trazer-lhe, no futuro, maior felicidade.

"mas nada é precedente e nada pode garantir ganhos futuros. as variáveis sobrepõem-se o tempo todo e a natureza das coisas é nitidamente imediata",

foi o que pensou, um minuto depois. sua escolha persistia pendente. era preciso pensar nas consequências imediatas e abandonar os grandes planos, antes postos em primeiro lugar.

sim, ela mudara de opinião. tinha esse direito. não queria agora o caminho mais difícil. queria apenas um caminho mais calmo, para que as coisas acontecessem de forma mais natural em sua vida.

afinal, de quem era mesmo aquela vida?

unicamente dela, mas às vezes Brigitte parecia esquecer-se disso. aquela escolha, relacionada à próxima pessoa com a qual dividiria sua vida, decididamente, ficou para depois. ou para nunca mais.

14 de out. de 2004

Nosso clichê


é dos nossos limites que estou falando. um limite não existe sozinho, sempre está relacionado a duas grandezas. a cada nosso que eu falo, mais eu sei que existimos. o curioso é que quanto mais destemido eu sou, mais medo me aparece (mas queria que esse medo e esse destemor fossem nossos).

e deve ser assim que surge um clichê. por causa de gente assim, que não vive sem.

4 de out. de 2004

Fragmentos recolhidos do limbo


eu não penso duas vezes. eu viro criança, viro mendigo, viro um cachorro sem dono. e mesmo assim me trata como se eu pudesse partir a qualquer momento, como se não soubesse que não há nada que me atraia e me conforte mais do que a sua mera presença.

eu prefiro não tomar a nossa relação como exemplo de nada. prefiro aproxima-la da exceção, lá somos mais inofensivos. ser exceção traz um conforto, uma sensação de liberdade.

modulo os amores em forma de amizade. modulo minhas vontades em nome do que me permitem. às vezes penso que vivo a metade da minha vida, a metade do que seria capaz de experimentar.